• No results found

4. Responses due to slam loads

4.1 Slam load from experiment

As notícias da mídia – embora pautadas por critérios clássicos como “objetividade” e “imparcialidade” – constituem uma abordagem acerca de determinado tema. E apesar das diversas rotinas jornalísticas que buscam garanti-los (tais como a “pirâmide invertida”, consultar diversas fontes, checar informações, contextualizar, etc.), as marcas desse “recorte” estão sempre presentes, de formas que podem ser mais ou menos explícitas. Além disso, mais que “recortes da realidade”, as notícias da mídia são tanto interpretações de aspectos da realidade quanto construções discursivas a partir de tais interpretações, fornecendo assim importantes esquemas interpretativos (ou “chaves”) para a produção de sentidos sobre essa mesma realidade pelo público.

Essa abordagem noticiosa resulta, portanto, em um ângulo, enfoque ou tratamento. E ainda, utilizando a nomenclatura na qual se baseia esta pesquisa, enquadramento. Um dos pioneiros a aplicar a definição de enquadramento aos eventos sociais de forma geral, o sociólogo Erving Goffman o define em termos da organização da experiência.

Parto do princípio de que as definições de uma situação são construídas de acordo com os princípios de organização que governam eventos – pelo menos os sociais – e nosso envolvimento subjetivo neles; enquadramentos é a palavra que eu uso para designar a tais elementos básicos como eu sou capaz de identificar. Minha frase “análise de enquadramento” é um slogan para designar o exame nesses termos de organização da experiência (Goffman, 1974:10).21

Mesmo focada na organização social da experiência e no envolvimento do indivíduo com relação aos eventos, a definição teórica do autor acerca de frame e framing extrapola a fenomenologia na qual foi gerada, sendo utilizada em escopos mais amplos e aplicada a objetos distintos que possuem como característica comum o

                                                                                                                21

I assume that definitions of a situation are built up in accordance with principles of organization which govern events – at least social ones – and our subjective involvement in them; frames is the word I use to refer to such of these basic elements as I am able to identify. My phrase “frame analysis” is a slogan to refer to the examination in these terms of the organization of experience. Tradução livre.

 

fato de serem construções simbólicas, frequentemente discursivas. Por esta razão, a noção de enquadramento tem sido cada vez mais utilizada na análise da mídia e de suas relações com a sociedade, principalmente no campo político – como destaca Mauro Porto em seu artigo Enquadramentos da Mídia e Política:

Nas pesquisas sobre o papel dos meios de comunicação em processos políticos, um enfoque tem atingido níveis importantes de proeminência e popularidade. Este enfoque, cujo desenvolvimento é relativamente recente, tem como base o conceito de “enquadramento” (framing). Apesar do paradigma encontrar-se ainda em estado embrionário, suas aplicações têm dinamizado o campo da comunicação política, oferecendo uma nova perspectiva para entender o papel da mídia (Porto, 2002:1).

Talvez por encontrar-se em “estado embrionário” ou pela diversidade de casos ao quais é aplicado, o conceito de enquadramento não conta com uma teoria única, possuindo inclusive tipificações que variam de autor para autor. Ainda de acordo com Porto, “um dos problemas mais sérios dos estudos de enquadramento é um ‘forte indeterminismo conceitual’: o conceito é utilizado de diversas formas, com sentidos distintos e designando objetos diferentes” (Porto, 2002:14).

Reconhecendo a existência desses problemas, a presente pesquisa adota definições de enquadramento relativas às notícias produzidas pela mídia sobretudo no âmbito político, mas sem entrar no mérito de utilizar classificações já existentes. Desta forma, aproveita as contribuições que tais desenvolvimentos teóricos podem fornecer para o trabalho sem correr o risco de comprometer-se com formulações que porventura entrem em conflito, limitem as análises ou até mesmo fujam do objetivo inicial da investigação.

