Se a desterritorialização e a reterritorialização são elementos complementares, a relação que se estabelece entre indivíduo e território é constantemente reconfigurada. O significado do termo querência, apresentado anteriormente, reflete essa flutuação e se transforma ao longo dos mais de cinqüenta anos de tradicionalismo gaúcho institucionalizado. A querência é um vínculo, uma conexão, que passa por transformações da mesma forma que as relações entre indivíduo, tempo, espaço e território se modificam.
Adotado pelo tradicionalismo desde a década de 50, o termo querência é agraciado com três páginas no Dicionário de Regionalismos do Rio Grande do Sul (NUNES, 1984), no qual aparece em trechos de poesias e contos. Sua definição é a seguinte:
Querência, s. Lugar onde alguém nasceu, se criou ou se acostumou a viver, e ao qual procura voltar quando dele afastado. Lugar onde habitualmente o gado pasta ou onde foi criado. Pátria, pagos, torrão, rincão, lar.
Na década de 70, o vínculo do gaúcho com seu estado de origem recebe especial destaque. A querência do gaúcho é representada pelo Rio Grande do Sul. A canção
Querência amada (1975), de Teixeirinha, que ilustra esse momento de registração do regionalismo, tornou-se um clássico da cultura gaúcha. Sua composição é de pouco tempo antes do boom dos CTGs, pois na década seguinte o número de entidades saltou de cerca de trezentas para mais de mil dentro do Rio Grande do Sul.
Te quero tanto / torrão gaúcho. / Morrer por ti / me dou o luxo. / Querência amada, / planície e serra, / dos braços que me puxa, / da linda mulher gaúcha, / beleza da minha terra. / Meu coração é pequeno / porque Deus me fez assim. / O Rio Grande é bem maior / mas cabe dentro de mim. / Sou da geração mais nova, / poeta bem macho e guapo, / nas minhas veias escorre / o sangue herói de farrapo. (TEIXEIRINHA, 1975).
Esse apego ao chão foi modulado pelas migrações, pelos CTGs além fronteiras, pela glocalização da cultura e por suas negociações com o sistema cultural vigente. Enquanto para alguns os CTGs aparecem como recorte histórico do Rio Grande do Sul transferido para outro lugar (no espaço e no tempo), outros os vêem como clube ou ponto de encontro entre amigos e familiares. Nilda Jacks registra: “O CTG, no imaginário tradicionalista, é a recriação do ‘pago’ em um ambiente distante dele. Fundar CTGs fora do Rio Grande do Sul representa a dilatação das fronteiras do território gaúcho, o que seria uma desterritorialização às avessas” (1999, p. 258).
Nas entrevistas15 realizadas em entidades tradicionalistas, os CTGs substituem repetidas vezes o estado ou a cidade na definição de querência. São apontados como segunda casa, espaço de convivência: “Querência são as pessoas todas reunidas, todas em família, todas em amizade. É o Centro de Tradições, são os eventos, nós somos uma grande família aqui dentro”, explica o porto-alegrense Rogério Pereira Guedes (e.p.). Da mesma forma, a tradicionalista Norma Mott (e.p.) registra que a querência é “a casa da gente, o lugar da gente”, apontando como seu “lugar” o CTG Estância Colorada, no Paraná.
Quando perguntados sobre onde é sua querência, a maioria dos tradicionalistas responde com a cidade onde vivem ou com o CTG que freqüenta. Alguns apontam o lugar de nascimento, seu estado ou onde está a família. Mas quando são questionados sobre o que é querência, as respostas giram em torno das relações, dos contatos com outros participantes: “eu acho que se trata de um lugar onde a gente vive, em que a gente imagina nossa família, dentro do tradicionalismo. Em que a gente tem nossa rede de amigos, família...”, explica Ellen Chrun (e.p.).
O quadro abaixo resulta dessas entrevistas – em que os integrantes de CTGs responderam à pergunta “O que é querência?”. Agrupadas, as respostas formam um quadro que podemos comparar com a definição inicial do termo, retirada do Dicionário de
Regionalismos do Rio Grande do Sul (NUNES, 1984).
15 . Idem nota 7, Capítulo 1.
