Pode-se imaginar o impacto visual de um espetáculo, baseado em um texto dramático, cujo início coloca em cena um homem de feições simples carregando, sobre as costas, uma enorme e pesada cruz. Signo ambíguo por excelência, evocando, a só um tempo, a glória e o martírio, a cruz em O Pagador de Promessas também se oferece como signo emblemático, antecipando numa imagem cênica proléptica, a coragem daquele ser simples que virá a ser sacrificado justamente por sua elevação, por sua dignidade.
No entanto, a tragicidade desse drama somente começará a se evidenciar com mais nitidez quando, em meio à trama, a cruz assumir seus significados mais penosos de dor e sofrimento, à medida que os conflitos entre o herói e seus antagonistas progridam até que finalmente, a mesma cruz, se torne, como a de Cristo, um emblema de morte.
Logo, seguir Zé do Burro em seu calvário, retratado no drama social O Pagador
de Promessas, é sujeitar-se aos espinhos de um universo trágico marcado pela
intolerância e por desigualdades sociais, um universo que, apesar de todos os açoites, não consegue impedir o homem de alcançar a ascensão. Ao final, a mesma cruz que martiriza é a que elevará o simplório Zé à ascensão no universo da moderna dramaturgia brasileira.
Pretendemos neste capítulo, observar como as categorias dramáticas, antigas e modernas, foram trabalhadas por Dias Gomes na construção desse universo trágico, tão estranhamente simples, profundo e comovente.
Nossa análise parte da maneira como o autor apresenta sua peça: um texto em três atos, tendo sido o primeiro e o segundo ato dividido em dois quadros cada, enquanto o terceiro ato possui apenas um quadro. A cada quadro, além das indicações
de cenário, gestos e falas do elenco e movimentos cênicos, o dramaturgo dá detalhes físicos e psicológicos dos personagens através das rubricas. Esse artifício é um elemento típico do drama moderno, pois, nos textos clássicos que nos foram legados não há, por exemplo, descrições das personagens, como se vê na rubrica inicial do texto analisado, que também prima por detalhes na apresentação do cenário, outra especialidade do teatro moderno:
Uma pequena praça, onde desembocam duas ruas. Uma à direita, seguindo a linha da ribalta, outra à esquerda, ao fundo, de frente para a platéia, subindo, enladeirada e sinuosa, no perfil de velhos sobrados coloniais. Na esquina da rua da direita, vemos a fachada de uma igreja relativamente modesta, com uma escadaria de quatro ou cinco degraus. Numa das esquinas da ladeira, do lado oposto, há uma vendola, onde também se vende café, refresco, cachaça etc.; a outra esquina da ladeira é ocupada por um sobrado cuja fachada forma ligeira barriga pelo acúmulo de andares não previsto inicialmente. O calçamento da ladeira é irregular e na fachada dos sobrados vêem-se alguns azulejos estragados pelo tempo. Enfim, é uma paisagem tipicamente baiana, da Bahia velha e colonial, que ainda hoje resiste à avalanche urbanística moderna.
Devem ser, aproximadamente, quatro e meia da manhã. Tanto a igreja como a vendola estão com suas portas cerradas. Vem de longe o som dos atabaques dum candomblé distante, no toque de Iansã.
(GOMES, 2003, p. 9)
A rubrica que abre o primeiro quadro do primeiro ato, como veremos adiante, não termina nesse ponto. Entretanto, escolhemos dividi-la em duas partes para facilitar a compreensão de nossos comentários. Como é possível perceber, neste primeiro momento da rubrica, temos basicamente a projeção do cenário onde ocorrerá toda a ação. O autor enriquece o texto, detalhando minuciosamente o ambiente, chegando ao ponto de descrever até mesmo o que é comercializado na vendola existente na praça, assim como a irregularidade no calçamento da ladeira e o estrago na fachada dos sobrados causado pela ação do tempo. Em seguida, há uma indicação temporal, ou seja, a hora exata da chegada do herói no local onde será desenvolvida a trama. O som distante dos atabaques de candomblé dá pistas da temática da peça: o sincretismo religioso.
