5. Discussion
5.2. Sleep scoring and on getting good sleep recordings
Na prática pedagógica, Pestalozzi parte do princípio de que existe no homem uma essência divina, uma força interior que o possibilita realizar-se moralmente sobrepondo-se aos instintos e prescindindo da ação reguladora da sociedade. Para despertar essa essência no homem ou desabrochar as potencialidades da criança, Pestalozzi propôs e praticou uma educação moral, baseadas em três etapas, não estanques e não excludentes a saber: o amor; a percepção (Anschauung)37 e o exercício moral; a linguagem e a verbalização da moral. Esta tríade do educador tem como base a educação moral para o desenvolvimento integral da criança (coração, cabeça e mãos). Sua Pedagogia foi bastante influenciada pelo sistema filosófico de Kant.
O amor materno proposto por Pestalozzi tem relação com o amor pedagógico, ou seja, ele prega que o educador no seu relacionamento com a criança seja uma entrega tal como o amor maternal, preconizado pelo cristianismo, que será também ponto de partida para a fé em Deus, para a religiosidade da criança. A defesa da família, dos princípios que envolvem a
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A palavra Anschauung utilizada por Pestalozzi foi transposta para língua latina como intuição. Na pedagogia de Pestalozzi bem como na de Froebel e de Herbart ela tem o sentido de experiência, na história da pedagogia e da filosofia ela assume vários significados VER: Incontri, 1997.
família e a visão de mulher cristã, divulgados pela religião luterana, terá impacto na imagem do futuro professor da criança de seis anos que é a imagem da mulher com o coração de mãe. Esse olhar materno deve ser conduzido também para o interesse e a curiosidade infantil. Inicialmente, a mãe é quem deve provocar e manter vivo o interesse pela aprendizagem; esses são os pressupostos iniciais para o desenvolvimento das potencialidades da criança e que Pestalozzi deseja transferir para a escola pública. Como a mãe que acompanha diariamente toda mudança no estado da alma do seu filho, a partir de seus olhos, de sua boca, de sua expressão, assim deve ser o educador, uma força paterna animada pela presença da extensão das circunstancias familiares.
Mas esse amor materno não é meramente um sentimento, ou uma sensibilidade exagerada que obscurece a visão; ligando-o a sua concepção de ser, Pestalozzi confere um contorno de um conceito filosófico, irá afirmar que a formação elementar da natureza humana é para o amor vidente, o amor reflexivo que é aquele capaz de reconhecer os conflitos, fragilidades e multiplicidade. A mãe será coadjuvante do amor que irá iluminar a meta da educação que tem o objetivo final: “preparar para a vida; não de dar o hábito da obediência cega e da diligência comandada, mas de preparar para o agir autônomo” (INCONTRI, 1997, p. 96).
A partir do amor como referencial, a sua concepção de educação é estendida, esta não diz respeito exclusivamente à escola; a educação escolar é vista como um complemento da educação doméstica e o amor materno38 ou o auxílio das mães tem um papel fundamental na educação da criança. Pestalozzi “estabelece uma continuidade de princípios entre a educação materna e a do professor”, no seu trabalho com crianças órfãs e abandonadas em instituições não escolares, em escolas públicas e depois nas escolas de internato (MANACORDA, 1999, p.263). Nessa vinculação escola e lar fica evidente a importância das lições de coisas como pedagogia organicamente posta neste trânsito casa/escola.
A percepção e a linguagem em Pestalozzi também estão direcionadas para a educação integral da criança e têm como fundamento a moral. Assim como vimos com os teóricos estudados até agora, Pestalozzi também irá recusar a aprendizagem inicial das crianças
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O amor materno e a família adquire um potencial transformador através da figura de Gertrudes que aparece como uma verdadeira heroína, um modelo a ser seguido por todos representa a educadora por excelência, dando carinho, segurança, ensinando os rudimentos da escrita e da leitura e treinando em suas oficinas caseiras as crianças para a disciplina e o trabalho. Ver FREITAG na bibliografia (op. cit).
fundamentadas pela palavra. Centrado na ideia de que a instrução deve começar pelas coisas e os sentidos auxiliam a criança a buscar o conhecimento, Pestalozzi orienta que a criança tenha acesso aos objetos da realidade. A percepção será a base de toda a educação, é a partir do conhecimento adquirido/realizado sobre as coisas que o homem constrói o seu discurso que será expressão e efeito de conhecimentos realizados sobre as coisas. A percepção aparecerá no manual de Calkins como um dos princípios fundamentais para o desenvolvimento das
lições de coisas, nesse sentido, sugere-se que a educação inicie pela “cultura das faculdades
perceptivas”, que consiste principalmente, “em proporcionar ocasiões e estímulos ao desenvolvimento delas, e fixar as percepções no espírito pelos meios representativos, que a palavra nos subministra” (BARBOSA, 1886, p. 29).
De acordo com Incontri (1997, p.100), Pestalozzi revela-se um sucessor de Rousseau, ao entender que “a linguagem não cria a realidade, apenas lhe dá vestimenta”, mas, com relação ao conceito de percepção segue por caminhos não percorridos por ele.
Rousseau contrapõe sensações à imagem e percepção a ideias. As primeiras podem aparecer sozinhas, a percepção ou ideia pressupõe relação, ou seja, nossas sensações são “puramente passivas” enquanto as nossas “percepções ou ideias nascem de um principio ativo que julga”, de forma ativa; compara, aproxima, determina relações que não há na sensação. Rousseau irá afirmar também, que antes da idade da razão as crianças apenas refletem como um espelho, as informações recebidas. “Todo o seu saber está na sensação, nada se instalou no entendimento”. As lições, várias vezes repetidas são apenas imitação e não tem nada de compreensão. A memória da criança é mais perfeita que suas outras faculdades, mas quase sempre é preciso que elas tornem a aprender quando adultas as coisas cujas palavras elas aprenderam na infância (CERIZARA, s/d. p. 120).