Em seu livro The Whole World is Watching: Mass Media and the Making and Unmaking of the New Left, o norte-americano Todd Gitlin analisa como os grandes veículos de comunicação norte-americanos (em especial os televisivos) cobriram o na época recém-surgido movimento estudantil contra a Guerra do Vietnã – o SDS, ou Students for a Democratic Society –, e quais as consequências dos enquadramentos utilizados pela mídia para o próprio movimento, que também teve que aprender os códigos midiáticos para ter visibilidade.

Embora utilizando conceitos como “ideologia hegemônica”, de Gramsci, e sua reprodução consciente ou inconsciente pelos veículos e seus profissionais, a principal contribuição de Gitlin utilizada neste trabalho é reconhecer o caráter construído dos relatos jornalísticos, apesar dos paradigmas anteriormente citados (objetividade e imparcialidade), que procuram apagar ou minimizar as marcas desta construção nas notícias produzidas. E, principalmente, como o enquadramento das notícias constrói o real ao invés de “espelhá-lo”, contribuindo inclusive para a formação dos quadros de referência de quem as consome. Sobre a cobertura de um protesto nas ruas de Chicago em agosto de 1968, Gitlin disse:

Seja o que for, simplesmente o jornalismo – em especial a televisão, com toda sua vividez – não estava meramente “segurando o espelho para a realidade”, para usar a metáfora preferida do próprio jornalismo. Ele estava pelo menos em parte compondo a realidade, e a composição estava sendo entronizada em nossas próprias deliberações – e mais, no nosso entendimento sobre o que somos e o para o que viemos (Gitlin, 2003:xiv).22

Mais adiante, ainda questionando a “aura” da representação midiática, o autor recorre a Goffman para continuar a desenvolver a ideia de que os enquadramentos nos discursos noticiosos são tanto uma maneira de os jornalistas apreenderem o evento que eles devem reportar, como uma forma de dispô-lo, além de propiciar a compreensão do mesmo pelo público – que o fará em grande medida levando em consideração o enquadramento utilizado na notícia. “A notícia é uma escolha, uma maneira de enxergar um evento (...)” (Gitlin, 2003:49-51)23. De acordo com ele, também são os próprios enquadramentos que dão a “impressão de realidade” conferida por ela.

O que faz o mundo além da experiência direta parecer natural é o enquadramento da mídia. Certamente não podemos tomar como dado que o mundo descrito é simplesmente o mundo que existe. Muitas coisas existem.

                                                                                                                22

Whatever it is, plainly journalism – specially television, with all its vividness – was not merely “holding up a mirror to reality”, to use journalism`s own favorite metaphor. It was at least in part composing reality, and the composition was entering into our own deliberations – and more, our understanding of who we are and what we are about. Tradução livre.

23

 

A cada momento o mundo fervilha de eventos. Mesmo em um evento há uma infinidade de detalhes noticiáveis. Enquadramentos são princípios de seleção, ênfase e apresentação compostos por pequenas teorias tácitas sobre o que existe, o que acontece, e o que importa. Na vida cotidiana, como Erving Goffman demonstrou amplamente, nós enquadramos a realidade a fim de negociá-la, administrá-la, compreendê-la, e escolher repertórios apropriados de cognição e ação. Enquadramentos da mídia, largamente não ditos e não confessados, organizam o mundo tanto para os jornalistas que o reportam, quanto, em grau importante, para nós que contamos com suas reportagens (Gitlin, 2003:7).24

A referência a Goffman, neste caso, é clara não apenas pela menção direta que Gitlin faz, mas principalmente pelo uso do verbo organizar: quando fala dos enquadramentos midiáticos, Gitlin destaca 1) que enquadramentos são princípios de seleção, ênfase e apresentação, ou “o ponto de vista adotado pelo texto noticioso que destaca certos elementos de uma realidade em detrimento de outros” (Porto, 2002:15); 2) que, cotidianamente e de forma geral, utilizamos enquadramentos para nos “apropriarmos” da realidade, tornando-a inteligível 3) os enquadramentos organizam o mundo para os jornalistas, e também em grau considerável, para o público – ou seja, enquadramentos midiáticos são formas importantes de organização da experiência.

