Em pleno século XIX, o ensino da Academia parecia claramente desajustado e muito aquém das expectativas românticas fixadas na época. Raczynski, pouco entusiasmado com a visita à exposição de 1843, classificava algumas peças de très mauvais goût e, apesar de se furtar a mais amplos juízos, deixava escapar a reveladora conclusão: Je ne découvre pas enco-
re dans cette Académie d’élémens de progrès38. E, no ano seguinte, ao efectuar uma breve
radiografia do país, da sua cultura e do estado da nossa arte, atribui um balanço negativo so- bretudo à pintura, infelizmente sintomática de um mal bem mais profundo:
A l’Academie, qui devrait s’appeler école de dessin, on enseignerait le des- sin, la perspective, et l’anatomie. On ferait dessiner d’aprés la bosse et
37 Idem, p. 9.
38 [Não descubro ainda nesta Academia elementos de progresso] Conte A. Raczynski, “Exposition de 1843”, in Les Arts au Portugal, Paris, 1846, p. 97.
d’aprés le nu. Je supprimerais la classe de peinture à laquelle la réunion de mille circonstances n’est pas pour le mouvement favorable.39
As observações do autor aglutinavam-se numa pragmática conclusão: a Academia devia ser transformada numa escola de desenho, capaz de garantir uma prática assídua e regular deste género artístico, basilar para a iniciação e progressão nos diversos ramos das belas-artes.
O desenho, estava irrefutavelmente condenado a ser o centro das atenções e também de di- versas polémicas. Ao longo do período oitocentista, confrontam-se a propósito do desenho, duas atitudes artísticas visivelmente antagónicas. Uma, gerada no seio das próprias Academi- as, perpetuava os ideais e os ensinamentos clássicos, encontrando larga expressão, sobretudo ao nível da escultura e da arquitectura; outra, imbuída de um carácter mais livre e expressivo, tenta exercer uma autêntica renovação do desenho, opondo-se fortemente ao ensino e às práti- cas artísticas académicas40
. Anunciação, Silva Porto e posteriormente Simões de Almeida (Tio) são os pioneiros defensores de uma nova forma de desenhar, liberta do espartilho do classicismo. Os valores institucionalizados, vão ser lentamente substituídos por uma visão mais romântica da arte, assistindo-se a uma evolução do fazer e do pensar segundo as normas clássicas, para uma exaltação da natureza, fielmente representada na tela e no desenho natura- lista.
Mas a oposição ao ensino do desenho segundo o sistema clássico, permanecia no auge de uma série de desavenças entre docentes da Academia e algumas personalidades exteriores. Em 1860, João José dos Santos, agregado da Aula de Gravura Histórica41
e forte aliado de Fran- cisco de Assis Rodrigues, envolve-se numa estéril contenda com José Maria de Andrade Fer- reira (1823-1875)42
, acérrimo crítico dos métodos académicos de ensino do desenho. O escri- tor que 1856 assinara seis extensos artigos na Illustração Luso-Brasileira, sobre A Academia
de Bellas-Artes de Lisboa e a Necessidade de uma Reforma, encontrava novos motivos para a
republicação do seu texto, desta feita sob o sugestivo título: A Reforma da Academia das
Bellas-Artes de Lisboa. Aliás, o momento não poderia ser mais oportuno a reflexões reformis-
tas: o Conselho Superior de Instrução Pública nomeara recentemente uma comissão, incumbi- da de avaliar os necessários melhoramentos a introduzir na Academia, a fim de a equiparar às
39 [Na Academia, que deveria chamar-se escola de desenho, ensinar-se-ia o desenho, a perspectiva e a anatomia…Aprender-se-ia o desenho do relevo e o desenho do nu. Eu suprimiria a aula de pintura à qual um conjunto de mil circunstâncias não é de momento favorável]Conte A. Raczynski, “Objects d’art qui se trouvent en Portugal”, in Les Arts au Portugal, Paris, 1846, p. 260.
40 José Fernandes Pereira,“Teoria do ensino do desenho Português: o modelo clássico”, in Vieira Lusita-
no: o desenho, Lisboa, 2000, p. 260.
41 O titular da Cadeira era Benjamim Comte.
42 Andrade Ferreira, foi funcionário das Finanças, administrador do Concelho de Oeiras, pertenceu à Academia das Ciências, é crítico e autor de vasta bibliografia dispersa.
suas congéneres de Itália e França. A comitiva, composta por Andrade Corvo, Magalhães Coutinho e Latino Coelho, dispensava curiosamente a presença de uma autoridade em maté- rias de arte.
