4. ANALYSER AV UTVALGTE MÅLGRUPPER
4.6. Skiferier
Quando nos lembramos das formas de ensinar e aprender Geografia na escola, a primeira ideia que nos vem à memória é um professor posicionado à frente de uma classe, com um livro didático, mapas e globos terrestres expostos, alunos copiando o texto escrito na lousa, cadernos, tarefas, correção, visto no caderno... Dessa maneira, a aula de Geografia para muitos alunos é um momento de tortura, com professores ditando textos com terminologia de compreensão difícil, sem relação alguma com o cotidiano dos alunos. Essa Geografia distante que compôs o quadro organizacional da escola tradicional serviu para estigmatizar essa matéria de ensino como chata, enfadonha, para alguns, e ainda para outros, como fácil, afinal
basta apenas decorar. Qual a serventia dessa Geografia “decorativa”? Ao escrever um texto
sobre a Geografia que se ensina mantendo tais características, Sousa Neto (2003, p.63) define que
A Geografia é um desses negócios chatos que inventaram para ser a palmatória intelectual das crianças. Não dá prazer nenhum brincar de ser recipiente de nomes difíceis e ainda ter que repetir tudo certinho na hora das provas.
A tortura geográfica, comum na maioria das escolas, é um exercício constante de ver um mundo de coisas, decorar o máximo e não aprender nada. São aquelas palavras cheias de nós consonantais que, vez por outra, o sujeito tem que repetir lá na frente, correndo o risco de se engasgar com uma montanha e ser motivo de deboche a semana inteira.
Toda a história da Geografia escolar é caracterizada como aquela matéria menos importante na estrutura curricular; uma matéria que é trabalhada sempre do mesmo modo. A desconstituição dessa ideia é uma tarefa árdua para os professores geógrafos. No dia a dia, esses professores lidam com alunos, entre outros profissionais da escola, com uma concepção cristalizada sobre a Geografia, como se não houvesse outra possibilidade. Nesta perspectiva, Sousa Neto traduz essa ideia de aula, dizendo que
[...] para muitos, é a imagem da morte. Aquele lugar fúnebre onde toda a vida deixou de existir, onde apenas foram paralisados os movimentos em torno dos objetos imobilizados pela desesperança, onde o professor foi completamente esvaziado de sua autoestima e agarra-se ao livro por detrás de sua mesa infestada de cupins, como o náufrago que jamais se salvará do afogamento e espera conformado a visita de Hades – o deus da morte. (p.18,19).
Como desconstituir essa concepção de aula e de Geografia? Como a escola poderá proporcionar o desenvolvimento de um ensino mais eficaz? Afinal, o que é uma aula?
Libâneo nos explica que a aula é a forma predominante de organização do ensino. Esse autor define a aula como
O conjunto dos meios e condições pelos quais o professor dirige e estimula o processo de ensino em função da atividade própria do aluno no processo da aprendizagem escolar, ou seja, a assimilação consciente e ativa dos conteúdos. Em outras palavras, o processo de ensino, através das aulas, possibilita o encontro entre os alunos e a matéria de ensino, preparada didaticamente no plano de ensino e nos planos de aula. (1994, p.177, 178).
Compreendemos que o desenvolvimento de uma aula necessita de meios pelos quais os professores e alunos possam atingir seus objetivos; evoca um ambiente, um espaço onde recursos humanos e materiais se entrelaçam adequadamente para determinados fins que são o ensino e a aprendizagem. Sousa Neto nos lembra que
A escola, que é nossa oficina de trabalho por excelência, foi o lugar por onde passou a totalidade dos profissionais de curso superior nesse país e no resto do mundo durante pelo menos o último século. Os professores e professoras que atuaram nessa oficina quase completamente fordista, que foi a escola do século XX, formaram médicos, psicanalistas, padres, advogados, biólogos, historiadores. [...]
[...]
Pensando por esse viés pode-se dizer que os profissionais da educação, nomeadamente os professores e professoras, por intermédio da sala de aula, tiveram e têm grande responsabilidade sobre os destinos que a sociedade tomou e toma. (2005, p.256).
Ademais, podemos entender que a sala de aula é o espaço onde os professores direcionam o destino de uma grande parcela da população. Mais do que ensinar a ler, escrever e calcular, os professores, agindo como intelectuais transformadores, devem atentar
[...] seriamente para a necessidade de dar aos alunos voz ativa em suas experiências de aprendizagem; significa desenvolver um vernáculo crítico que seja adequado aos problemas experienciados ao nível da vida diária, especialmente quando estes são relacionados com experiências pedagógicas desenvolvidas por práticas de sala de aula. (GIROUX, 1988, p.33).