No livro Making News: A Study in The Construction of Reality, a socióloga Gaye Tuchman também se baseia em grande parte nos desenvolvimentos de Goffman, além de se apoiar fortemente na etnometodologia, para desenvolver sua ideia de notícia como enquadramento (Tuchman, 1978:1)25 e de que as notícias, mais do que serem relatos da realidade, a constituem e constroem – principalmente porque Tuchman leva em consideração as rotinas organizacionais e profissionais jornalísticas. Os trabalhos de Gitlin e Tuchman, neste aspecto, guardam semelhanças,

                                                                                                                24

What makes the world beyond direct experience look natural is a media frame. Certainly we cannot take for granted that the world depicted is simply the world that exists. Many things exist. At each moment the world is rife with events. Even within a given event there is an infinity of noticeable details. Frames are principles of selection, emphasis, and presentation composed of little tacit theories about what exists, what happens, and what matters. In everyday life, as Ervin Goffman has amply demonstrated, we frame reality in order to negociate it, manage it, comprehend it, and choose appropriate repertories of cognition and action. Media frames, largely unspoken and unackowledged, organize the world both for journalists who report it and, in some important degree, for us who rely on their reports. Tradução livre.

25

embora tenham uma diferença de perspectiva que cabe assinalar aqui: Gitlin, ao contrário de Tuchman, não considera que “notícias são uma janela para o mundo” (idem)26, o que creio ser um ponto crítico na obra da socióloga. A utilização da metáfora “janela”, mesmo que seja compreensível na abordagem sobre enquadramento e afim a uma organização da experiência do mundo, traz em si uma concepção muito “naturalizada” da notícia – o que a própria autora desconstrói em seu livro. No entanto, dada a importância dos seus estudos para a sociologia da comunicação, creio ser fundamental destacar de que forma eles contribuem para este trabalho.

Tuchman, como Gitlin, afirma que o enquadramento noticioso, através de princípios seletivos, define o que é um fato relevante para ser levado a conhecimento público ao mesmo tempo em que contribui para estabelecer uma ideia geral do que é a relevância. “As notícias não só emprestam às ocorrências sua existência enquanto eventos públicos como conferem singularidade a eles, pois as matérias ajudam a moldar uma definição pública de acontecimentos ao atribuir-lhes seletivamente a detalhes específicos ou "particularidades” (Tuchman, 1978:190).27 Em seguida, Tuchman explica o que podemos entender como uma relação metonímica entre o enquadramento e a realidade que ele organiza e da qual faz parte. “O enquadramento da notícia organiza a realidade diária e o enquadramento da notícia é parte e parcela da realidade diária, pois, como vimos, o caráter público é uma característica essencial da notícia” (Tuchman, 1978:193). 28

Corroborando a perspectiva dos enquadramentos enquanto ferramentas de organização da experiência do mundo sobretudo para o público, Alessandra Aldé comenta no livro A construção da política: democracia, cidadania e meios de comunicação de massa o papel da mídia na construção de “atalhos” interpretativos principalmente no que diz respeito a assuntos e temas complexos, cuja percepção de sua influência no dia-a-dia não é tão óbvia – tal como a política. Desta forma, os enquadramentos midiáticos contribuem para tornar próximos esses mundos distantes,

                                                                                                                26

news is a window on the world. Tradução livre.

27

“News stories not only lend occurences their existence as public events, but also impart character to them, for news reports help to shape public definition of happenings by selectively attributing to them specific details or “particulars”. Tradução livre.  

28

“The news frame organizes everyday reality and the news frame is part and parcel of everyday reality, for, as we have seen, the public character of news is a essential feature of news.” Tradução livre.

 

ao mesmo tempo em que, dada sua repetição e até mesmo homogeneidade, naturalizam não apenas tais temáticas, como os próprios enquadramentos.

A mídia, evidentemente, ocupa um lugar de destaque no universo de referência de todos os indivíduos, quer pela sua homogeneidade discursiva, tendendo a repetir os principais enquadramentos, quer pela acessibilidade quase universal dos meios de comunicação de massa – um conhecimento é mais acessível quanto mais recente, frequente ou cronicamente disponível. Enquanto cada indivíduo está sujeito a enormes variações no que diz respeito a outros quadros de referência, os meios de comunicação de massa oferecem maciçamente uma diversidade limitada de enquadramentos. (Aldé, 2004:135- 136).

