5. VEGETASJONSTYPER OG PLANTESAMFUNN
5.11 L OKALITETER MED VERDIFULLE NATURTYPER OG SJELDNE ARTSFOREKOMSTER
5.11.7 Skog
O investimento mítico permanece uma necessidade política (Balandier, 1999: 101) Os sistemas simbólicos constituem-se a partir do resultado da eficácia de narrativas e práticas, na sua exposição pública. Embora as redes de sociabilidade sejam multivocais, o poder político assume, a maior parte das vezes, a boca de cena ou, pelo menos, o lugar do ponto, orientando os actores e criando oportunidades para o desenrolar de cenas dramáticas. Foucault (cit. in Balandier, 1999) compreendeu a omnipresença das relações de poder, tendo sublinhado o jogo relacional, determinante, entre conhecimento e poder, em que o conhecimento assume a forma de instrumentos de poder, e os seus detentores são considerados os protagonistas do drama. Bourdieu vincou a relação entre o teatro e a vida política, ao referir a relação propriamente simbólica entre um significante e um significado ou, melhor, entre representantes dando uma representação e agentes, acções e situações representadas (Bourdieu, 1989: 175). O poder político, a partir do drama que
encena, impõe e legitima a sua dominação, em prol do controlo político e ideológico da cidade (Menezes, 2004). Falamos do princípio da hierarquia dominante de Bourdieu (1993: 40), definido em função do capital cultural acumulável.
Para Zukin (cit. in Menezes, 2004: 7) é fundamental analisar a cidade e o espaço construído a partir da interpretação e interpenetração da cultura e poder, numa incursão pelo campo de produção do próprio espaço e dos símbolos que o retractam e constroem. E, nesse sentido, procurou-se captar as articulações entre as forças políticas de produção do espaço e controlo social (Menezes, 2004), os usos políticos do apelativo caramelo. Assim, neste trabalho, verificámos que o poder político local assume-se, a si próprio, como o impulsionador de todo este processo. De forma consciente, interpreta-se a si próprio como a entidade que maior contributo deu para a consolidação do apelativo. Em conversa com o presidente da Junta de Freguesia fomos, até com alguma surpresa, confrontados com a reivindicação clara do seu papel na definição do que denomina por Identidade Caramela. Quando questionámos sobre o significado da denominação, passou da especificidade histórica, para uma imagem quase psicológica do termo. Começou por referir a importância histórica dos primeiros migrantes que se fixaram na região, considerando Rio Frio o berço do território. Retracta estas pessoas como gente trabalhadora, ligada ao campo, acabando por concluir que o termo caramelo é um chapéu. Mas o que é não consigo defini-lo … ser caramelo, hoje, é um estado de espírito. É uma forma de distinção com os outros. Mesmo gente que não é daqui e vive há meia dúzia de anos assume-se como caramelo. E, na sua opinião, os caramelos são pessoas que têm necessidade de se agarrar a aspectos simbólicos que contribuam para os seus traços distintivos em relação aos outros. 60
Na opinião do Presidente, foi com a sua entrada na Junta de Freguesia, em 1993, que o apelativo caramelo foi ganhando a forma que hoje lhe conhecemos, deixando as marcas pejorativas que o caracterizavam. Perdoe-me a imodéstia (…) A partir do momento em que estou na Junta, passou a existir este sentimento de pertença (…) A partir de certa altura começou a existir um estado de consciência colectiva. O presidente identifica as dinâmicas que mais contribuíram para esta afirmação colectiva. No final dos anos 90 e, se calhar, com as Festas Populares de P. Novo, enfim a cosmopolitaniedade. O cortejo [momento alto das Festas] tenta ser o mais etnográfico possível. Foi [também] concebido um projecto etnográfico, onde está estipulado que os ranchos só recebem apoio da junta se participarem no cortejo. Também a toponímia foi-nos apresentada como um factor relevante. Refere
60 Entrevista realizada ao Presidente Álvaro Amaro, no dia 20 de Junho de 2008, no seu gabinete na Junta de freguesia de Pinhal Novo.
