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No que se refere à Formação Cívica, a cargo do director de turma, há quem argumente que não se trata de nada de novo:

Formação Cív ica, também, ao fim e ao cabo, esta área existia na nossa prática diária, ao dar-se a Matemática, ao dar-se o Português, ao dar-se qualquer outro tipo de disciplina já está implícito essa formação cívica dos meninos. (Gil, PCP)

Hugo defende a ideia de que os quarenta e cinco minutos semanais de Formação Cívica são inconsequentes face às características da sociedade actual:

A minha opinião relativamente à Formação Cívica, seja o director de turma, não seja o director de turma... quem é director de turma tem que a dar! Mas eu penso que é uma área inconsequente porque há uma coisa que se chama família e os professores não a podem substituir. Quem vem para aqui com 11 anos, já traz 11 anos de vivência familiar com determinado tipo de passagem de valores que são transmitidos. Sinceramente, na perspectiva de que nós não nos podemos substituir à família, podemos ser um complemento mas um complemento na parte afectiva – não tão proteccionista como se calhar às vezes exista, isto é, se calhar estou a falar em superprotecção. Nós também nos devemos proteger! Essa transmissão de valores, todo esse crescimento da criança como pessoa na relação com a família, aí tem que haver outras estruturas a tentar modificar isso. Eu penso que são irrelevantes (os 45m de FC). (Hugo, EF)

Os recursos, humanos e materiais a que recorrem, passam pelos Conselhos de Turma, pelos próprios docentes de EMRC e por publicações relacionadas com a área:

No ano passado havia (ajudas). Falava-se bastante nos Conselhos de Turma dos assuntos a abordar na Cidadania. Este ano não se falou nisso, não sei já porquê. Se calhar as coisas foram… o tempo não chegou para tudo. (Frederico, DT, EVT, AP, FC, TIC)

O que acontece muitas vezes é que muitos directores de turma vêm ter comigo (professora de EMRC) e com as minhas colegas perguntar, “dêem-me lá temas, dêem-me livros, o que é que eu hei-de falar com os meus alunos.”(Maria, EMRC)

…temos abordado assuntos que vão desde… eu tenho seguido um pouco um livrinho que surgiu aí – que eu acho que tem alguma piada –, que é “Cidadania de A a Z”, que tem alguns assuntos. Facilita bastante o trabalho do professor e traz assuntos que eu acho que os miúdos realmente precisam de saber. (Frederico, DT, EVT, AP, FC, TIC)

A informação que recolhemos no documento de avaliação intermédia leva-nos a concluir que se desenvolveram várias actividades que visaram diversas aprendizagens (Anexo10.17). Essas actividades resultaram de decisões tomadas por diversos intervenientes dos quais se destaca o director de turma (Anexo 10.15, 10.16), tal como no que se refere à avaliação (Anexo 10.20, 10.21); por outro lado, a colaboração de outras áreas foi relativamente limitada (Anexo 10.18, 10.19).

Zita, enquanto responsável pela área noutra turma apresenta um relato interessante reve lador de algum desconforto:

Zita: Não me sinto muito bem (na FC). Eu não me sinto muito bem. I: Pediu para ser directora de turma?

Zita: Não! Não, não pedi. Mas até gosto! Gosto muito! Só não gosto de dar é Formação Cívica! Não gosto de dar. Não sei se é não gostar de dar. Eu passo as aulas a discutir. Discutimos porque eu tenho um trabalho que quero fazer já desde princípio de Novembro e ainda não consegui fazer. Chego lá, há sempre qualquer coisa diferente para fazer porque ou há documentação para entregar, e é preciso explicá-la, ou há recados, recados na caderneta…. [O]s outros problemas, a nível de comportamento, isso não é preciso esperar pela aula de Formação Cívica. É logo no momento!…. [A] dificuldade que eu tenho, e não sei se estou a fazer bem ou não, porque converso com os outros colegas e sinto que estão a fazer, a dar mesmo Formação Cívica a nível de Cidadania. Eu ainda não consegui começar com isso! (silêncio)

Mas, por vezes o que efectivamente se faz na Formação Cívica, segundo Maria, apesar de não o parecer, continua a ser formação cívica:

…o que acontece é que na grande maioria das vezes, daquilo que me apercebo, o director de turma aproveita aqueles 45 minutos para tratar de problemas da turma. Até porque, normalmente, a sua disciplina teve uma redução e o director de turma não quer perder, entre aspas, tempo quando está a leccionar a sua disciplina específica. Então, vai à Educação Cívica e aproveita. Eu não acho que seja negativo porque se tem que tratar de assuntos da turma isso também é formação cívica. (Maria, EMRC) Relativamente à responsabilidade da planificação da Formação Cívica há relatos diferenciados:

…eu acho que deve ser da responsabilidade do Conselho de Turma. Deve ser planificado pelo Conselho de Turma e o Director de Turma deverá, até certo ponto, implementar essas orientações. (Frederico, DT, EVT, AP, FC, TIC)

Eu trago quase sempre... trago sempre planificação. Qualquer coisa para fazer…. [F]eita por mim … escolhida por mim. (Zita, M, EA, ELM)

A avaliação intermédia desta área salienta as seguintes dificuldades relacionadas com as suas características:

? Dificuldades de tempo/ espaço.

? O tempo lectivo tem uma natureza não disciplinar que é muito pouco interiorizado pelos alunos.

? Pouco apoio do CT.

? Falta de conhecimentos para desenvolver matérias sugeridas pelos alunos e problemas por eles colocados.

? O excesso de informação para os pais.

? O pedido da escola impediu o desenvolvimento de uma linha sequencial de abordagens de modo a desenvolver o exercício da cidadania.

? Falta de orientações/ linhas programáticas mais objectivas. ? Dificuldades na avaliação dos alunos unicamente pelo DT.

? Falta de um ‘programa’ com os assuntos a tratar, específico para os alunos do 9º ano.

? Espaços físicos.

? Grande dispêndio de tempo e muito empenho para preparar convenientemente os temas.

Algumas destas dificuldades não parecem ter uma relação directa com a própria área e, as qualidades identificadas, vão muito para além da especificidade da própria Formação Cívica, como se pode depreender pela seguinte listagem:

? Flexibilidade de trabalho com a turma nas várias disciplinas leccionadas pelo DT.

? Espaço que permite maior abertura e integração dos alunos. ? Permite a reflexão e a mudança de atitudes por parte dos alunos. ? Espaço para resolver problemas relacionados com a turma. ? Promove a melhoria do clima de aprendizagem da turma. ? Espaço para debate de valores e de ideias.

? Dá lugar ao diálogo sobre os problemas da turma e as formas de os resolver. ? Permite a auto-avaliação.

? Espaço privilegiado para o diálogo e abordagens motivadoras. ? Oportunidade de abordar assuntos fora do âmbito curricular.

Assim, a Formação Cívica aparece, tal como outras áreas já referidas, com bastantes potencialidades identificadas que, nem por isso, cativam muitos dos professores entrevistados.