Vogler & Metaxas (2000) articula sobre os desafios das Interfaces de Reconhecimento das Línguas de sinais:
O maior desafio no Reconhecimento das Línguas de Sinais é encontrar um paradigma de modelo que seja poderoso suficiente para capturar a língua, escalando-a para grandes vocabulários. Línguas de Sinais são altamente
flexionadas, o que significa que cada sinal pode aparecer em várias diferentes formas, dependendo do sujeito, objeto, e acordo numérico. Assim, é inútil
27
“The task of recognising continuous sign language is complicated primarily by the problem that in natural
sign language, the transition between signs is not clearly marked because the hands will be moving to the starting position of the next sign. This is referred to as the movement epenthesis or co-articulation”
modelar cada um deles separadamente, simplesmente são muitos deles. (2000, p.359, tradução nossa28)
A esse problema em especial, os autores sugerem o uso da segmentação dos sinais em unidades menores, os fonemas. Essa abordagem foi percebida por outros autores, semelhante à abordagem adotada para o Reconhecimento da Fala. Ainda assim, a modelagem da fonologia das Línguas de Sinais é mais desafiadora do que da língua oral, pois na língua oral:
...os fonemas aparecem sequencialmente. Nas Línguas de Sinais, os fonemas podem aparecer em sequências ou simultaneamente. (...) como consequência, há um grande número de combinações dos fonemas possíveis, que podem ocorrer ao mesmo tempo. (2000, p. 359, tradução nossa29)
Os principais esforços para resolução da segmentação das Línguas de Sinais podem ser encontrados na Transcrição das Línguas de Sinais. O melhor caminho para solução do problema parece estar em encontrar um modelo de Transcrição padronizado, que possa ser utilizado por diversos aplicativos de reconhecimento dos sinais.
Cooper et al. (2011) também se atentam aos problemas do reconhecimento das Línguas de Sinais. Em seu trabalho, descrevem um subconjunto de construções das Línguas de Sinais que são verdadeiros desafios para o seu reconhecimento automático. Algumas dessas construções são inerentes a composição gramatical
28 “The main challenge in sign language recognition is to find a modeling paradigm that is powerful enough to
capture the language, yet scales to large vocabularies. Signed languages are highly inflected, which means that each sign can appear in many different forms, depending on subject, object, and numeric agreement. Thus, it is futile to model each form separately—there are simply too many of them.”
29
“…the phonemes appear sequentially. In signed languages the phonemes can appear both in sequences and
simultaneously. For example, a sign can consist of two hand movements in sequence, but the hand shape and hand orientation can change at the same time.”
das Línguas de Sinais, conforme visto no corpo desse trabalho. Em geral, são elas (COOPER, H et al., 2011, p. 3):
a) Advérbios que modificam verbos: os sinalizadores não utilizam dois sinais para “correr rapidamente”, ao invés disso utilizam uma modificação do sinal, acelerando-o. Esse aspecto se assemelha ao da entonação, citado nos gradientes da língua de sinais;
b) Características não manuais: expressões faciais e posturas do corpo são parte do sentido das frases, como por exemplo, a posição das sobrancelhas, que pode determinar uma pergunta. Alguns sinais só são distinguíveis pelo formato dos lábios, uma vez que possuem representação manual semelhante;
c) Localização: conforme visto nos pronomes das Línguas de Sinais, pronomes como “ele”, “ela” ou “isso”, ao invés de possuírem sinal próprio, são representados pelo referente sendo descrito e alocado em uma posição do espaço articulatório. Referências futuras apontam para aquela posição, e as relações podem ser descritas pelo apontar para mais de um referente;
d) Classificadores: semelhante às classes padrões das estruturas dêitico- anafóricas de Pizutto et al. (2006), formatos de mão são utilizados para representar classes de objetos, quando itens previamente descritos interagem, como por ex. para distinção entre uma pessoa perseguindo um cão e vice e versa, como visto nas transferências de situação e transferência de pessoa de Pizutto et al. (2006);
e) Verbos direcionais: ocorrem entre o sinalizador e o referente. A direção e o movimento indicam a direção do verbo. A direção do verbo implicitamente
convenciona qual substantivo é o sujeito e qual substantivo é o objeto. Essa estrutura é muito utilizada nos Espaços Mentais de Liddell (1994);
f) Sinais posicionais: quando um sinal atua em parte do corpo descritivamente, por exemplo, para significar uma tatuagem no corpo da primeira ou terceira pessoa do discurso – no último caso, uma estrutura mista com os Espaços Substitutos de Liddell (1989, 1995);
g) Deslocamento do corpo: representado pelo giro dos ombros e o olhar, muito utilizado na indicação da troca de papéis quando relatando um diálogo.
h) Iconicidade: quando um sinal descreve o ato representado, esse pode ser alterado para uma representação apropriada. Por exemplo, o sinal de sair da cama pode ser alterado de saltar da cama energicamente, para um reclino, de alguém que reluta em levantar;
i) Soletração manual: quando um sinal não é conhecido, seja pelo sinalizador ou pelo receptor da mensagem, a palavra local para o sinal pode ser soletradas explicitamente pela datilologia.
Os autores também apontam que, apesar do Reconhecimento das Línguas de Sinais e do Reconhecimento da Fala ser drasticamente diferentes, em vários aspectos, os dois “sofrem se problemas semelhantes; a co-articulação entre os sinais significam que um sinal será modificado por aqueles próximos a ele.”, os autores acrescentam também que “cada sinalizador possui seu próprio estilo, do mesmo modo que cada um tem seu próprio sotaque ou caligrafia”.