Na polémica Reforma da Academia de Bellas Artes43, Andrade Ferreira acusa a escola lis-
boeta de professar um ensino maioritariamente anacrónico e medíocre, responsável pela parca qualidade das obras artísticas realizadas desde a sua formação. Segundo observa, o problema ficava a dever-se ao desenvolvimento de uma estrutura curricular, assente numa vertente prá- tica do desenho, apartada dos necessários conhecimentos preparatorios e complementares. Tido como condição sine qua non do complexo de estudos das Belas-Artes, o desenho, des- provido de referências teóricas e culturais, restringia-se a um ritual mecanicista, isento de talento e imaginação. Apesar de se leccionar a arte do desenho conforme os preceitos clássi- cos, em cousa alguma se manifesta o sentimento profundo, que a inspira da verdade e do
conhecimento dos primores da antiguidade grega e romana.44
Por isso, a sua opinião é pe- remptória:
Mas no desenho, como ensino primordial, não está tudo. Antes da mão saber pegar no lapis é preciso que o intendimento tenha noções com o que o possa dirigir. O artista não reside só no manejo do pincel, no preparo da palheta, no empaste das tintas; o artista é a intelligencia, é a alma, é o coração. E nenhu- ma d’estas grandes propriedades do homem se engrandece e exalta, sem o es- tudo proprio para as preparar e desenvolver.45
Embora os mancebos pudessem revelar algumas potencialidades inatas, sem os estudos
adequados ao seu desenvolvimento, rapidamente a sua vocação estagnaria num estéril campo
de incapacidade criativa. Ora, no parecer de Andrade Ferreira era este ingrato infortúnio que aguardava os auspiciosos discípulos da Academia. Quem ambicionava dedicar-se às artes, devia entregar-se atempadamente a leituras aturadas, seguidas de profundas e constantes
43 Em 1860, o Conselho Superior de Instrução Pública nomeia uma comissão composta por Andrade Corvo, Magalhães Coutinho e Latino Coelho, encarregando-os de examinar o estado actual da Academia
das bellas artes de Lisboa, e de indicar quaes os melhoramentos necessarios, para que aquelle estabele- cimento, de accôrdo com os systemas hoje adoptados nos melhores institutos de bellas artes de Italia e França, possa educar, de uma maneira regular e solida, os mancebos que patenteiem vocação para os diversos ramos das artes do desenho (in José Maria de Andrade Ferreira, A Reforma da Academia das Bellas Artes, Lisboa, 1860, p. 5). Os trabalhos da comissão nunca chegaram a ser publicados, se algum trabalho houve, como questionava posteriormente Joaquim de Vasconcelos (in Joaquim de Vasconcelos, A Reforma do Ensino de Bellas-Artes II (Analyse da Segunda Parte do Relatorio Official), Porto, 1878,
p. VI). Embora os resultados obtidos tenham sido nulos, a oportunidade de apresentar uma reforma de Belas-Artes, motivou a intervenção crítica de Andrade Ferreira – autor de uma pequena publicação –, onde analisa as práticas pedagógicas académicas. Sem ter a pretensão de efectuar uma obra científica ca-
bal, Andrade Ferreira expressava apenas o desejo das suas considerações serem levadas a peito, ofere-
cendo thema a mais larga dissertação.
44 José Maria de Andrade Ferreira, A Reforma da Academia das Bellas Artes, Lisboa, 1860, p. 9. 45 Idem, p. 27.
cogitações, movidas pelo objectivo último de elevar a arte ás verdadeiras e poeticas regiões da idealidade. Para evitar a desconcertante propagação de talentos medianos, Andrade Ferrei-
ra propunha a adopção de um reflectido elenco de disciplinas, como a anatomia, a perspectiva e a história da arte, destinadas em conjunto com o desenho, a iluminar a aptidão natural dos futuros artistas, preparando-os para maiores e mais deslumbrantes vôos.
Apesar das invectivas, a Academia continuava a expor a indigência dos seus espíritos diri- gentes, na perpétua aplicação de pedagogias passadistas, enraizadas numa estrutura curricular profundamente deficiente. Os discípulos, incitados a copiar o modelo imposto, com o escrupu-
lo meticuloso de um respeito tradicional e a exactidão conscenciosa de um daguerreotypo46
, viam-se entre mil embaraços perante a hipótese de consagrarem um esforço criativo individu- al. Na pungente ironia de Andrade Ferreira, esta espécie de copista automático, insciente e isento de imaginação, reproduzia o jogo de musculatura de uma coxa do Gladiador, como se
copiasse as proeminencias de uma cordilheira de montanhas, pois para elle tudo são bossas ou elevações.
