3 Stedsanalyse – Ski før og nå
3.5 Ski sentrum: 1916-1960: Ski-byen: Stasjonsby, industri- og handelssenter
A finalização deste trabalho, um ensaio histórico, etnográfico e teórico, pode ser vista mais como outro nó no universo do entrelaçamento, do que um fechamento fatal de uma visão dentre várias.
Historicidade para o início do nó
O primeiro ponto de entrelaçamento da conclusão é a necessidade da historicidade dentro deste estudo.
Como foi bem demonstrado no último capítulo desta dissertação, um ato original está intimamente relacionado com suas atuações futuras. Sejam mitos de criação de um tempo fora da história secular humana, sejam momentos rememorados de uma linha genealógica anterior, que volta ressignificada.
A história da comunidade açoriana em São Paulo é e está sempre ligada a origem do arquipélago. A razão da existência da imigração, a vinda para São Paulo nas décadas de 50 e 60, o estabelecimento na Vila Carrão, tudo isto se desenvolve numa interação entre as linhas que significam e os momentos que recriam a semelhança, fazendo com que seja possível recorrer a uma bagagem açoriana, mesmo estando tão distante no tempo e no espaço. Uma colocação de Benedict Anderson é interessante para ligarmos a historicidade de uma nação, ou de uma imaginação desta, num entre-lugares e a memória restaurada pela performance e pela reinvenção:
Todas as mudanças profundas na consciência, pela sua própria natureza, trazem consigo amnésias típicas. Desses esquecimentos, em circunstâncias históricas especificas, nascem as narrativas. Depois de passar por transformações emocionais e fisiológicas da puberdade, é impossível “lembrar” a consciência da infância. Quantos milhares de dias transcorridos entre a primeira infância e o começo da idade adulta desaparecem para além de qualquer evocação direta! Como é estranho precisar da ajuda de alguém para saber que aquele bebê nu na fotografia amarelada, esparramado todo feliz no tapete ou na caminha, é você! A fotografia, belo fruto da era da reprodução mecânica, é apenas o mais definitivo exemplar dentre um enorme acúmulo moderno de evidências documentais (certidões de nascimento, diários, fichas de anotações, cartas, registros médicos e similares) que registra uma certa continuidade aparente e, ao mesmo
tempo, enfatiza a sua perda na memória. Desse estranhamento deriva um conceito de pessoa, de “identidade” (sim, você e aquele bebezinho são idênticos), a qual, por não poder sem “lembrada”, precisa ser narrada. Contra a demonstração biológica de que cada célula do corpo humano é substituída em sete anos, as narrativas biográficas e autobiográficas inundam os mercados do capitalismo editorial ano após ano. (Anderson, 1991, p. 278)
A reinvenção da memória é a própria narração desta história, sendo reinventada a cada momento.
Inventando para dar a primeira volta
O segundo nó deste entrelaçamento final é a questão de que não se pode perder cultura, identidade e significância. Estas estão sempre sendo inventadas novamente por razão do ambiente, de interesses, de facilidade, de gosto ou pela própria tentativa de manter as coisas intactas, como se num exposição.
Esta invenção é razão e método de sua contra-invenção. Mencionamos os termos invenção e convenção, sendo que um opera no sentido de rebater, reverter e se reinserir no outro. A contra-invenção é a invenção no sentido inverso, uma perpetuação do conflito criativo do universo em movimento. A contra-invenção é combustível e combustão da invenção.
Essa constante invenção constitui o que entendemos por cultura. As linhas de significância carregam esta carga dentro delas. Toda a criação humana está contido na continuidade de uma invenção humana. Entretanto, algo se inventa se seus caracteres existem para que haja a permanência da realidade vivida.
“O homem é o xamã de seus significados” (Wagner, 2010, p. 72), diz Roy Wagner, dizendo que a magia da significância existe num gradiente funcional; pertence às reinvenções colocarem esses significantes em posição de conversarem entre si e com a superfície em que se encontram. A própria religião e a religiosidade emanada das materialidades podem ser percebidas desta forma:
Ainda que possamos analisar o pai-nosso como um dispositivo para ciar uma experiência do divino, o crente precisa aceitá-lo como um guia útil para as tendências inatas de sua alma. (Wagner, 2010, p. 147).
