• No results found

A necessidade de aproximação com os sujeitos da pesquisa, o contato direto com a realidade, a tentativa de compreender vários ângulos possíveis da problemática em pauta a partir dos argumentos dos sujeitos em interação, são elementos que norteiam a observação participante. Vale ressaltar que no processo histórico de desenvolvimento das ciências sociais esse tipo de trabalho conquistou ampla referência metodológica, apesar de, até à atualidade, não expressar definições claras.

Contudo, apresenta-se no bojo dos conflitos e contradições enfrentados pela ciência em relação ao desenvolvimento e valorização da pesquisa qualitativa. Acerca dessa abordagem Minayo afirma:

A Observação Participante pode ser considerada parte essencial do trabalho de campo na pesquisa qualitativa. Sua importância é de tal ordem que alguns estudiosos a tomam não apenas como uma estratégia no conjunto da investigação, mas como um método em si mesmo, para compreensão da realidade (1994, p. 134).

A origem da Observação Participante nos remete ao início do século passado e aponta estar cercada de divergências entre a antropologia inglesa e a sociologia americana. Para alguns autores, a observação participante surge na Antropologia, em 1922, com a publicação de texto, hoje um clássico, sobre trabalho de campo de Malinowshi, com os nativos da ilha Trombiand, no Pacífico.

Para outros, surge com o surto de problemas sociais nos Estados Unidos, decorrentes da grande depressão econômica, a partir da década de 1920 e por meio do desenvolvimento de uma nova consciência desses problemas sociais iniciada pela Escola Sociológica de Chicago. Nessa perspectiva Haguete argumenta:

Este aspecto, vai explicar o surgimento de importantes correntes dentro da sociologia nos Estados Unidos, que

concorrem concomitantemente com os estudos antropológicos das primeiras décadas do nosso século, especialmente na Inglaterra. Refiro-me ao interacionismo simbólico, à etnometodologia, ao dramaturgismo social, à teoria do rótulo, entre outras (1995, p. 66).

A referida autora, explica que a antropologia busca o “sentido das coisas” para melhor compreender o funcionamento de uma sociedade primitiva ou de um grupo humano, enquanto a sociologia – na sua vertente interacionista – acredita que toda a organização social está assentada nos “sentidos”, nas “definições” e nas “ações” que indivíduos e grupos elaboram ao longo do processo de “interação simbólica” do dia-a- dia.

É importante frisar que as ricas experiências transmitidas e as bases metodológicas de Malinowski continuam atuais, porque sua legitimidade se fundamenta na necessidade de bagagem científica do estudioso; dos valores da observação participante e das técnicas de coleta. A ordenação e apresentação do que denomina “evidências”, permanece recorrente até hoje, apesar de seu estudo refletir concepções funcionalistas, já desgastadas pelas perspectivas críticas das ciências sociais moderna.

O referido autor, com sua contribuição pioneira, chama atenção para a importância do pesquisador distinguir os resultados da observação direta em relação aos depoimentos dos nativos e suas interpretações dos fatos, e as interpretações e inferências do pesquisador.

Para Malinowski11, o conjunto de regras formuladas ou implícitas nas atividades dos componentes de um grupo social; a forma como essas regras são obedecidas ou transgredidas; e os sentimentos de amizade, de antipatia ou simpatia, que permeiam os membros do grupo, formam o material da observação participativa, cuja metodologia, pode ser resumidamente apresentada da seguinte forma: ter objetivos realmente científicos e conhecer os valores e critérios da etnografia moderna; colocar-se em boas condições de trabalho e dispor-se a viver o contexto, aberto à realidade do grupo pesquisado; e recorrer a aplicação de um certo número de métodos particulares para selecionar, coletar, manipular e estabelecer dados (documentação estatística concreta e registro em diário de campo dos “imponderáveis da vida real” – declarações e narrativas feitas pelos nativos, expressões típicas, fórmulas mágicas, lendas e peças de folclore que dariam conta da “mentalidade do grupo” ).

11 Para maior aprofundamento ver Malinowski, B. Argonautas do Pacífico e outros textos na coleção

Na sociologia, o uso da observação participante envolve diversas e amplas abordagens que evoluem de um trato inicial como importante técnica de coleta de dados (Eduard C. Lindeman e Florence Kluckhohn) até concepções mais ousadas que avançam numa dimensão progressista de compreendê-la com instrumento não só de modificações do meio pesquisado, mas, principalmente, da própria realidade social (Morris S. Schwartz e Charlotte Green Schwartz).