Às maleitas de um ensino excessivamente técnico, acrescia-se ainda a deplorável qualidade dos referentes visuais, responsáveis por constrangedoras atrocidades ao nível da representa- ção. Este ultrajante muzeu de antigualhas, albergava a mais vetusta, incorrecta e abortiva
collecção de estampas e quadros de que ha noticia em todo o cadoz de estamparia obsoleta e monstruosa. Perante as estridentes evidências, restava ao jornalista reiterar a seguinte conclu-
são:
O pintor ou esculptor intelligente, pensador, capaz de se elevar ás regiões da idealidade, e de consubstanciar os rasgos da sua imaginação em obras perdura- veis para a admiração publica, não se concebe que possa existir pelo processo de estudos da Academia.47
A crítica excessivamente contundente, interventiva e até contraditória, denunciava os vícios do classicismo e do academismo, sem um convincente laivo de originalidade. Firmada a récita de impropérios, Andrade Ferreira propõe a ampliação da colecção de estátuas e modelos clás- sicos, bem como a aquisição de um actualizado conjunto de estampas e quadros, destinados a instigar os aprendizes nos segredos das artes do desenho, de preferência perante alguns exemplos emblemáticos, como o grupo do Laocoonte, as obras de Rubens ou de Miguel Ân- gelo.
46 Idem, p. 28. 47 Idem, pp. 28-29.
João José dos Santos, depressa contrapõe as opiniões do texto reformista, frisando o pro- verbial desempenho da Academia na formação artística dos seus discípulos – obra de uma digníssima organização pedagógica –, em tudo equiparável à praticada nos mais diversos
paizes onde as artes se exercem. Companheiro de Raczynski nas suas deambulações pela
província, registrando com hábil esmero os objectos de estudo do conhecido conde, José dos Santos reclama uma legitimidade em cousas de bellas artes que Andrade Ferreira, definitiva- mente não possuía. Indignado com a indecorosa verborreia do jornalista, acusa-o de leigo em matéria de arte48
, resumindo a sua dissertação a um arrazoado de absurdíssimos exageros, mascarados pelo mais ridículo palavreado guindado. Embora absorto na ingrata tarefa de desconstruir as ideias do opositor, abranda momentaneamente a defesa da instituição acadé- mica, admitindo a necessidade de efectuar reformas parciais, em algumas das suas disposições
não só do estudo elementar, como no exercicio professional e tambem na parte administrati- va49
. Para o gravador, a Academia tentava cumprir a sua missão conforme sabe e póde, cami-
nhando a par das cousas da nossa terra, numa lentidão consensual, em parte imposta pela débil situação económica do país, castradora de qualquer hipótese de desenvolvimento da sua estrutura. Inteirado das insuficiências do espaço onde lecciona, congratula-se com a oportuni- dade de contribuir para o seu engrandecimento, refutando indivíduos que prégam ás duzias as
reformas, os concelhos, as censuras, fazendo arguições todas gratuitas porque nunca entra- ram no seu amago para verem e examinarem as grandes difficuldades com que a academia sempre lutou e luta ainda50. Portanto, quando Andrade Ferreira acusa a cópia de modelos
clássicos de limitada e obsoleta, João José dos Santos reitera as suas convicções mais profun- das, encarando-a de modo positivo e moderno, concluindo pela validade intrínseca dos méto- dos de ensino académicos:
Parece-me que ainda mesmo o bestunto mais alheio a assumptos de arte co- nhecerá que se a nossa academia produz discipulos que saibam, que deco-
rem, que reproduzam, que dêem todas estas provas de saberem desenhar as
estatuas classicas que ha, e que são as que existem em todas as academias das nações civilizadas, a nossa academia não póde fazer mais em credito seu, interesse dos alumnos, e gloria da sua patria.51
48 Opinião igualmente partilhada por Joaquim de Vasconcelos que em 1878 refere-se à Reforma do Jorna- lista, nos seguintes termos: É escusado dizer que o autor não tinha a minima ideia da arte e da sua gene-
sis. (in Joaquim de Vasconcelos, A Reforma do Ensino de Bellas-Artes II, Porto, 1878, p. VII).