Robert Entman, no texto Framing: Towards Clarification of a Fractured Paradigm, destaca a importância das implicações dos enquadramentos na comunicação política, também mencionando que eles são impressões da luta pelo poder no discurso ao destacar aspectos da realidade em detrimento de outros. “Enquadramento, sob esta luz, desempenha um papel fundamental na extensão do poder político – ele registra a identidade dos atores ou interesses que competem para dominar o texto” (Entman, 1993:55).29 Segundo ele, os enquadramentos – ao salientarem determinadas informações relativas a um item que é o assunto da notícia – contribuem para tornar essas mesmas informações mais noticiáveis, dotadas de sentido e memoráveis para a audiência. E assim como Aldé, Entman lembra a homogeneidade de enquadramentos nos textos noticiosos, ressaltando todavia – em um contexto de análise das matérias de política – que nem sempre isso se verifica justamente pela presença das lutas simbólicas no texto. “Refletindo o jogo de poder e fronteiras do discurso acerca de uma questão, muitos textos de notícias exibem enquadramentos homogêneos em um nível de análise, embora competindo enquadramentos em outro" (Idem).30

Se por vezes os enquadramentos se repetem, sendo essa uma das maneiras de fixarem o sentido da informação destacada – “Enquadramentos são padrões                                                                                                                

29

Framing in this light plays a major role in the extension of political power – it registers the identity of actors or interests that competed to dominate the text. Tradução livre.

30

“Reflecting the play of power and boundaries of discourse over an issue, many news texts exhibit homogeneous framing at one level of analysis, yet competing frames at another”. Tradução livre.

persistentes de cognição, interpretação, e seleção, ênfase, e exclusão, através dos quais os agenciadores simbólicos rotineiramente organizam o discurso, seja ele verbal ou visual” (Gitlin, 2003:7)31 –, tampouco é porque eles apenas reproduzem padrões encontrados na esfera midiática. É o que explicam Alessandra Aldé e Fernando Lattman-Weltman no artigo O MST na TV: sublimação do político, moralismo e crônica cotidiana do nosso “estado de natureza” – no qual analisam os enquadramentos referentes a eventos que envolveram o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), fazendeiros e governo nos principais telejornais da rede Globo e do SBT, que possuíam em fins da década de 1990 as maiores audiências do país.

De acordo com os autores, baseados em Fiske e Kinder, além de Entman, a inserção da mídia em um sistema simbólico mais amplo faz com que os enquadramentos noticiosos se inscrevam em uma estrutura relativamente duradoura, na qual os eventos podem até mudar, mas as formas como são tratados, nem tanto. As narrativas da mídia, por conseguinte, seriam resultado da interação entre a própria mídia, o sistema simbólico, os eventos e seus protagonistas, e ainda expectativas com relação à audiência (Aldé, Lattman-Weltman, 2000:91) – de maneira que o enquadramento seria uma forma discursiva e circunstancial de apropriação de padrões cognitivos pré-existentes. Tais fatores – aliados a rotinas organizacionais e profissionais, e levando em consideração o contexto – podem até limitar uma “autonomia” discursiva, mas não impedem que os veículos exerçam influência na reprodução de tais enquadramentos.

Por outro lado, ao se inserirem na economia política concreta os meios de comunicação de modo algum se limitam a reproduzir os padrões de enquadramento vigentes: como atores interessados eles interferem diretamente nessa reprodução, mesmo que sua própria intervenção seja limitada estruturalmente – tanto cognitiva quanto ideologicamente – por suas condições de produção e pelas variações históricas, sociais e culturais que se impõem sobre as diferentes formas de consumo e recepção dessa mesma produção. (Aldé, Lattman-Weltman, 2000:91)

                                                                                                                31

“Media frames are persistent patterns of cognition, interpretation, and selection, emphasis, and exclusion, by which symbol-handlers routinely organize discourse, whether verbal or visual”. Tradução livre.