Decorrem alguns segundos até que Zé-do-Burro surja, pela rua da direita, carregando nas costas uma enorme e pesada cruz de madeira. A passos lentos, cansados, entra na praça, seguido de Rosa, sua mulher. Ele é um homem ainda moço, de 30 anos presumíveis, magro,
de estatura média. Seu olhar é morto, contemplativo. Suas feições transmitem bondade, tolerância e há em seu rosto um “quê” de infantilidade. Seus gestos são lentos, preguiçosos, bem como sua maneira de falar. Tem barba de dois ou três dias e traja-se decentemente, embora sua roupa seja mal talhada e esteja amarrotada e suja de poeira. Rosa parece pouco ter de comum com ele. É uma bela mulher, embora seus traços sejam um tanto grosseiros, tal como suas maneiras. Ao contrário do marido, tem “sangue quente”, revelando, logo à primeira vista, uma insatisfação sexual e uma ânsia recalcada de romper com o ambiente em que se sente sufocar. Veste-se como uma provinciana que vem à cidade, mas também como uma mulher que não deseja ocultar os encantos que possui.
Zé-do-Burro vai até o centro da praça e aí pousa a sua cruz, equilibrando-a na base e num dos braços, como um cavalete. Está exausto. Enxuga o suor da testa. (GOMES, 2003, p. 9-10)
Neste segundo trecho da rubrica inicial, além das indicações de gestos dos atores em cena, Dias Gomes se dedica à descrição das personagens Zé do Burro e Rosa, sua mulher. Temos aí características físicas: idade, altura, aparência; sociais: forma de se vestir; e psicológicas: ingenuidade, desejo, insatisfações. O detalhamento da aparência da personagem é determinado pela necessidade de explicar a importância dessa aparência na ação da figura dramática:
(…) mesmo em casos onde a aparência não influa tão decisivamente sobre as ações do personagem, informações nítidas a respeito de sua constituição física podem ser fundamentais. Assim, o Zé do Burro de
O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, tem de ser um homem
rústico, talvez seco mas forte, resistente. Um homem débil e delicado, de mãos suaves e pés finos não convenceria, dentro de uma hipótese de teatro realista, que é a daquela peça, como capaz de carregar uma cruz, a pé, por tantas léguas. (Sic) (PALLOTTINI, 1989, p. 64)
Nas tragédias clássicas, segundo Aristotéles, são as ações que nos permitem discernir as caracterizações das figuras dramáticas, mas sendo na peça estudada as personagens descritas antes de agirem, a ação vem para confirmar o que já foi dito, sendo esta uma das mais marcantes características da dramaturgia moderna, que realça a subjetividade na representação da ação. Assim, não é através das ações cometidas por todos ao longo da trama que descobrimos os caracteres, pois estes já nos foram ditos pelo autor. Obviamente que tal interpretação só se verifica na leitura do texto e não em sua dramatização, visto não termos acesso às rubricas durante a performance. Contudo, o uso das rubricas, seja como texto literário ou “guia” para o diretor da montagem dramática, indicia a caracterização das personagens, enfatizando a maneira como agem.
Se nas rubricas que os descrevem, Zé do Burro, infantil, lento, contemplativo, aparece como contraste em relação a sua mulher de “sangue quente”, já nos primeiros diálogos entre Zé e Rosa, confirmam-se suas diferenças físicas e psicológicas, palavras, gestos e ações de cada um atualizando “em cena” o ethos que movem seus atos:
ZÉ: (Olhando a igreja.) É essa. Só pode ser essa.
Rosa pára também, junto aos degraus, cansada, enfastiada e deixando já entrever uma revolta que se avoluma.
ROSA: E agora? Está fechada.
ZÉ: É cedo ainda. Vamos esperar que abra. ROSA: Esperar? Aqui?
ZÉ: Não tem outro jeito.
ROSA: (Olha-o com raiva e vai sentar-se num dos degraus. Tira o
sapato.) Estou com cada bolha d‟água no pé que dá medo.
ZÉ: Eu também. (Num ricto de dor, despe uma das mangas do
paletó.) Acho que os meus ombros estão em carne viva.
