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Nikolas Rose ( 1999) em seu livro “ Powers of freedom ” argum enta que a relação entre núm eros e a política é recíproca e m ut uam ent e const it ut iva. Os núm eros não inscrevem um a realidade preexistente, m as a constituem . Longe de serem som ente elem entos inform ativos, assum em um im portante papel na construção de fatos sociais, e com o tecnologias de governo:

1o – Determ inam quem detém o poder e quem pode reivindicá- lo. Eles são pares

de um m ecanism o que confere legitim ação sobre líderes políticos, autoridades e inst it uições.

2o – Operam com o instrum ento diagnóstico dentro de um a racionalidade liberal.

prom etem equilibrar o exercício da autoridade pública com os valores e crenças dos cidadãos privados.

3o – Tornam m odalidades diferentes de governo tanto possíveis com o j ulgáveis.

Possíveis porque aj udam a construir o obj eto no qual o governo é requerido a operar, com o é o caso dos índices de crim inalidade j uvenil que acabam os de apresentar. Eles m apeiam as front eiras e as caract eríst icas internas dos espaços da população, da econom ia e da sociedade. As instit uições, universidade, indúst ria e assim por diante, t ornam - se int eligíveis, calculáveis e prat icáveis através de representações que são, pelo m enos em parte, num éricas. Elas são tam bém j ulgáveis na m edida em que taxas, tabelas, gráficos, tendências e com parações num éricas tornam - se essenciais nas análises críticas das autoridades na sociedade contem porânea. Desta form a, a vigilância é m arcadam ente conduzida pela linguagem dos núm eros.

4o – São técnicas cruciais para o governo m oderno. Por m eio dos núm eros é que

se m antém um controle de im postos e adm inist ração financeira e é tam bém m ediante índices de m ort alidade, nascim ento, m orbidade e crim inalidade que novos program as sociais são engendrados e j ustificados.

Técnicas de inscrição e acum ulação de fatos sobre “ a população” , a “ econom ia nacional” , “ pobreza” , t ornam visível um dom ínio com certa hom ogeneidade interna e lim it es externos. Em cada caso, a coleta ou agregação de núm eros participam na fabricação de um a "clareira" dent ro do qual pensam ento e ação podem ocorrer. Os núm eros aqui aj udam a delinear espaços irreais para a operação de um governo e m arcá- los a partir de um quadro de norm as que perm ite avaliação e j ulgam ento. ( Rose, op cit, p.212) .

Assim , ao transform ar o m undo qualitativo em inform ações quantitativas, os núm eros oferecem possibilidades de controle através de classificações que fazem com que as pessoas não só pensem em si próprias, a part ir destas inform ações, com o tam bém suas escolhas serão balizadas por elas. Os núm eros não deixariam de estar atrelados a um aparato de dom inação.

I sto posto, o nosso olhar exige cautela, quando estiverm os diante de núm eros, ora veiculados na m ídia, ora presentes em explicações científicas a certos fenôm enos sociais, um a vez que eles não revelam um a realidade, m as a constroem . Não significa que práticas violentas sej am inventadas. Mas as suas explicações, sim , j á que elas podem cum prir um desserviço à população, por não problem atizar índices m uitas vezes alarm antes e calam itosos.

A im portância da m ídia, a nosso ver, recai nesta questão. Enquanto produtora de discursividade, sua responsabilidade social t orna- se considerável. A nós cabe t am bém a m issão de cuidar para que essa responsabilidade sej a exercida com vistas ao

int eresse colet ivo. Um a m ídia conscient e e volt ada para a ut ilidade pública precisa abandonar o seu teor sensacionalista e descrit ivo. A ANDI , neste sentido, assum e esse com prom isso ao procurar sensibilizar os form adores de opinião quanto aos discursos, por vezes essencialistas, que a m ídia faz circular.

Pesquisas de cunho m ais posit ivist a acabam por construir versões sobre práticas violentas e, conseqüentem ente, suj eitos violentos que exacerbam seu caráter perigoso e delinqüencial, contribuindo tam bém com um a visão essencialista e preconceituosa. No que diz respeito às teorias que procuram explicar a violência, consideram os que, em bora sej am im portantes, não são prescrições para a vida social derivadas de um conhecim ento m ais obj etivo e fontes fidedignas. Elas são, segundo Gergen & McNam ee:

[ ...] sim plesm ent e recursos lingüíst icos que aut orizam form as particulares de ação e suprim em out ras. Talvez, a questão central, então, é que tipos de m undos sociais as diferent es teorias tornam possíveis? ( McNam ee e Gergen, 1999, p.5)

Quando afirm am os que há violência na escola com o fato indiscutível e socialm ente com partilhado, não nos dam os conta dos elem entos que o constroem . Quando problem atizam os esses fatos, som os direcionados a um a série de elem entos, com o textos, m ídia, saberes locais, que se conectam em redes. As explicações sobre Violência na Escola sej am elas at ribuídas à pobreza, à atitude do educador ou do aluno, passam a com por o que Bruno Latour cham a de caixa preta17, em cuj a saída

são obtidos produtos considerados com o verdade.

A controvérsia é a chave que perm ite abrir essa caixa e olhar para essas construções. Dentre os elem entos que a com põem , escolhem os focalizar o cotidiano dos educadores sob um outro enquadre: o discursivo.

O que pode ser violento ou não são variáveis do ponto de vista histórico e cultural ( Sposito, 2002). Saberes que precisam ser investigados.

Justifica- se tal foco tam bém pela necessidade, com o j á foi exposto, de m aiores investigações sobre o cotidiano do educador no país. Trazer o cotidiano dos

17 Bruno Latour ( 1987) , em “ Ciência em Ação” , explica que o m odelo de um a caixa preta com o instrum ento

de análise dos processos de produção do conhecim ento é resultant e do cam po cibernét ico. Em algum as circunst âncias, um a vez afast ada a necessidade de um a explicação m ais am pliada sobre processos t écnicos, se faz a represent ação de um dado conhecim ento na figura de um a caixa onde são apontados os elem entos de entrada e produtos obtidos na saída, m as são om itidos os com plexos e nebulosos processos internos que separam um m om ento do outro. A questão da “ violência na escola” segue a m esm a rot a, pois t ida ent ão com o fato e difundida enquanto cert eza nos discursos tanto cient íficos, m idiát icos e no senso com um , acaba por transform ar um processo m ult ifatorial em algo sim ples. A caixa pret a est á fechada quando se afasta a controvérsia, escondendo as incertezas nela contidas. Em bora os estudiosos sobre violência e violência na escola apont em para as “ incert ezas” quant o às suas definições, não deixa de haver um a certeza na incert eza.

educadores à luz de um a reflexão crítica sobre suas prát icas poderá potencializá- los para futuras ações.

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