Cooper et al. (2011, p. 15), abordam o problema de estilo do sinalizador apontando esse como um problema de independência do sinalizador. Segundo os autores, de acordo com os estudos do estado da arte, é um problema aplicar um
mesmo sistema de Reconhecimento de Língua de Sinais para um sinalizador o qual não foi o mesmo que treinou o sistema.
Além das dificuldades dadas pela gramática e estruturas complexas das Línguas de Sinais, existem ainda aspectos técnicos que devem ser levados em consideração no reconhecimento dos sinais. No reconhecimento da língua contínua, necessário para o discurso natural das Línguas de Sinais, por exemplo, é necessário saber quando um sinal termina e o outro começa.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O desenvolvimento desse trabalho consistiu em explicitar as novas tecnologias que podem ser utilizadas no reconhecimento das Línguas de Sinais. Para tanto, fez-se necessário delinear o desenvolvimento das interfaces computacionais, das Interfaces de Texto até as Interfaces Naturais, bem como entender o complexo cenário gramatical e linguístico em que as Línguas de Sinais se inserem.
As Interfaces Naturais se encontram em um estágio de desenvolvimento acelerado, e se mostram viáveis para diversos fins devido a seu aspecto facilitador para o usuário final. Por meio da pesquisa do uso dessas interfaces, principalmente nos jogos virtuais, fica evidente a potencialidade de seu uso em diferentes aplicações. Uma delas é exatamente o reconhecimento das Línguas de Sinais por meio do reconhecimento dos gestos, componentes dessas Línguas.
Quanto aos jogos, o levantamento do corpo de pesquisa evidencia o quanto a indústria de entretenimento de jogos digitais acelerou as pesquisas referentes às interfaces. Podemos atribuir aos jogos o grande avanço das interfaces nos últimos anos. Esse fator acaba por evidenciar, também, a lacuna que se criou no desenvolvimento de dispositivos próprios destinados somente ao reconhecimento gestual. Durante anos as pesquisas e os trabalhos com interfaces de reconhecimento gestual deram-se somente por adaptações – destinadas ou não a uma necessidade de inclusão – oriundas das interfaces de jogos digitais e outros dispositivos, sendo que apenas recentemente novas interfaces vêm sendo pensadas exclusivamente para esse fim.
Pesquisas recentes como o Horizon Reports (JONHSON et al., 2011) destacam a importância de se pensar na interação por gestos, o que cria espaço para o desenvolvimento das interfaces de reconhecimento das Línguas de Sinais. Os novos dispositivos, como o Kinect para Windows, 3GEAR, Softkinetic, Leap
Motion e o MYO, também demonstram o quanto o mercado demanda atualmente de
interfaces naturais gestuais. O horizonte tecnológico que se abre com essas novas iniciativas de mercado, bem como os frutos de pesquisas relacionadas ao tema são instigantes e animadores.
Quanto às interfaces desenvolvidas encontradas nas fontes consultadas, há uma evolução no reconhecimento; antes muito marcado por palavras soletradas e sinais isolados. Houve progresso quanto a isso, principalmente objetivando o reconhecimento de sentenças contínuas.
Apesar de boa parte das interfaces desenvolvidas somarem esforços para uma interface completa do reconhecimento das Línguas de Sinais, essas interfaces não abarcam completamente boa parte das características de uma Língua de Sinais. Essa lacuna hora se deve às dificuldades tecnológicas implícitas nessa tarefa, hora a redução dos signos dessas línguas à simples gestos convencionados. O principal fator negligenciado levantado foi o das características não manuais, como expressões faciais e espaços mentais (AMARAL, 2012) e (LOEDING et al., 2004), apesar do aumento de precisão quando no uso das informações não manuais.
A segmentação das Línguas de Sinais, semelhante a abordagem utilizada na segmentação das línguas orais por fonemas, mostrou-se bastante importante. Nesse sentido, os sistemas de transcrição de Línguas de Sinais colaboram para a padronização da segmentação. Isso se deve ao fato de que a Línguas de Sinais são línguas orgânicas. É possível que novos sinais sejam criados com o decorrer do
tempo. Daí a importância dos sistemas de transcrição padronizados e orgânicos, que permitam a inserção de novas configurações de mãos para os novos sinais, e outros aspectos mutáveis.
Todos esses pontos levantados apontam para um futuro muito próximo do reconhecimento das Línguas de Sinais, em que a interatividade, principalmente ao surdo, poderá ser mais fluída, através de gestos ou sinais dessas línguas. Além disso, novas possibilidades em diferentes contextos podem ser esperadas do recente e acelerado desenvolvimento dos dispositivos de reconhecimento gestual, assim como das interfaces naturais.
Nas considerações finais, retomamos à primeira figura utilizada no corpo desse trabalho (figura 48), que nos posiciona sobre a multidisciplinaridade do Design de Interfaces. Essa noção é imprescindível para que entendamos a gama de diferentes áreas do conhecimento que essa tarefa implica. Mesmo no cenário recortado do Design de Interface aqui apresentado, muitas dessas áreas de conhecimento se mostraram intrinsecamente conectadas. Esse, por si só, é um desafio das Interfaces de Reconhecimento das Línguas de Sinais, que explicita a necessidade de um profissional ou equipe multidisciplinar para o trato de suas características. Espera- se, assim, que profissionais de diferentes áreas colaborem constantemente para o desenvolvimento desse domínio.
Figura 48: A Multidisciplinaridade do Design de Interfaces Fonte: (PASSOS, 2008, p. 37)
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