ROSA: Bem feito. Você não quis botar almofadinhas, como eu disse. ZÉ: (Convicto.) Não era direito. Quando eu fiz a promessa, não falei em almofadinhas. (GOMES, 2003, p. 10)
Ambos estão feridos e muito cansados, entretanto, Zé revela sua sujeição e paciência, enquanto Rosa não consegue abafar sua irritação. Apesar dessa clara diferença de temperamento dos dois, a própria circunstância justifica a forma como Rosa reage ao momento dramatizado, visto, nesse primeiro momento, a rispidez dessa personagem criar no espectador, uma impressão negativa a seu respeito, causando talvez afastamento por parte da plateia. Contudo, essa atitude de Rosa é compreensível se levarmos em consideração seu desgaste físico por caminhar uma longa distância ao lado do esposo para pagar uma promessa sequer feita por ela.
A princípio, Rosa parece não alcançar com profundidade o sentido do ato de Zé do Burro, porém, é preciso lembrar que, segundo Dias Gomes, ela é uma mulher rústica, de maneiras grosseiras, logo, não é de se estranhar a rudeza, presente até em suas demonstrações de cuidado, como se percebe na fala referente ao uso de almofadinhas. Quando Rosa recupera da memória sua sugestão ao marido de amortecer o peso da cruz protegendo os ombros com almofadas, fica evidente sua atenção ao esposo, deixando claro que, embora ela já tenha chegado ao seu limite e sinta-se irritada com a atual condição em que se encontra, não quer dizer que Rosa não tenha dado importância à promessa de Zé do Burro. Ao contrário. Ela não só se importa como ainda tenta amenizar o peso da tal promessa, seja através de artifícios que diminuam a dor física, seja por meio de sua companhia, apoiando o esposo e dividindo com ele, senão todo, ao
menos parte do calvário que ele tem pela frente. Talvez o que não convença Rosa seja o excesso implicado na devoção extrema do pagador, isto é, para ela, não haveria necessidade de tantos sacrifícios, como, ferimentos no corpo e dormir no chão a espera do momento em que a igreja abriria suas portas. Não por acaso, ela tenta convencer Zé do Burro a descansar um pouco, antes de pagar definitivamente sua promessa:
ROSA: Essa hora tá todo mundo dormindo. (Olha-o quase com raiva.) Todo mundo... menos eu, que tive a infelicidade de me casar com um pagador de promessa. (Levanta-se e procura convencê-lo.) Escute, Zé... já que a igreja está fechada, a gente podia ir procurar um lugar pra dormir. Você já pensou que beleza agora uma cama?...
ZÉ: E a cruz?
ROSA: Você deixava a cruz aí e amanhã, de dia... ZÉ: Podem roubar...
ROSA: Quem é que vai roubar uma cruz, homem de Deus? Pra que serve uma cruz?
ZÉ: Tem tanta maldade no mundo. Era correr um risco muito grande, depois de ter quase cumprido a promessa. E você já pensou: se me roubassem a cruz, eu ia ter que fazer outra e vir de novo com ela nas costas da roça até aqui. Sessenta léguas.
ROSA: Pra quê? Você explicava à santa que tinha sido roubado, ela não ia fazer questão.
ZÉ: É o que você pensa. Quando você vai pagar uma conta no armarinho e perde o dinheiro no caminho, o turco perdoa a dívida? Uma ova!
ROSA: Mas você já pagou a sua promessa, já trouxe uma cruz de madeira da roça até a Igreja de Santa Bárbara. Está aí a Igreja de Santa Bárbara, está aí a cruz. Pronto. Agora, vamos embora. (Sic) (GOMES, 2003, p. 11)
Nesse trecho, as falas de Rosa evidenciam outro contraste, entre ela e o marido, atinente ao universo religioso. Ambos representam pontos de vista opostos diante do ato de pagar a promessa. Podemos dizer que a mulher apresenta certa descrença, enquanto Zé demonstra um pouco de exagero em sua devoção, pois nota-se certo descaso por parte de Rosa em relação à cruz, enquanto Zé a ela se apega com devoção inamovível. Rosa parece ver a cruz de forma concreta, material, ao contrário de Zé do Burro, que somente enxerga o valor simbólico. Para ele, não seria roubado o objeto feito de madeira, e sim, o seu agradecimento banhado de suor, sangue e sacrifício, elementos que tornam essa cruz uma peça única e de grande valor. A infelicidade de se casar com um pagador de promessas citada por Rosa não deve ser uma desvalorização nem ao marido nem ao ato de pagar promessas, mas uma crítica à forma excessiva (heróica?) de se fazer o referido pagamento. Sob outra perspectiva, contudo, pode-se considerar que
esse excesso de Zé do Burro explica-se em grande medida como consequência de sua ingenuidade quase pueril, embora a profundidade de sua fé não deva ser descartada.