Quadro 5 – Definições de querência no meio tradicionalista Querência – Definições Porcentagem
1. Lugar onde alguém nasceu 19%
2. Lugar onde alguém mora 26%
3. Lugar de onde alguém sente falta 1% 4. Lugar onde fica o gado, fazenda, sítio 3% 5. Lugar onde se encontra a família, os amigos 7% 6. Lugar onde se cultiva a tradição, os costumes 6% 7. Lugar onde alguém se sente em casa, seu lar 25%
8. Lugar que alguém ama 8%
9. Lugar com muitas pessoas 1%
10. Não sei 4%
A querência, no dicionário local, se definia em torno de quatro núcleos principais, todos eles ligados à terra. Eram eles: 1. local de nascimento; 2. local onde alguém vive (mora); 3. local para onde procura voltar (sente falta); 3. local de pasto ou criação de gado (fazenda, sítio). Esses núcleos ainda comparecem nas definições encontradas, mas dividem espaço com outras tendências, mais abstratas e relacionais: lugar onde se reúnem os amigos, onde se cultiva a tradição, onde as pessoas sentem-se em casa. São lugares pouco específicos, que podem ser mudados de endereço facilmente.
Há uma particularidade que o quadro acima torna evidente: o que define a querência é um acoplamento do físico com o sensório, do local com a ambiência. As respostas mais constantes – lugar onde alguém mora e lugar onde alguém se sente em casa – são complementares, no sentido de que não basta viver num lugar, ele precisa ser reconhecido sentimentalmente. Para ser querência, a “casa” precisa ser “lar”.
A querência está menos no lugar do que no tipo de relação com a cultura. Representa hoje um tradicionalismo que rompe vínculos com a terra natal para se dobrar sobre si mesmo, suas tradições e costumes, e fundar seu território num imaginário comum a gaúchos nascidos em qualquer lugar. Certamente o estado do Rio Grande do Sul não perde seu posto privilegiado, já que a história de sua colonização e dos conflitos que ali se estabeleceram forma o plano de fundo sobre o qual a figura do gaúcho é forjada, os valores e atributos cultivados pelo movimento, estabelecidos, e o tradicionalismo, organizado. Mas ser rio-grandense ou descendente não é determinante e, de certa forma, é fato menos importante do que o reconhecimento do indivíduo pelo grupo, a sensação de pertencimento que se estabelece na interação entre os cultuadores do tradicionalismo.
O surgimento dos sites, blogs e fóruns possibilitou aos freqüentadores de CTGs interação constante, o conhecimento quase instantâneo dos fatos que ocorrem em
outras entidades (em versões oficiais e não-oficiais), potencializou tanto as atividades conjuntas quanto as redes de mexericos. Além de conviver entre si e com outras pessoas de seu tempo que não freqüentam CTGs, os gaúchos estão rodeados de manifestações culturais que podem ser apropriadas ou depreciadas pelo movimento tradicionalista. Destacam-se a música eletrônica, repaginada no tchê-music, proibida dentro dos CTGs, e a disponibilização de vídeos em sites como o YouTube, que, apreciado pelos tradicionalistas, permite a divulgação da etapa final no Enart, festival de danças tradicionais de maior reconhecimento no país.
A partir do imaginário comum estabelecido, grupos tradicionalistas recriam seus territórios, constroem querências naqueles lugares onde sua experiência de vida acontece. Esses lugares podem existir fisicamente e se materializarem nos CTGs, podem existir virtualmente e se apresentarem como links ou endereços de acesso, podem existir apenas no imaginário e não ser mais do que a conexão entre valores tradicionais e necessidades globais. A procura de um reduto de bem-estar, um porto numa época em que nada é fixo, ultrapassa e confunde fronteiras entre materialidade e virtualidade na fixação de territórios. A criação de um CTG virtual no Second Life, jogo online que simula o mundo real, mostra-nos que as culturas tradicionais não são anacronismos que subsistem num mundo pós-moderno: são manifestações incluídas e participantes dessa realidade complexa, com todas as possibilidades que essa nova configuração da realidade abre e todas as formas de violência velada que aí se escondem.