ainda que aJunta tem dado um contributo decisivo, mas não será o único e não substitui o papel de outras entidades, dando especial destaque ao Festival de Folclore da Região Caramela, organizado pelos ranchos Folclóricos; à Festa da Amizade promovida pelo Rancho Folclórico dos Olhos d’Água, com a encenação de quadros etnográficos de época; ao Ensino Recorrente, através do método de alfabetização com recurso às memórias individuais; aos Círios em honra de N.ª Sr.ª da Atalaia que, na sua perspectiva:são uma referência incontornável.
Verificamos que a evocação do passado mítico sobre a origem do lugar está presente em todas estas dinâmicas. O passado que, segundo Peralta (2006), é impulsionado e promovido pelos poderes políticos como forma de legitimação e consensualização da sua própria acção (idem: 77). Trata-se conseguir chegar à população - tendo a cultura
como recurso político - utilizando as suas próprias memórias, os seus afectos, através da transposição do que conhecem e sentem como seu para o campo do poder político, assente numa panóplia de dispositivos simbólicos. São discursos simplificadores que enaltecem a uniformização das mensagens e imagens colectivas partilhadas (Torrico, 2006: 34). E em Pinhal Novo, a politização da memória tem-se apresentado como uma forma eficaz de fazer política. O grande actor político tem-se mostrado capaz de comandar o real pelo imaginário, pela transposição e produção de imagens e manipulação de símbolos, transformando todo um povo numa multidão de figurantes fascinados pelo drama (Balandier, 1999: 21 - 23). Não deixa também de ser relevante o facto de, no nosso trabalho de campo, não termos detectado resistência endémica à promoção do apelativo caramelo e a todo o campo simbólico que o sustenta. Não queremos com isto afirmar que tal resistência não existe, todavia, não nos foi possível, através da metodologia utilizada, detectá-la. Aparentemente parece existir um consenso generalizado ou uma afasia social, talvez resultante daquilo que Balandier denomina por ilusões da óptica social (idem: 20), consequente da eficácia da estratégia de comunicação
simbólica do poder político. Ou, pegando na perspectiva de Bourdieu (1989), esta afasia ou aparente consentimento, pode ser efeito do afastamento do palco de acção, dos habitantes reduzidos a meros consumidores: O campo político é o lugar onde se geram, na concorrência entre os agentes que nele se acham envolvidos, produtos políticos, problemas, programas, análises, comentários, conceitos, acontecimentos, entre os quais os cidadãos comuns, reduzidos ao estatuto de “consumidores”, devem escolher, com probabilidades de mal-entendido tanto maiores quanto mais afastados estão do lugar de produção (idem: 164).
Precisamente pelo domínio que o apelativo tem do discurso político, quisemos saber porque é que o presidente assume como determinante a Identidade Caramela em Pinhal Novo. Respondeu-nos que a vila é uma realidade multicultural devido aos fluxos migratórios e, consequentemente, formada por múltiplas identidades. Esta alusão às múltiplas referências culturais locais provocadas pela mobilidade da população, confirma o que já havíamos dito sobre a função que o apelativo tem de tornar a heterogeneidade local harmoniosa, no sentido de vincular as diferenças à unidade do território. O apelativo contribui para criar uma auto-estima colectiva, onde todos se querem rever. É a exaltação da identidade, a apoteose cultural do local. Por esse motivo, o presidente destaca que, independentemente das origens das famílias, hoje, a auto-estima que as pessoas foram criando faz com que digam que são caramelos. Ser caramelo hoje é ser diferente. As pessoas amiúde referenciam-se na nossa forma de fazer, de estar. Ser do Pinhal Novo é ser diferente de ser de outro lado qualquer. Pinhal Novo é tradição e modernidade.