49 João José dos Santos, Exame Critico do Opusculo: Reforma D’Academia de Bellas Artes de Lisboa pe-
lo Sr. José Maria de Andrade Ferreira, Lisboa, 1860, p. 6.
50 Idem, p. 28. 51 Idem, p. 48.
Num discurso impresso em 1862, o gravador refere o cultivo das bellas artes como prodi- giosa fonte de aperfeiçoamento da humanidade, dispondo-a para tudo o que é magnifico e
sublime, suscitando a aproximação da creatura ao Supremo Creador Divino. Citando Aristó-
teles, recorda o incomparável poder da expressão artística de sujeitar as paixões e inculcar o
habito da boa ordem, recordando a sábia actuação do seu discípulo Alexandre que incentivava
o estudo do desenho para atingir o conhecimento do verdadeiro bello.
Apesar de preservar uma inquebrantável solidariedade à Academia, João José dos Santos redime-se finalmente à evidente obrigatoriedade de a sujeitar a alguns melhoramentos. Partin- do de um princípio tão verosímil quanto irrefutável, constata a necessidade de implementar a tão ansiada via de ensino, destinada a nobilitar o estatuto profissional da modesta classe fabril. Formadora de operários especializados, devidamente credenciados, a Academia ampliava o seu leque de funcionalidades, adquirindo o poder e a ingerência, de permear o desenvolvimen- to qualitativo da decoração nacional, quer seja nos edificios particulares, publicos, sagrados e
monumentaes. Embora olvidasse o importante espólio dos objectos decorativos, o autor entre-
ga-se com visível apego, à crescente crença da emancipação das artes industriais. Mas a con- cretização deste postulado, passava necessariamente por refrear a atenção atribuída às artes eruditas, cuja presença continuava a ofuscar o proveito da produção industrial. Consagrando o seu tímido tributo progressista, termina a arguição do texto, apelando à benemérita acção do mecenato interessado em premiar o génio e resgatar a arte do mais indolente abandono. Quan- to à Academia, restava-lhe compartilhar um sonho quimérico:
Quando uma geração homogenea tomar conta d’este estabelecimento talvez elle mude de nome e de condições. «E um nome, como diz Arlincourt, fórma
muitas vezes um destino.»52 1.4. A génese do desenho aplicado à indústria
A 10 de Novembro de 1875, o Governo de Rodrigues Sampaio, punha finalmente cobro a quase duas décadas de porfiados avanços e recuos53
, indigitando a formação de uma ampla
52 João José dos Santos, Discurso que deveria ser recitado na Academia de Bellas Artes de Lisboa, Lis- boa, 1862, p.12.
53 Em 1862, o Marquês de Sousa Holstein, após ter sido nomeado inspector da Academia lisboeta, sugere a constituição de uma comissão para a elaboração de uma reforma do ensino das Academias. Miguel Ân- gelo Lupi, António Vítor de Figueiredo Bastos e António Manuel da Fonseca, foram designados para a formação da referida comissão que acabou por se dissolver sem concluir o projecto pretendido.
Um decreto publicado a 22 de Março de 1870, indigitava a formação de uma nova comissão composta pelo Marquês de Sousa Holstein, Francisco de Assis Rodrigues, Visconde de Menezes, Vítor Bastos, An- tónio Tomás da Fonseca, Conselheiro J. Palha Faria de Lacerda e o Dr. Tomás de Carvalho. A comissão não concluiu os objectivos a que fora incumbida, devido à ausência de alguns dos seus elementos, obten- do mais uma vez resultados infrutíferos.
comitiva, secretariada por Luciano Cordeiro e presidida pelo ilustre vice-inspector da Acade- mia lisboeta, o Marquês de Sousa Holstein54
. Composta por um séquito de notáveis da cultura portuguesa55
, a comissão ficava incumbida de traçar um plano para a reforma do ensino de Belas-Artes, incluindo a organização de museus artísticos, propondo as providencias que
julgar mais adequadas á conservação, guarda e reparação dos monumentos historicos e dos objectos archeologicos, de importancia nacional, existentes no reino56
.