Pelo discurso de Rosa, a promessa já teria sido paga, logo, não haveria motivos para qualquer queixa divina, se o prometido era apenas levar uma pesada cruz até uma Igreja de Santa Bárbara. A santa não faria nenhuma questão, caso a cruz sumisse da porta da igreja, se Zé do Burro já havia feito o que devia. Entretanto, para Zé, as coisas não funcionam de maneira tão racionalizada, embora ele próprio interprete questões de fé sob perspectivas bem concretas. Sua alusão ao dono do armarinho é uma forma de dizer que a promessa é também um negócio, o qual deve ser tratado com honestidade, visto haver uma relação de troca a ser respeitada. Quem deve, paga. Somente isso interessa ao negociante, não importando qualquer tipo de imprevisto ocorrido com o devedor. Nessa comparação entre comércio e religião, feita por Zé do Burro, percebe-se a maneira irônica de Dias Gomes apontar a comercialização da fé, instituindo também o parâmetro para a leitura crítica dessa relação em uma fala de Zé anterior ao trecho citado, pronunciada em resposta ao discurso de Rosa sobre a possibilidade que o marido teria de usar almofadinhas para proteger os ombros. O pagador considera tal atitude como desonestidade, uma forma de enganar a santa, suas palavras apontando para a recusa ao engodo:
ZÉ: Não, nesse negócio de milagres, é preciso ser honesto. Se a gente embrulha o santo, perde o crédito. De outra vez o santo olha, consulta lá os seus assentamentos e diz: - Ah, você é o Zé-do-Burro, aquele que já me passou a perna! E agora vem me fazer nova promessa. Pois vá fazer promessa pro diabo que o carregue, seu caloteiro duma figa! E tem mais: santo é como gringo, passou calote num, todos os outros ficam sabendo. (GOMES, 2003, p. 10)
Para Zé do Burro, os santos não esquecem seus devedores. Nesse trecho, no entender do pagador, o cumprimento de uma promessa é uma prova de honestidade, uma prestação de contas, cuja falha no pagamento sujaria seu nome não apenas no “caderno” do santo a quem deve, como na praça, isto é, perderia o crédito diante de todas as divindades que ficassem sabendo de sua atitude desonesta. Quando Zé do Burro diz que “nesse negócio de milagres, é preciso ser honesto”, embora ofereça uma visão da religião enquanto um tipo de comércio, instaura uma lógica de pensamento movida por incontornável honestidade e um sentimento religioso que não o permitem
falhar. O herói deseja pagar sua promessa sem cometer erros, por isso, busca provas de estar à porta da igreja correta:
Ele sobe um ou dois degraus. Examina a fachada da igreja à procura de uma inscrição.
ROSA: Que é que você está procurando?
ZÉ: Qualquer coisa escrita... pra gente saber se essa é mesmo a Igreja de Santa Bárbara.
ROSA: Claro que é essa. Não lembra o que o vigário disse? Uma igreja pequena, numa praça, perto duma ladeira...
ZÉ: (Corre os olhos em volta.) Se a gente pudesse perguntar a alguém... (GOMES, 2003, p. 10-11)
Essa demonstração de dúvida quanto a estar no lugar certo revela todo o cuidado de Zé do Burro para que tudo ocorra bem no pagamento de sua promessa, além de dar pistas da excessiva vontade da personagem. Já se nota que o pagador está muito centrado em seu objetivo e não desistirá facilmente do planejado. Nada pode dar errado, nem pode ele dar motivo para suscitar qualquer mal entendido por parte da santa, como vemos quando Rosa tenta convencê-lo a deixar a cruz na porta da igreja:
ZÉ: Mas aqui não é a Igreja de Santa Bárbara. A igreja é da porta pra dentro.
ROSA: Oxente! Mas a porta está fechada e a culpa não é sua. Santa Bárbara deve saber disso, que diabo.
ZÉ: (Pensativo.) Só se eu falasse com ela e explicasse a situação. ROSA: Pois então... fale!
