De acordo com o que já foi exposto no item 2.4, A amizade como um modo de vida homossexual, a estética da existência, na atualidade, deve ser pensada como uma forma de vida que pode encontrar na amizade sua mais perfeita expressão. Consiste, portanto, na criação de uma relação não-normativa consigo mesmo e com o outro, na formação de si próprio como decisão ético-estética.
Assim, a ascese, enquanto um saber do sujeito e que corresponde a sua atividade de autotransformação, deve ser concebida, na contemporaneidade, não em sua acepção cristã de auto-renúncia ou auto-restrição, mas no sentido de auto-elaboração, ou seja, uma ascese homossexual como possibilidade de se equipar (ORTEGA, 1999). Trata-se de chegar, mediante a sexualidade, a uma nova forma de existência. É entendida aqui como uma “tecnologia de si” a partir da qual o indivíduo procura criar um tipo de relacionamento intenso e móvel, não permitindo que as relações de poder se transformem em estado de dominação. Esse tipo de tecnologia é conferida na produção de sentido da confissão de João Paulo que, ao expor sua situação de homoafetivo – de ser alvo de críticas, de ser solitário - como podemos ver no trecho registrado em página anterior (ou na íntegra, na carta em anexo), diz ter conhecido, na Universidade, um professor homossexual (embora este já tivesse um namorado) e que, graças a ele, como podemos evidenciar, chega a uma nova forma de existência. Examinamos esses efeitos de sentido nos mecanismos discursivos por ele empregados:
[...] graças a ele, me tornei uma pessoa mais independente. Hoje saio mais e fiz amigos gays.
É com o verbo “tornar-se” que João Paulo, vem marcar lingüístico e discursivamente a mudança ocorrida em sua vida. Uma ascese homossexual é estabelecida: passa a ser “uma pessoa mais independente”; e para indicar as ações que se sucedem em decorrência de tal fato, utiliza em seu discurso o verbo “sair” acompanhado do advérbio de intensidade - Hoje saio mais - e o verbo “fazer” indicando conquistar - fiz amigos gays.
Esse novo modo de vida só foi possível pela amizade dele com o professor, marcada em seu enunciado pelo pronome pessoal: graças a “ele”.
Ao enunciar: graças a ele, João Paulo instaura discursivamente a importância do papel da amizade em sua vida. Nesse tipo de tecnologia, o papel do outro é vital para a produção de um novo esboço de si. Daí o caráter intersubjetivo da amizade. O encontro com o outro, mesmo que não tenha implicado um envolvimento sexual, o tornou mais suscetível a novas amizades, e amizades com gays, situação antes não vivenciada. Eribon (2008) considera que as redes de amigos são uma das instituições mais significativa da vida homossexual. Como escreve Henning Bech (citado por ERIBON, 2008, p. 38), “Estar com os outros homossexuais permite ver a si mesmo neles. Permite partilhar e interpretar a própria existência”.
Assim, nova possibilidade de vida homoafetiva estabeleceu-se, oportunizando-lhe a abertura de outras virtualidades relacionais e afetivas; e isto representa um dado importante no que se refere ao modo de vida homossexual proposto por Foucault. Dessa forma, nessa nova ascese, trata-se não de uma autoconstituição isolada que exclui o relacionamento com o outro, mas de um modo de subjetivação em que o outro se presentifica como figura necessária a sua constituição ética. O sujeito é assim, marcado pela alteridade. Isso tem a ver com o que diz Bakhtin (2003b, p. 342), na “Reformulação do livro sobre Dostoiévski”14: “Eu não posso passar sem o outro, não posso me tornar eu mesmo sem o outro: eu devo encontrar a mim mesmo no outro, encontrar o outro em mim (no reflexo recíproco, na percepção recíproca)”; ou em outra passagem desse mesmo texto, quando afirma: “O homem existe em realidade nas formas do eu e do outro”(p. 349).
Ademais, a amizade tem a capacidade de superar a tensão entre o indivíduo e a sociedade: João Paulo se torna uma pessoa “mais independente”, “sai mais”. É uma atitude política sedimentada na resistência às formas impostas de subjetividade. Poderíamos enxergar que essa atitude estaria contemplada naquela feição que, na esteira de Foucault (1981), deveria assumir a estética da existência na atualidade: não permanecer no âmbito individual do homem dominante de si representativo da Antigüidade, mas apontar para uma subjetivação coletiva, para um modo de vida ou, usando as expressões de Deleuze (2007, p. 214), para “um devir minoritário”, que encontra sua expressão na amizade. A amizade se estabelece como modo de vida que ativa as potências afetivas, relacionais,
eróticas, estéticas, etc., mobilizando toda a subjetividade numa relação agônica, de luta constante num processo de reinvenção.
Já na confissão de Donato, pelo próprio título da carta, Não consigo ser amigo, podemos entrever nos efeitos de sentido que esse tipo de tecnologia produz, não se estabelece. Trata-se de uma situação marcada por um desejo sexual incontido, não correspondido, que Donato sente por Fábio, uma pessoa que conhecera em 2002, com quem se relacionou algumas vezes e por quem se apaixonou “logo de cara”, mas cujo relacionamento não deu certo, uma vez que Fábio o abandonou (havendo incidência desse abandono), indo morar com outro homem. Embora exista uma tentativa de se tornarem amigos, como se pode observar na construção discursiva de Donato ao expor a infidelidade do parceiro - Desde então tentamos ser amigos - ou nas propostas de Fábio, conforme Donato relata - Ele insiste em dizer que sou mais importante que qualquer namorado porque comigo ele pode compartilhar várias facetas da vida, e com eles não. Também diz que os namorados passam e eu fico porque sou o melhor amigo - não é possível se estabelecer um vínculo de amizade, pois na amizade, como em qualquer tipo de relacionamento, deve ter troca, requer, em primeira instância, a confiança, o compromisso, a partilha e principalmente, para essa nova ascese, a intensificação do prazer. Daí não poder criar outros modos de vida. Não há espaço para alimentar e intensificar o prazer. Vejamos outros enunciados do seu relato:
Namoro outro cara, que amo muito.
Esse arranjo com Fábio até me satisfaz, mas não sei o que fazer com o tesão que sinto por ele.
Também fico infeliz quando quero está com ele e não posso.
Podemos observar que, no seu posicionamento discursivo, a relação de Donato com Fábio não se caracteriza nos moldes de uma proposta de amizade homossexual; distancia- se, portanto, da concepção do filósofo, de ser “a soma de todas as coisas mediante as quais se pode obter um prazer mútuo” (FOUCAULT 1981, s/p). A amizade, enquanto técnica de si, representa uma busca e uma experimentação de novas formas de relacionamento e de prazer, uma maneira de respeitar e intensificar o prazer próprio e do amigo.