Nesse campo das ciências sociais, o fundamental, em nosso caso, é destacar que as pesquisas com observação participante avançaram, ao longo de todo o século passado até a nossa atualidade, num processo que objetiva integrar teoria e métodos aplicados pelo pesquisador, na busca pelo conhecimento interativo, valorizando, tanto os saberes dos sujeitos pesquisados, quanto as aprendizagens resultantes das suas práticas sociais.

Esse posicionamento coloca homens e mulheres, os jovens e as jovens, nesse caso específico, na questão central, enfocando não só o potencial de categorias da subjetividade e da intersubjetividade humana, os valores, as normas e as representações da realidade microssocial, na teoria sociológica e da educação, mas, enfatiza também as possibilidades que envolvem os determinantes macrossociais dentro das relações de produção, reprodução e transformação do mundo sistêmico.

Nesse sentido, a observação participante ajuda a relacionar os fatos do cotidiano com suas representações e as possíveis contradições existentes, a partir das próprias falas e argumentações do grupo, sendo essencial ao pesquisador, a abordagem das atividades práticas, as circunstâncias práticas, dos métodos que os indivíduos utilizam para dar sentido e ao mesmo tempo realizar suas ações no dia-a-dia, captando na riqueza do contexto a ação reflexiva dos sujeitos sociais, a partir dos argumentos e significados subjetivos que os sujeitos criam de seu mundo e da estrutura social.

No presente trabalho a observação participativa recorrerá às importantes contribuições das ciências sociais procurando um sentido vivo e dialógico, que será fundamental para compreender contextos e situações do momento presente, inseridos na conjuntura atual na cidade de Fortaleza, dentro da realidade brasileira e mundial.

Apesar de longa convivência com a instituição em foco, na prática dessa pesquisa, o trabalho de observação participante realizou-se no espaço físico-temporal da ONG Centro Cultural CELITA, no período entre março de 2007 e março de 2009. As visitas aconteceram com duração de meio expediente e, em muitos casos puderam

efetivar-se tanto pela manhã, quanto à tarde. Optou-se por uma coleta de dados lenta e dispersa em vários meses, com uma média de duas visitas semanais à instituição.

Esse esforço resultou na vantagem de poder acompanhar vários momentos e ritmos diferenciados no cotidiano do funcionamento e das atividades nesse espaço comunitário.

Outro instrumento utilizado, nesse primeiro momento, foi a criação de um roteiro para nortear a observação participante (anexo 03). A idéia foi estabelecer um esquema aberto considerando quatro itens: a estrutura e o funcionamento (o espaço; o tempo; os recursos: humanos tecnológicos e materiais; os códigos de convivência; as atividades e sua organização); o cotidiano (as rotinas, a dinâmica, os ritmos, a subjetividade); as relações sociais (humanas, institucionais, políticas partidárias, com os movimentos sociais e a sociedade civil); e as representações processualmente construídas (os valores, os conceitos, os pré-conceitos, as visões de mundo - sociedade, direito, cidadania e sociedade civil - a visão de juventude).

Com os sujeitos da pesquisa a aproximação foi facilitada por meio de oficinas de teatro, atuação realizada como trabalho voluntário na referida ONG. Esse estratégia permitiu um grande interação social com os jovens e as jovens e a possibilidade de compartilhar idéias e práticas sociais.

Em linhas gerais, esses foram os cuidados e procedimentos adotados para preparar o contato com a realidade empírica e melhor desenvolver a potencialidade da observação participante, no contexto de uma pesquisa-ação, cujos resultados serão relatados em conjunto com os dados obtidos por meio de entrevistas semi-estruturas, ao longo desse relatório da pesquisa.

A seguir apresento uma discussão sobre o uso de entrevistas semi-estruturas como importante técnica para coletar dados complementares e dirimir dúvidas decorrentes da intersubjetividade grupal, pois possibilita desenvolver maior reflexão pessoal sobre a interação social.

2.1.3. A importância e o uso de entrevistas semi-estruturadas na pesquisa