Em sala de aula, esses intelectuais, motivam as crianças e os jovens e plantam em seus corações sementes de esperança. Para tanto, é necessário que a escola atente para os elementos importantes da estrutura organizacional capazes de motivar a aprendizagem dos
alunos. Dentre estes, “disponibilidade de condições físicas e materiais, de recursos didáticos, de biblioteca e outros, que propiciem aos alunos oportunidades concretas para aprender”.
Vale lembrar que entendemos
[...] como sala de aula todo espaço onde a aprendizagem ocorre, ou seja, todos os ambientes de aprendizagem, como, por exemplo, a quadra poliesportiva, a biblioteca, o Laboratório de Informática Educativa, a horta, o pátio escolar, entre outros espaços. Além destes, igualmente importantes são os lócus de atividades livres, o recreio, a merenda, pois constituem oportunidades pedagógicas que não podem ser desperdiçadas. Todos eles se configuram como lócus para o desenvolvimento curricular, inclusive os espaços do entorno da escola e da cidade. Tais orientações devem estar contidas no projeto político-pedagógico de cada escola. (DIAS e TEIXEIRA, 2011, p.42).
Portanto, nossa observação está ancorada numa concepção muito mais ampla do que seria uma sala de aula entre quatro paredes e, compreendendo dessa maneira, interpretamos no espaço da Escola investigada que existe uma tentativa de ultrapassar os próprios muros. As formas de resistência iniciam quando os espaços como quadra esportiva, pátios, corredores, Centro de Multimeios (Biblioteca e Laboratório de Informática) vão se configurando numa sala de aula com origem nas propostas pedagógicas dos professores. Espaços como as ruas, praças e museus existentes no bairro também se configuram em espaços da aprendizagem.
Em virtude de não termos vivenciado a Escola durante os anos anteriores, ficando restrito ao ano de 2013, não podemos acompanhar, nem presenciar toda a sua rotina, ficando assim comprometido o registro de algumas atividades escolares. Na análise realizada na página disponível da Escola na internet, porém, constatamos o movimento dos educadores pela cidade transformando outros espaços, em locus de aprendizagem, como, por exemplo, no Museu de Artes da UFC (MAUC), no Theatro José de Alencar, no Teatro Sesc Emiliano Queiroz, aula de campo na Universidade de Fortaleza (UNIFOR), na Reserva Ecológica do Serviço Social do Comércio (SESC), em Iparana, localizada no Município de Caucaia, CE. Tudo isso demonstra a capacidade de os professores vencerem as limitações das condições de trabalho, proporcionando um ensino comprometido com a formação cidadã dos alunos.
As tensões que marcam a docência são recorrentes ao ambiente de trabalho, considerado sempre hostil, laborioso, exigindo um investimento considerável de determinação e esforço. Na verdade, é um trabalho movido por uma consciência crítica e uma Pedagogia da possibilidade, uma responsabilidade social que não os faz desistir, antes se entregam à labuta diária, tentando fazer do chão da escola um espaço de transformação.
Quando procuramos analisar a prática do docente de Geografia, pensamos sobre a sua postura diante de uma multidão de atribuições reveladas nas diretrizes, nos parâmetros curriculares e nos textos acadêmicos. Esses professores não são indiferentes ao modo
alternativo de se trabalhar a Geografia! A realidade denota, contudo, situações difíceis que comprometem o desempenho da docência.
O diagnóstico que fazemos do espaço da Escola é de escassez. São lugares reduzidos que tendem a limitar e até bloquear as ações das pessoas que ali se encontram. Embora o ambiente escolar expresse um aspecto de limpeza, zelo e organização, são locus pequenos, apertados e não respondem às demandas do currículo e da sociedade tecnológica e informacional, que prima pela ação e não mais pela passividade, como ocorre no currículo tradicional. Se considerarmos que a aprendizagem transpõe a sala de aula convencional, essa carência de espaço interno prejudica o ensino e a aprendizagem. No contexto da sociedade tecnológica e informacional, a sala de aula desempenha outro papel, pois passa “a ser um local de processamento e produção de conhecimento e não apenas um local de transmissão e
avaliação do conhecimento”. (ALARCÃO, 2011, p.31).