 

Cabe destacar que o estudo aqui proposto tem como foco os enquadramentos da mídia relativos ao conteúdo das notícias, e não as situações em que eles foram gerados ou os efeitos que os mesmos possam suscitar na recepção, deliberadamente ou não. Segundo Ricardo Fabrino de Souza e Paula Guimarães Simões no artigo Enquadramento: diferentes operacionalizações de um conceito, a análise do conteúdo discursivo seria uma segunda vertente de estudos pautados pela noção de enquadramento, ao lado da análise da situação interativa (que seria a primeira) e da análise de efeito estratégico (a terceira e última).

Tal vertente compartilharia dos pressupostos de Goffman, nos quais “enquadramentos são estruturas que orientam a percepção da realidade e a ação dos sujeitos sobre ela” (Mendonça, Simões, 2012:194). Ainda de acordo com os autores, no entanto, não é no contexto pragmático que se buscam os quadros, e sim no conteúdo dos discursos. “É no conteúdo que se busca o quadro, visto como uma espécie de ângulo, que permite compreender uma interpretação proposta em detrimento de outras”. (Idem). Assim, esta pesquisa tem como objetivo realizar uma análise de enquadramento com base em análise de discurso, usando para isso métodos quantitativos e qualitativos com o intuito de mitigar limitações encontradas nesse tipo de enfoque.

Tais métodos são, grosso modo, ferramentas que auxiliam na busca por uma resposta à questão “o que está ocorrendo aqui?”: para Goffman, essa resposta constitui um tipo particular de enquadramento, o enquadramento primário (Goffman, 1974:25). E este trabalho – embora não tenha como intenção classificar tipos de enquadramento – pretende responder a essa pergunta ao tentar identificar, através da análise de conteúdo das notícias relativas à nova classe média no jornal O Globo, se o enquadramento sobre a nova classe média mudou, em função de variáveis políticas, com a ida de Marcelo Neri da FGV para o governo. E, em caso positivo, de que maneira isso ocorreu.

A parceria com a Escola de Matemática Aplicada nesta pesquisa tem o objetivo de auxiliar na formulação de metodologias mais precisas de análise de enquadramento no nível discursivo, o que para Porto constitui uma das deficiências comumente encontradas nesse tipo de análise.

(...) outra debilidade dos estudos de enquadramento é a frequente ausência de métodos sistemáticos para a análise de conteúdo da mídia. Sem este tipo de método, pesquisadores tendem a encontrar os enquadramentos que procuram ou que comprovam suas hipóteses, ignorando evidências contrárias importantes (...). É preciso, portanto, desenvolver métodos de análise mais sistemáticos e menos subjetivos. (Porto, 2002:18)

Em seu texto, Porto ainda destaca que mais importante do que a metodologia adotada é a inclusão, na análise, de classificações sistemáticas e protocolos (idem), bem como medidas quantitativas como tempo e espaço dedicados aos temas. A análise proposta nesta dissertação aprofunda este aspecto, extrapolando a quantificação para alcançar um segundo nível de análise – que evidencie, através das ferramentas formuladas pela EMAp – relações ocultas no texto, porém significativas para a identificação e descrição dos enquadramentos presentes em uma mostra com vários textos noticiosos. “A principal tarefa de se determinar o sentido de um texto deveria ser identificar e descrever enquadramentos” (Entman, 1993:57).32 Vale lembrar, também, que a metodologia desenvolvida em parceria com a Escola permite analisar grandes quantidades de texto, o que amplia as possibilidades de análise de enquadramento sobretudo no que diz respeito ao reconhecimento de padrões e desvios dos mesmos.

Tendo por base as teorias de enquadramento aqui elencadas, e realizando uma apropriação da conceituação de Goffman, proponho para este trabalho uma análise de enquadramento enquanto organização do discurso, ou seja: no caso das notícias da mídia, determinada construção verbal ou não-verbal (ainda que o foco aqui seja o discurso verbal e escrito) acerca de um recorte da realidade. Em caráter complementar, acrescento a esta delimitação do conceito o fato desta construção ser influenciada por aspectos tangíveis e intangíveis desta mesma realidade, ao mesmo