A comissão, encarregue de atender à maior economia de despesas compatível com o pen-
samento a que têm de responder os seus trabalhos57
, inicia o Relatório58
expressando um in- dignado lamento, face ao estado de incúria e abandono que atinge o património artístico naci- onal. Citando o emblemático exemplo de Alexandre Herculano, o grupo reformista assume um papel educativo, ao enfatizar a necessidade de pôr cobro ao vandalismo despeado que ameaça a integridade dos monumentos pátrios, envergonhando o bom senso civico do país. Concluídos os argumentos em prol da salvaguarda deste inestimável manancial histórico, o
Relatório segue em tom de comedido entusiasmo, fazendo uma incipiente alusão à necessida-
de de reformular o ensino artístico do desenho, dividindo-o em três níveis distintos. O primei- ro grau, que abrange os elementos de desenho, indispensável a todo o homem que tiver edu-
cação liberal, não se encontra propriamente incluído no quadro dos estudos artísticos, mas
sim no plano geral de instrução pública. Leccionado nas escolas primárias e nos liceus, ali
estava e ali o deixa ficar a commissão, limitando-se a solicitar à superintendência do ensino
artístico, a criação de programas e a selecção de modelos.
O segundo grau, constituido por um curso geral e especial de desenho, assumia-se como estádio preparatório para os estudos superiores artísticos, embora representasse simultanea- mente um curso completo para certas profissões. Com o claro intuito de estreitar a ligação entre o binómio arte-indústria, a comissão especifica a actuação deste nível de instrução, afir- mando:
54 Resta ainda referir a figura do vice-presidente, a cargo do Conde de Valbom.
55 A comissão contava com a presença do Conde de Samodães, de Carlos Maria Eugénio de Almeida, Francisco de Assis Rodrigues, Dr. Tomás de Carvalho, António Augusto Teixeira de Vasconcelos, Au- gusto Filipe Simões, António Tomás da Fonseca, António Vítor de Figueiredo Bastos, Thadeu Maria de Almeida Furtado, Augusto Carlos Teixeira de Aragão, Joaquim Possidónio Narciso da Silva e José Maria Nepomuceno.
56 Marquês de Sousa Holstein, Observações sobre o Actual Estado do Ensino das Artes em Portugal, Lisboa, 1875, p. IV.
57 Relatório Dirigido ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Ministro e Secretario D’Estado dos Negó-
cios do Reino, Primeira Parte, Lisboa, 1876, p. IV.
58 Esta reforma encontrava-se dividida em duas partes distintas. A primeira é constituída por um Relató- rio anexado a um conjunto de projectos que propõem a reforma do ensino artístico e a organização do serviço de museus, monumentos históricos e arqueologia. A segunda parte inclui as Actas e Comunica- ções efectuadas pela dita comissão.
A par d’elle está o ensino de applicação das artes do desenho á industria; questão momentosa que preocupa ha muito todas as nações civilizadas, mas que entre nós só ha bem pouco tempo mereceu a publica attenção. Comtudo encerra-se n’ella o futuro da nossa industria59.
Ao terceiro e último grau – circunscrito apenas aos cursos profissionaes das bellas artes –, a comissão impunha um incremento de aulas teóricas e científicas, indispensáveis à formação de todo o artista, especialmente o architecto, classe de que póde afoutamente dizer-se estava
inteiramente desprovido o paiz60.
Preservando a positiva capacidade de denunciar a pobreza extrema do ensino actual, a co- mitiva reconhecia a fragilidade dos seus próprios projectos, insuficientes para debelar o lasti- moso cenário de indigência, há muito enraizado e quase banalizado. Consumado o fracasso anunciado, a comissão prossegue a sua récita de infortúnios, comiserando-se por o curso geral e especial de desenho não ser tão amplo, harmonico e solido como seria para desejar; embora legitimasse o papel deste género artístico, fundamental para o incremento das artes plásticas e industriais. O Relatório, lamentava sobretudo a situação da fazenda nacional que inviabilizava as hipóteses de concretização de uma reforma tão radical e abrangente, como poderia dese-
jar-se ou como seria necessário. Excluindo as contingências materiais, um dos mais premen-
tes problemas do ensino artístico, residia na parca instrução elementar e preparatória exigida aos candidatos às Academias. Como Andrade Ferreira anteriormente apontara, os aprendizes eram admitidos com apenas dez anos de idade e o simples exame da instrução primária. Para a comissão, começava logo aqui a impor-se a miserrima situação da arte portugueza, patente no rudimentarissimo leque de habilitações ministradas aos futuros artistas.
Os candidatos, munidos apenas de escassas noções de leitura, escrita e aritmética, encon- travam-se totalmente desprovidos de qualquer estudo que pudesse regular a aprendizagem do
desenho. Banir tamanhas lacunas, dependia da adopção de um vasto corpo de disciplinas –
como a geometria, a perspectiva ou a história61