Finalmente, perguntámos qual a visão que tem de Pinhal Novo a médio prazo. Respondeu que prevê que vá sofrer transformações no plano cultural e da identidade, o que implica que a memória se apague. Assim têm que ser tomadas medidas, nomeadamente colocar essas memórias num museu. Incentivar os ranchos … mas, sobretudo, vai depender das políticas e do ordenamento do território. Uma desconstrução e análise pormenorizada de todo o discurso daria, certamente, lugar a um capítulo inteiro mas, porque tentamos cingir-nos às consequências mais relevantes das suas palavras, destacamos o que nos parece ser claro: a presença determinante que o poder político tem na construção do apelativo caramelo. O próprio presidente tem disso consciência, afirmando que se inicialmente lhe coube a impulsão daquilo que denomina por estado de consciência colectivo, projecta também a necessidade de dar continuidade a este trabalho, sob pena da memória dar lugar ao esquecimento. E, embora tenha referido a importância de outras entidades que contribuem para este processo, não foi referida uma única vez a participação dos cidadãos anónimos, de certa forma confirmando Bourdieu sobre a redução dos habitantes a meros consumidores, cabendo ao poder politico transmitir valores, produzir e difundir sentidos de colectividade, endoutrinar.
A nosso ver, é também relevante a necessidade que o presidente tem de vincar a importância do seu papel neste processo. Como afirma Balandier (1999) o poder político não quer ser apagado pelo esquecimento. A sua linguagem refere-se a um além (fora da vida imediata), em direcção ao passado e/ou do futuro; aos fundadores, e a uma carta inicial e seus princípios, a imagens e símbolos, ao progresso e à mudança, a uma prospectiva que impõe desde já a gestão do futuro (idem: 29). Uma das formas que a Junta de Freguesia encontrou
para investigar e promover o apelativo e, simultaneamente fazer-se perdurar na memória, foi a edição da Colecção Origens e Destinos. O primeiro número (1998) informa os leitores dos objectivos que pretende alcançar: O tema é óbvio e fascinante: as origens e os destinos deste sítio e destas gentes (…) Os objectivos são essenciais e urgentes (…) contributos para a valorização da base cultural de Pinhal Novo.61No Prólogo, escrito por Cabrita, podemos ler: Os homens, motivados e orientados pelos significados que são capazes de descobrir ou de atribuir aos impulsos que provêm do espaço que partilham, tomam em consideração esses significados, interpretam-nos e respondem-lhes intencionalmente. Assim, os homens vão construindo o seu espaço e, neste, o bocado mais afeiçoado dele, o seu sítio. (…) A definição de um sítio, (…) tem, pois, de procurar-se na sua identidade, nas suas referências próprias, na forma como delas cuida, no processo como as preserva ou modifica, no uso que delas faz para garantir a sua própria integração, na afirmação particular da sua relação com os outros. Parece-nos claro que a escrita da memória é vista como essencial para a clarificação dos aspectos identitários do local, e para a difusão e partilha dessas mesmas memórias, como forma de valorização da comunidade.
Relativamente à Câmara Municipal de Palmela, também lhe tem cabido um importante papel no estudo e divulgação do apelativo. As publicações, as exposições, os projectos educativos e recursos pedagógicos que coloca à disposição da comunidade educativa, contribuem para dar visibilidade, continuidade, fixar e cristalizar o apelativo como configuração identitária (vide figuras 25 e 26). É um processo institucional de gestão da memória colectiva através da selecção dos factos que devem ser preservados ou esquecidos, e condicionando essa memória para a valorização de um património em detrimento de outros. A gestão da memória, sendo componente indispensável à vida política das nações e ao manejo, pelas elites letradas, de repertórios simbólicos que impregnam e regem a vida social, converge para a legitimação do Estado e dos grupos que nele participam
(Nedel, 2005:89). Falamos de um exercício de autoridade que actua, não pelo domínio da força política mas, sobretudo, pelos meios de que dispõe para fazer ecoar o seu discurso junto da população local.