A Irlanda é mais do que um conceito geográfico. Em Postnationalist Ireland
Politics, Culture, Philosophy, Richard Kearney defende uma identidade irlandesa tri-
dimensional que não se confina ao conceito geográfico, ao território nacional em si, mas que abarca também a diáspora “internacional” e, por último, uma rede subnacional de
comunidades132. É nestas três dimensões e nas relações que se estabelecem entre si que
se desenvolve a identidade irlandesa e o conceito de Irishness. E é na articulação entre o regional e o global que surge a discussão em redor do conceito de “quinta província”, como um modelo alternativo de identificação nacional. Mas o que é a “quinta província”?
A Irlanda é composta por quatro províncias: Leinster, Munster, Connacht e Ulster. No entanto, a palavra irlandesa para província é cóiced, que significa um quinto, o que nos remete para uma divisão da ilha em cinco partes, não em quatro. A identidade da quinta província é, desde sempre, motivo de discussão e transporta-nos para um passado mítico da Irlanda. O editorial do primeiro número da revista Crane Bag Book of
Irish Studies133 (1977) guia-nos nessa viagem:
Some claim that all the provinces met at the Stone of Divisions on the Hill of Uisneach, believed to be the mid-point of Ireland. Others say that the fifth province was the meath (mide), the „middle‟. Both traditions divide Ireland into five quarters and a „middle‟, though they disagree about the location of this middle or „fifth province. Although Tara was the political centre of Ireland, this fifth province acted as a second centre, which if non-political, was just as important, acting as a necessary balance.134
Ao apresentar a ideia de um segundo centro, os editores de revista Crane Bag sugerem que a “quinta província” representa algo mais fundamental, equilibrando e recentrando a discussão em redor da identidade e unidade irlandesas. O mesmo editorial
132 Richard Kearney, Postnationalist Ireland: Politics, Culture, Philosophy. Nova Iorque: Routledge, 1997, p. 80 133 The Crane Bag Book of Irish Studies, Vol.1, (1977-1981), ed. Mark Hederman e Richard Kearney.
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afirma a necessidade da criação de um segundo centro de gravidade devido ao desencanto sentido pelo estado do país à época e à descrença na capacidade política na resolução dos problemas. A revista surge, assim, com o projecto de contribuir para a restauração do conceito da “quinta província” com o objectivo de encontrar um espaço em que todas as ideias e pontos de vista possam ser discutidos. Esse espaço, que se pretende eminentemente ideológico e intelectual, exige uma reflexão interior, individual e colectiva e aponta-nos a importância da linguagem e da arte como expressão dessa reflexão:
This province, this place, this centre, is not a political or geographical positon: it is more like a dis-position. (…) Uisneach, the secret centre, was the place where all oppositions were resolved. The discovery of points where unrelated things coincide was the art of seers, poets, and magicians. The constitution of such a place, would require that each person discover it for himself within himself. Each person would have to become a seer, a poet, an artist.135
Paulo Eduardo Carvalho define a “quinta província” como “um espaço alternativo, neutral, porque aberto à manifestação das divisões, acima de todo o sectarismo, político e cultural” e capaz de funcionar “como uma „assembleia‟ de
discussão crítica”136
. Em “Poetry and the Fifth Province”, Mark Patrick Hederman defende que “[i]t is a place which is beyond or behind the reach of our normal scientific consciousness. It therefore requires a method and a language which are sui generis both to reach and to describe it. The only method available to us at the moment is a certain
kind of art”137
. Mais uma vez Kearney refere a importância e a necessidade de se encontrar uma linguagem própria, que exprima essa discussão ideológica e estética e aponta a arte como veículo privilegiado para essa discussão. Michael Dames, em The
Mythic Ireland, confirma-nos a importância original da linguagem que, através da arte,
nomeadamente da literatura, deve articular o sentido de identidade e coesão nacional:
As a metaphor, Mide‟s action implied that the poets who oppose or are indifferent to the exchange of gifts between worlds are no poets, and had better fall silent. The purpose of language, as heard at Uisnech, was to articulate a sense of cohesion.138
135Richard Kearney apud. Paulo Eduardo Carvalho, A História no Território da Imaginação: A Irlanda de Brian Friel e Field Day.
Dissertação de Mestrado em Cultura Inglesa apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1993, p. 14
136 Paulo Eduardo Carvalho, A História no Território da Imaginação, p. 15
137 Mark Patrick Hederman apud. Paulo Eduardo Carvalho, A História no Território da Imaginação, p. 16 138
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Esta afirmação remete-nos também para o papel social da literatura, que deve articular os diferentes “mundos”, reflectindo um tempo social, histórico e político.
Fredric Jameson caminha nesse sentido ao convocar-nos a “Always historicize”139,
relembrando-nos o papel da história como elemento presente em qualquer texto, nomeadamente no texto literário.
Finalmente, Marthe Robert ao referir-se ao romance, em particular, defende também o seu papel social ao afirmar:
Thus the novel is not the frivolous, deceitful genre tradition mistrusted but, indeed, a medium for progress, an immensely efficient instrument which, in the hands of a conscious novelist can become a real public asset. It brings the sinner back to the fold, comforts the needy and highlights the horrors of individual and social injustice. In other words it has a mission which it accomplishes either by transmitting its message through the plot or, more subtly, by creating stimulating examples; or again by revealing life‟s seamier side, for it can describe evil, without forgoing its purity.140
Temos, assim, que a literatura e o romance, em particular, ao desempenhar o seu papel social, estão a contribuir para a definição da “quinta província”, que vai ser
encontrada na articulação entre o local e o global, entre a “paróquia” e o “cosmos”141
, entre o passado e o presente, sempre na busca de novas perspectivas:
We are speaking not of a power of political possession but of a power of mind. The fifth province can be imagined and reimagined; but it cannot be occupied. In the fifth province, it is always a question of thinking otherwise.142
Ao articular estas diferentes dimensões e ao apresentar novas perspectivas sobre o passado histórico e social do país, o novo romance irlandês é um contributo fundamental para a reflexão do que é ser irlandês hoje em dia.
139 Fredric Jameson, The Political Unconscious: Narrative as Socially Symbolic Act. Londres e Nova Iorque: Routledge, 2008, p. ix 140 Marthe Robert, The Origins of the Novel, p. 13
141 Richard Kearney, Postnationalist Ireland, p. 80 142
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CAPÍTULO III