ZÉ: (Ergue os olhos para o céu, medrosamente, e chega a entreabrir
os lábios, como se fosse dirigir-se à santa. Mas perde a coragem.)
Não, não posso.
ROSA: Por quê, homem?! Santa Bárbara é tão sua amiga... Você não está em dia com ela?
ZÉ: Estou, mas esse negócio de falar com santo é muito complicado. Santo nunca responde em língua de gente, não se pode saber o que ele pensa. E além do mais, isso também não é direito. Eu prometi levar a cruz até dentro da igreja, tenho que levar. Andei sessenta léguas. Não vou me sujar com a santa por causa de meio metro.
ROSA: E pra você não se sujar com a santa, eu vou ter que dormir no chão, no “hotel do padre”. (Olha-o com raiva e vai deitar-se num dos
degraus da escada da igreja.) E se tudo isso ainda fosse por alguma
coisa que valesse a pena...
ZÉ: Você podia não ter vindo. Quando eu fiz a promessa, não falei em você, só na cruz.
ROSA: Agora você diz isso. Dissesse antes.
ZÉ: Não me lembrei. Você também não reclamou... ROSA: Sou sua mulher. Tenho que ir pra onde você for. ZÉ: Então... (Sic) (GOMES, 2003, p. 11-12)
Ressalta-se nesse trecho a maneira como Rosa, partindo da ingenuidade e fé do esposo, tenta convencê-lo a acabar logo com toda aquela situação. Vendo o temor do marido de que algo saia errado e ciente da necessidade dele em ter a aprovação divina para fazer qualquer coisa “diferente”, Rosa o incentiva a consultar a santa. Apesar de toda sua determinação, o pagador quase cede ao conselho da esposa. No entanto, o herói de Dias Gomes se mostra temeroso à reação da santa, caso sugira uma reformulação do acordo feito anteriormente. Há uma espécie de submissão, de pequenez diante da santa, demonstrada nesse fragmento, que impede Zé do Burro de ir adiante no “diálogo” com Santa Bárbara, visto o risco de não conseguir interpretar corretamente a resposta dada pela divindade. Desse modo, o pagador coloca-se de volta no caminho traçado desde o início, mais uma vez dando-nos evidências de sua determinada vontade que não o permitirá retroceder.
Tal atitude deixa Rosa ainda mais revoltada. Devido à fadiga, a mulher não consegue mais conter sua insatisfação por ter de sacrificar-se um pouco mais para que a santa não se decepcione com o pagador. Apesar da rispidez mostrada por Rosa até aqui, não devemos esquecer que ela deixou o lar para seguir o marido, mesmo não tendo sido convocada, por todo o árduo trajeto à cidade, simplesmente por aceitar este ato como seu dever de esposa. Não importa para onde o marido vá, Rosa se sente obrigada a ir com ele, seja chamada ou não. Protestando, Rosa desvaloriza a tal promessa: “E se tudo isso ainda fosse por alguma coisa que valesse a pena...” (GOMES, 2003, p. 12). A forma como Zé do Burro reage a essa fala da esposa descartando sua presença, traz comoção à situação de Rosa, cujo ato parece não ser reconhecido e apreciado pelo pagador, o que, mais adiante, pode ser lembrado como um dos motivos desencadeadores da traição de Rosa.
Até esse momento, temos certeza de quem é o herói; conhecemos suas características físicas e psicológicas, assim como as de sua esposa; temos um conflito evidenciado pelas diferenças entre o casal e sabemos de uma promessa feita por Zé. Todavia, desconhecemos que promessa é essa, por quê ele a fez, assim como desconhecemos os acontecimentos ocorridos durante o trajeto até a igreja. Isso significa dizer que a obra foi iniciada in media res, em meio a eventos importantes para o seguimento da trama rumo ao fim trágico. Obviamente, o passado de Zé do Burro esconde elementos desencadeadores do destino que o aguarda ao final do texto, contudo, estes somente serão revelados com o desenrolar da trama através de falas do próprio herói e sua esposa, Rosa. Conforme já comentado anteriormente, o início in
medias res é um artifício estratégico utilizado não só para culminar a produção do efeito
catártico, acentuando a tragicidade devido à impossibilidade de reverter o que já teria