Embora o Sol seja o principal responsável pelo clima da Terra, a regularidade de seu deslocamento anual pelo firmamento faz com que o céu estrelado se apresente com configuração diferente em cada estação do ano. Por isso, há cerca de cinco mil anos o ser humano já associava o comportamento da natureza ao seu redor, na Terra, com a configuração do céu estrelado. Para algumas civilizações, era o céu que produzia aqueles fenômenos, sendo responsável pelas secas e pelas chuvas, pela prosperidade e pela miséria, pela abundância e pela escassez da caça.
A extrapolação dessa inter-relação entre os astros e os acontecimentos terrestres acabou por incluir eventos da vida humana, tendo surgido, então, a Astrologia, que se baseia na hipótese de que a configuração dos planetas no céu, não só, mas especialmente no instante do nascimento de uma pessoa, traz informações sobre sua personalidade, potencializa as relações que estabelece e direciona seu futuro. Assim como os mitos e os rituais associados ao céu, a previsão de acontecimentos terrestres a partir da configuração do céu foi praticada por civilizações de todo o mundo (CELAYA, 2002).
Fuzeau-Braesch (1990) nos diz que a Astrologia provavelmente teve origem na Babilônia em torno do século IV a.C, mas a busca de presságios no céu deve ser anterior a esse período. Inicialmente as previsões objetivavam orientar as atividades agrícolas e, quando estendidas para eventos relacionados com a vida, eram voltadas para a comunidade. Os astrólogos assessoravam os governantes e as previsões individuais só eram realizadas para
7 Os polos celestes são as projeções dos polos geográficos terrestres no céu. Assim, o polo celeste sul está
eles, pois o destino da coletividade estava intimamente ligado ao destino de seus governantes. O avanço da Astrologia para o Ocidente deveu-se à transmissão da cultura babilônica para os gregos. Foram eles que desenvolveram a ideia de que os planetas influenciavam a vida de todas as pessoas.
Como as previsões eram realizadas a partir da configuração dos astros, uma quebra na regularidade dos movimentos celestes era sinal de catástrofes naturais ou tragédias humanas. Por isso, a ocorrência de eclipses ou o surgimento de um cometa eram vistos como maus presságios. Era crença que os cometas anunciavam a morte de governantes e foi o que fizeram com o imperador romano Constantino I (272-337), o rei inglês Ricardo I (1157-1199), o papa Urbano IV (1195-1264) além de muitos outros. Um cometa também prenunciou a derrocada do império asteca por volta de 1520 e a aparição do cometa Halley, já em 1910, induziu grande parte da população o temer pela ocorrência de alguma grande catástrofe (AZEVEDO, 1985).
No Oriente, a Astrologia evoluiu, ampliando suas bases teóricas, e, sobretudo, práticas. Por volta do século X, em Constantinopla existia uma cadeira de Astrologia na universidade. No mesmo período, o mundo islâmico contribuiu de forma notável para o desenvolvimento do conhecimento astrológico. A partir da idade média, a Astrologia precisou se adequar à evolução do pensamento e, portanto, acabou se ressentindo das consequências do processo de transformação derivado do pensamento cristão, que naquele período se difundia no mundo ocidental (CELAYA, 2002).
Mesmo já sendo rejeitada por alguns desde o período pré-cristão, a crença de que os astros condicionam o futuro humano se manteve viva por toda a antiguidade clássica chegando até o Renascimento, conseguindo credibilidade até entre pessoas cultas.
Johannes Kepler (1571-1630), renomado astrônomo alemão, foi praticante da Astrologia, atividade que lhe assegurou os rendimentos necessários à sua sobrevivência. Mourão (2003) afirma que, na concepção de Kepler, três motivos justificavam a possibilidade de prever o futuro por meio das configurações celestes: um de natureza física, outro de natureza psicológica e o último de natureza metafísica.
A física relacionava-se com a luz emitida pelos astros, a psicológica com as emoções provocadas na alma pela harmonia das configurações celestes e a metafísica, a mais importante e mais conjectural, tinha a ver com os valores dos signos relativos ao mapa astral da pessoa. Embora acreditasse nos princípios que norteavam suas previsões, Kepler não era tão afirmativo quando se referia à capacidade de interpretar os signos enviados por Deus, considerando que só podiam ser decifrados pelos profetas. Assim, Kepler manteve-se
reticente com relação às pretensões da Astrologia tradicional (MOURÃO, 2003). No entanto, não se recusava a elaborar horóscopos para os poderosos da época, o que sempre lhe rendia bom dinheiro...
