uma análise custo-benefício nem sempre é a ferramenta mais adequada para a avaliação das políticas públicas em prol da equidade, visto que uma ACB avalia a eficiência da política em termos econômicos.
3.4
Causas e características temporais dos acidentes
Com relação aos fatores que deram causa aos acidentes, a “falta de atenção” foi o que apresentou a maior quantidade de registros, seguido de “outras” e “ingestão de álcool” (Figura 24). A elevada incidência do fator “outras” causas indica que as opções de preenchimento nas planilhas para registros dos acidentes podem ser melhor definidas. Há possibilidade de que haja outras opções que atualmente não estão disponibilizadas aos agentes rodoviários para descrição da causa dos acidentes com ciclistas. Da forma que está, esta foi a segunda maior ocorrência nos registros e, como consequência não se sabe as reais causas que levaram à ocorrência destes acidentes.
Figura 24 – Principais causas dos acidentes envolvendo ciclistas registrados pela Polícia Federal em 2016. Fonte: dados registrados por pessoas pela Polícia Rodoviária Federal de 2016. Elaborado pelo autor.
As figuras 25 e 26 mostram que a maioria dos acidentes ocorrem entre quinta-feira e domingo e entre 17h e 21h. Isto pode indicar que ocorrem muitos acidentes por “falta de atenção” e devido a motoristas ou ciclistas alcoolizados nos finais de semana. Em relação ao horário, sendo muitos dos ciclistas trabalhadores conforme aponta as características do perfil dos ciclistas, pela idade, sexo e escolaridade, é bem possível que o horário de pico de seu retorno do trabalho seja depois das 17h. Outra questão importante ao se levar em conta a elevada incidência de acidentes noturnos, é a luminosidade presente - ou ausente -
nas rodovias federais, bem como as sinalizações luminosas presentes - ou ausentes - nas bicicletas dos próprios ciclistas acidentados. O artigo de Bacchieri et al. (2010) relata que muitos ciclistas trabalhadores da sua amostra estudada quase não apresentavam o mínimo exigido pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB), e alguns (28,2%) não apresentavam nem mesmo freios com correto funcionamento em suas bicicletas (Figura 27).
Kim et al. (2007) examinaram diversos fatores associados à severidade dos danos em ciclistas decorrentes de acidentes entre ciclistas e veículos motorizados. Entre as diversas características dos acidentes incorporadas em um modelo multinomial logit, como caracteristicas dos ciclistas, dos motoristas, do veículo, do acidente, geometria, uso do solo, temporais e ambientais, as características encontradas que, estatisticamente, aumentam a severidade dos acidentes são: as colisões frontais, a velocidade do veículo no acidente, acidentes com caminhões, motorista ou ciclistas sob efeito de drogas e/ou álcool, ciclistas com mais de 55 anos, mau tempo e escuridão sem iluminação pública (Figura 28).
Nabors et al. (2012) também discorrem sobre os principais fatores que contribuem para um acidente com ciclistas, especialmente sobre colisão entre veículos motorizados e bicicletas. Entre os fatores apresentados constam:
(i) Fatores de localização - áreas urbanas e interseções são locais bastante propícios a ocorrência de acidentes e em áreas rurais predominam as colisões ao longo do segmento, os autores sugerem a utilização de Sistema de Informações Geográfico para o diagnóstico e projeção de melhorias;
(ii) Fatores relacionados à velocidade - em conformidade com o que foi relatado nesta dissertação, os autores afirmam que a severidade de um acidente envolvendo um ciclista e motorista aumenta exponancialmente com a velocidade. Também iden- tificam que em areas rurais muitas pistas duplicadas são projetadas para velocidades relativamente altas e não são providenciados caminhos alternativos ou segregados para usuários de menor velocidade como os ciclistas. Igualmente, também apontam que em rodovias rurais, apesar de ocorrerem menos acidentes do que em áreas urbanas, em termos gerais, estes acidentes nas áreas rurais geralmente incorrem em acidentes fatais ou com vítimas gravemente feridas.
(iii) Fatores sazonais, de clima e condições de superfície - com relação a estes fatores, como temperatura, dias claros, chuva, e neve, os autores observaram predo- minância de acidentes nos meses de verão, provavelmente decorrente de uma maior presença de pessoas utilizando bicicletas como transporte e lazer neste período, incorrendo, consequentemente em mais quantidades de acidentes.
(iv) Fatores comportamentais - Nabors et al. (2012) chamam atenção para esses fato- res “humanos” que são bastante presentes nos acidentes. Exemplos das observações
3.4. Causas e características temporais dos acidentes 73
de fatores comportamentais são as colisões por falhas do motorista ou ciclista em ceder a preferência, colisão por distração, falha do motorista em detectar veloci- dade e distância adequada para ultrapassagem do ciclista, ciclista desvia obstáculos invadindo a pista de rolamento do veículos automotores, etc.
Figura 25 – Quantidade de registros de pessoas envolvidas em acidentes que utilizavam bicicleta como veículo para transporte em cada dia da semana. Fonte: dados registrados por pessoas pela Polícia Rodoviária Federal de 2016. Elaborado pelo autor.
Figura 26 – Quantidade de registros de pessoas envolvidas em acidentes que utilizavam bicicleta como veículo para transporte por hora do dia. Fonte: dados registrados por pessoas pela Polícia Rodoviária Federal de 2016. Elaborado pelo autor.
Figura 27 – Equipamentos de segurança presentes nas bicicletas de trabalhadores ciclistas. Extraído de (BACCHIERI; GIGANTE; ASSUNÇÃO, 2005).
3.4. Causas e características temporais dos acidentes 75
Figura 28 – Variáveis significativas que tem efeito nas probabilidades de severidade dos acidentes de veículos motorizados com ciclistas. Setas indicam acréscimo (para cima) ou decréscimo (para baixo) na elasticidade e áreas sombreadas indicam variações maiores que 100%. Adaptado de (KIM et al., 2007).
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