Com isso, Rousseau não afirma que as crianças não raciocinam, elas raciocinam de forma diferente do adulto. Desta forma, Rousseau que mostrar a diferença entre razão intelectual e a sensitiva ou “razão sensível”, que Piaget chamará nos estudos psicológicos sobre o desenvolvimento cognitivo das crianças, de “inteligência pré-operatória”, que está apoiada no aparato sensório motor da criança e tem como característica a “auto concentração, o imediatismo, a irreversibilidade” (id, p. 121).
Pestalozzi ao tomar como princípio a relação objeto e sujeito irá afirmar que antes de se chegar à formulação de um conceito é preciso “criar um lastro de experiências,
observações, vivências – resumidas na percepção”, requisito básico para a criança verbalizar uma ideia. A ideia nasce da relação do sujeito com o mundo e a verbalização dessa ideia Pestalozzi compara a um fruto maduro, de que “as palavras representam apenas a casca”. A semente e o fruto devem se constituir da seiva da realidade (INCONTRI, 1997, p. 101). Esse ponto de vista de Pestalozzi conduz a duas faces complementares da percepção: a exterior e a interior. A percepção exterior está relacionada com a percepção sensorial, a observação do sujeito ao objeto. A impressão que o sujeito tem do objeto não se trata de uma impressão passiva, “numa linha puramente empirista”, o sujeito se “deixa impregnar pelas impressões externas, mas reage diante delas. A consciência se move ante a apreensão sensorial” (id, p. 101) essa percepção exterior não acontece de forma rápida, direta, ela caracteriza-se pela ‘lentidão e equilíbrio dos estímulos que atingem as potencialidades do homem”. O processo do sujeito de se apoderar da sua realidade mais próxima, exige que ele perceba, capte, cheire, apalpe, verifique, se aposse do objeto com deslumbramento e calma; quanto ao equilíbrio, não há preferência na natureza por nenhum objeto ou exercício de um sentido mais que o outro, a natureza atua na natureza humana de forma equilibrada. O segundo aspecto, o da percepção interior, constitui-se “na apreensão do sujeito por si mesmo”. De acordo com Pestalozzi existe dentro do ser humano um ponto central, o centro do seu ser, de onde se irradia os “círculos do saber”, a sabedoria humana, que deverá orientar todas as forças da verdade. A apreensão do homem de si mesmo (percepção interior) “não é mera percepção no plano intelectual - da consciência debruçada sobre si própria. O caráter da percepção interior está nos planos sensorial, afetivo-moral e intelectual” (INCONTRI, 1997, p. 102).
A percepção pestalozziana tem ligação com sua proposta de educação integral, no sentido de que todas as potencialidades do indivíduo devem desenvolver-se de forma harmoniosa e não desprezar nenhum aspecto da totalidade humana, havendo uma unidade de caráter orgânica e viva ao homem enquanto sujeito e objeto do universo. A criança pestalozziana ao educar-se toma posse do seu espírito como resultado do desenvolvimento das suas faculdades físicas, intelectuais e morais nas quais a linguagem terá um papel importante. Paulo Freire vai dizer que não é o discurso que ajuíza a prática, mas, o contrário disso, para ele a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Nesse caso ele segue na esteira dessa perspectiva fundamentada por Pestalozzi em diálogo com os pensadores clássicos.
Na sua proposta de educação integral, a recusa de Pestalozzi em iniciar a aprendizagem das crianças pelas palavras não fará com que ele despreze a linguagem e ao
desenvolver o seu método ele irá destacar formas de linguagens diferentes, - a forma (desenho), o número (aritmética), a língua (a palavra), - instrumentos de manifestação e de organização da percepção. Ele tem todo o cuidado em fazer com que cada palavra seja fruto de percepção. “tenta evitar que a linguagem chegue à criança como um instrumento destituído de significados” (INCONTRI, 1997, p 108). A percepção é expressa por meio da comunicação. Se a percepção representa a forma individual (brota do centro do eu), a linguagem representa a face coletiva, é cultural, é dada de fora para dentro. A linguagem por sua vez não serve apenas para nomear objetos, é através dela que o indivíduo manifesta a sua interpretação da realidade por meio de estruturas lógicas. Da percepção conquista-se o pensamento, avança-se para a síntese. A esse “processo dialético da pedagogia pestalozziana” entre as percepções iniciais e a extensão dos conceitos (julgamento, discernimento), a linguagem aparece como intermediária.
A partir do entendimento de Pestalozzi sobre a percepção ou intuição é possível concluir neste primeiro momento que: a percepção ou a intuição é a verdadeira fonte do conhecimento, por isso será à base da educação proposta por Pestalozzi; as percepções nascem de um princípio ativo, a partir da relação do sujeito como o mundo e com o seu próprio eu; a linguagem é uma forma de manifestação da percepção; o saber que nasce do contato do homem com a natureza cria uma unidade com ele mesmo, com as circunstancias da sua vida havendo um desenvolvimento equilibrado das faculdades de sua alma.
Para Pestalozzi os poderes morais, intelectuais e práticos do homem devem ser alimentados e desenvolvidos em si mesmo e não por meios artificiais. É isso que irá fundamentar sua crítica ao ensino abstrato e verbalista. Ao valorizar a intuição ou a percepção nos moldes apresentados ele irá priorizar a curiosidade do educando como impulso do conhecimento; o próprio educando que toma consciência do mundo e de si mesmo; a relação dos saberes com a vida (a experiência, a inteligência prática do educando); a totalidade do ser.