Foi apenas nos séculos XVI e XVII que se efetivou a separação entre a Astronomia e a Astrologia. Neste período aconteceram grandes mudanças, como o descobrimento do Novo Mundo e a proposta de adoção do sistema heliocêntrico em lugar do geocêntrico, o que talvez tenha contribuído para a queda do prestígio da Astrologia no mundo científico. Não havia porque aceitar crenças que não permitiam uma discussão racional ou que não podiam ser testadas empiricamente quando se propunha que a coleta, compilação e análise racional de dados observacionais deveriam determinar a escolha entre os dois grandes sistemas de mundo que se pretendiam verdadeiros.
Contudo, a Astrologia permaneceu viva, relacionando as posições dos planetas e seus ritmos com a vida humana, propondo-se a contribuir para que os indivíduos se conheçam melhor e a indicar as tendências dos acontecimentos, ajudando a pessoas, empresas e até países a tomar decisões de grande importância com base na configuração do céu. Hoje a Astrologia tem sido muito procurada, principalmente e mais popularmente para a previsão de acontecimentos futuros, mas apresenta várias áreas de atuação, ou “mercado”, e especializações: vocacional, financeira, política, de previsão, médica e da personalidade (FUZEAU-BRAESCH, 1990).
No entanto, quando submetida a testes, a Astrologia se mostra inconsistente. Uma série de estudos estatísticos mostrou que as predições astrológicas não são melhores que as adivinhações ao acaso, que as taxas de divórcio não apresentam correlação com as compatibilidades previstas astrologicamente, que os mapas astrais não indicam uma maior probabilidade de seguir determinada carreira e que as pessoas que se valem dos horóscopos tendem a acreditar no que lhes é dito, mesmo que essas afirmações sejam opostas ao previsto originalmente para seus signos (FRAKNOI, 2010).
Defendendo-se das críticas, os astrólogos contra-argumentam que as influências astrológicas existem para além da ciência, num domínio que envolve e toca a alma das pessoas, que as influências se concentram em uma dimensão em que as leis da Ciência não se aplicam, uma dimensão etérea (FUZEAU-BRAESCH, 1990). Se assim for, a crença na Astrologia é apenas isso: crença. Da mesma forma que a crença em um deus, ela não poderia ser provada nem refutada.
Mas os testes mostram que as previsões astrológicas não funcionam, pois é possível saber se as coisas funcionam mesmo que não saibamos como elas funcionam. Por isso, não
estamos defendendo a Astrologia como Ciência, nem que seja ensinada na escola. Trata-se apenas de constatar que a crença no poder das coisas celestes está hoje presente no imaginário humano da mesma forma que esteve há séculos.
A separação entre a Mitologia, a Astrologia e a Astronomia enfraqueceu o antigo conceito de unidade entre o homem e o mundo e essa perda tem relação com a distinção atual entre fé, princípios morais e atividade científica. Essa ruptura está ligada ao moderno desenvolvimento da Ciência, mas, em contrapartida, tem reduzido a pluralidade cultural, ao expor praticamente qualquer comunidade às mesmas imagens, modelos e explicações.
No entanto, nossa cultura atual ainda guarda muito de antigas tradições que nos foram transmitidas por nossos ancestrais. No céu, legaram-nos os nomes de planetas, constelações, estrelas e da grande faixa luminosa que corta o firmamento. Deixaram-nos suas lendas, deuses e heróis, que os ajudavam a reter na memória suas estórias e história, a locomoverem-se sem se perderem, orientados pelas estrelas, e a identificarem as estações do ano e prever as condições climáticas que se seguiriam, quando ocorreriam as enchentes dos rios, qual seria a época da semeadura e da colheita.
Não podemos deixar de destacar que, ainda que o mito tenha sido desqualificado pela Ciência, ainda hoje coexiste, consciente ou inconscientemente, inclusive em certas mitificações das hipóteses científicas. Exemplo disso são a teoria do Big Bang e a energia escura que evocam fantasias em quem não faz ideia do que sejam e também naqueles que pensam fazer ideia.
Consideremos as bilhões de pessoas que habitam este planeta irrisório que gira em torno de uma pequena estrela, entre tantos bilhões de outras, na periferia de uma galáxia, entre bilhões de outras do universo. Não é possível que essa multidão abandone totalmente a crença em qualquer mito. Não pode a Ciência julgar-se portadora de todos os conhecimentos ou, pior ainda, da verdade. Na busca de respostas às suas perguntas sobre a natureza, a humanidade percorreu diversos caminhos até chegar aos científicos, os quais não podem ser esquecidos.