Em suas lições, Kenski exprime especial atenção ao ambiente escolar:
A disposição e uso dos móveis e equipamentos nas salas e laboratórios definem a ação pedagógica. A imagem apresentada pelas bibliotecas e salas ambientes, espaços e quadras de esportes, pátios, jardins e centros de convivência comunicam visualmente a filosofia de trabalho da escola. O espaço é uma das linguagens mais poderosas para dizer do que fazer da escola. (2000, p.124).
Em concordância, exprimimos que o espaço é uma linguagem poderosa para condicionar as ações dos escolares! Este vai cadenciando as ações e definindo se utilizaremos as diversas linguagens no ensino de Geografia, se realizaremos atividades em grandes grupos, se elaboraremos projetos interdisciplinares, enfim, se poderemos investir nas intervenções.
O sistema de ensino brasileiro parece alheio a tudo isso, pois não compreende o quão é complexa a atividade docente, e isso é no mínimo paradoxal, porque, ao mesmo tempo em que exige dos professores novas atitudes, pois reconhece as exigências do mundo contemporâneo, limita as suas ações quando subtrai destes as condições materiais adequadas para a sua efetivação!
Esses fenômenos são reconhecidos pelos professores que vivem a escola por dentro e sentem no dia a dia o peso da responsabilidade social com a árdua tarefa de educar as crianças e os jovens, tarefa intensificada, é claro, pela precariedade das escolas. No chão da escola pública os professores resistem ante essa realidade de escassez e realiza um verdadeiro malabarismo profissional para efetuar o seu trabalho de maneira eficaz, graças aos saberes da experiência, determinação e resistência. Segundo Tardif (2012, p. 38), “[...] professores, no exercício de suas funções e na prática de sua profissão, desenvolvem saberes específicos,
baseados em seu trabalho cotidiano e no conhecimento de seu meio. Esses saberes brotam da experiência e são por ela validados”. Estes saberes adquiridos na experiência é que orientam os professores na prática do cotidiano, que ajudam a definir e estabelecer estratégias de ensino e aprendizagem, considerando-se o meio para desenvolvê-las.
Os professores intelectuais transformadores são aqueles que no dia a dia do chão da escola resistem às imposições do sistema capitalista, que travam uma luta ante os limites estruturais das escolas e estão dispostos a ajudar os alunos a desenvolver um senso de justiça, tendo a convicção de que com suporte no conhecimento se adquire a capacidade para lidar com as adversidades da vida, capacidade para mudar a si mesmo e o mundo. Isso significa dizer, segundo Giroux (1988, p. 33, 34), que esses professores trabalham no sentido de criar as condições materiais e ideológicas na escola e na sociedade para oferecer oportunidade de os alunos se tornarem agentes cívicos. O autor explica que os cidadãos devem atuar como se estivessem numa autêntica democracia, fazendo desaparecer o desespero e que a esperança seja exequível. Na realidade, os professores intelectuais transformadores falam de uma linguagem crítica, que, unida a uma linguagem da possibilidade, indicam as condições necessárias para novas formas de cultura, para práticas sociais alternativas, para novos modos de comunicação e para uma visão realizável do futuro.
Ao ponderar o conceito de professores intelectuais transformadores na nossa investigação, desembaraçamos uma questão bastante comum na sociedade: a de achar que os professores da Educação Básica estão alheios às posições ideológicas e materiais que sustentam a escola e, em geral, a sociedade. Pelo contrário, estes profissionais vivem a escola por dentro, e por si mesmos, expressam as condições teóricas e práticas para realizar uma análise consistente de nossa Educação. Estes profissionais é que, no exercício da docência, refletem sobre ela e agem com base na reflexão, o que lhes oferece autonomia para reelaborar a sua prática. Não são como muitos classificam de profissionais acomodados ou “intelectuais adaptados”, técnicos ou burocratas da Educação, embora sejam tratados como tais. Na explicação de Giroux,
[...] os intelectuais adaptados são aqueles que adotam uma posição ideológica e um conjunto de práticas materiais que sustentam a sociedade dominante e os grupos de elite. Tais intelectuais não estão, geralmente, conscientes desse processo, uma vez que não se definem como agentes do status quo, embora sua postura política promova os interesses das classes dominantes. (1988, p.37, grifo do autor).
Esses profissionais técnicos atuam como reprodutores da sociedade dividida em classes sociais antagônicas com suas práticas escolares amparadas pela inércia e negligência,
quando ficam isentos de uma postura crítica. Os intelectuais transformadores, pelo contrário, desenvolvem um discurso crítico unido a uma linguagem da possibilidade e estão conscientes de seu papel político na escolarização.
Para finalizar a nossa análise, trazemos a seguir a conclusão a que chegamos com esta pesquisa.