O ser humano é o xamã deus significados, como o é de suas crenças e das materialidades provenientes destas.
Amarrando linhas em momentos
Como terceiro ponto, as linhas e os momentos devem ter uma conclusão para eles próprios. A carga cultural carregada pelas linhas de significância constroem o entrelaçamento; os pontos de encontro destas linhas, que se encontram pois suas bagagens possuem carga e essas cargas criam uma força gravitacional que traz para perto o semelhante, são os momentos de semelhança.
Fala-se de linhas genealógicas, de linhas de força elétrica; Deleuze e Guatarri discorrem sobre as linhas de fuga num multiverso de platôs. As linhas podem ser vistas em todos os lugares. Por outro lado, as linhas de que falo são menos desenhos numa página em branco e mais uma consistência da memória re-atuada a partir de significâncias puxadas e arrastadas pela superfície.
“O conhecimento que temos do nosso envolto é feito no próprio curso de nós nos movendo através dele” (Ingold, Lines, 2007, p. 88). As linhas não são maquinações de uma exterioridade factual, supra-humana, que gerencia o mapa no qual devemos apenas seguir os contornos. Somos nós mesmos os cartógrafos deste mapa. Mas não um mapa politico, com fronteiras e pontos que indicam cidades e capitais; são aqueles chamados de “mapas rápidos”, os que funcionam enquanto nos movemos. “Desenhar uma linha num mapa rápido é como contar uma estória”, e também “não há um ponto onde a estória acaba e a vida começa” (idem, p. 90).
Os lugares e os momentos não são os pontos num mapa, mas o emaranhamento instantâneo das linhas. As linhas que saem para caminhar habitam a superfície, enquanto as
que conectam apenas são capazes de marcar território. Habitar é “participar de dentro no
processo de trazer o mundo à tona, e contribuir com sua forma e textura” (Ingold, 2007, p. 81).
A permanência do laço religioso
Assim, a religião, como processo cultural da permanência e refinamento da humanidade, é também vítima, ou cúmplice, da ressignificação e da reinvenção.
O tempo hierofânico é tanto tempo cíclico, quanto tempo fixo. Segundo Eliade “pode designar o tempo no qual se coloca a celebração de um ritual e que é, por isso, um ‘tempo sagrado’, quer dizer, um tempo essencialmente diferente da duração profana que o
antecede” (Eliade, 2002: 314). O tempo sagrado é, assim, essencialmente diferente e diferencializante, no sentido que se insere num ciclo fora do tempo profano, compartilhado apenas por indivíduos que são perpassados pelas linhas de significância pesadas para a noção de semelhança.
O tempo sagrado da Festa do Espírito Santo é a hierofania necessária que remete a
produção material atual a um tempo mítico, a uma tradição, do “mesmo jeito que se fazia
nos Açores”. A permanência da tradição, a tentativa da proteção, a ressignificação simbólica dentro da permanência da memória, o desejo de voltar a ser o português do Quatrocentos, os mitos do Monsieur Queimado, tudo confere significância às linhas que perpassam as materialidades do sagrado.
A reprodução das Festas é uma hierofania da permanência, quando se encontra na comunidade açoriana em São Paulo. O tempo mítico, aquele que retorna trazendo para o secular o eterno recomeço, também traz consigo a memória de um tempo passado, mas que não pode ser tocado.
Na religião como na magia a periodicidade significa sobretudo a utilização indefinida de um tempo mítico ‘tornado presente’. Todos os rituais têm a propriedade de se passarem ‘agora, neste instante’. O tempo que viu o acontecimento comemorado ou repetido pelo ritual em questão é ‘tornado presente’, ‘re-presentado’, se assim se pode dizer, tão recuado no tempo quanto se possa imaginar. A paixão de Cristo, a sua morte e a sua ressureição não são simplesmente comemoradas no decurso dos ofícios da Semana Santa: elas sucedem verdadeiramente ‘então’ sob os olhos dos fiéis. E um verdadeiro cristão deve sentir-se ‘contemporâneo’ desses acontecimentos ‘trans-históricos’, visto que, ao repetir-se, o tempo teofânico se lhe torna presente. (Eliade, 2002, p. 317).
Todo cristão se torna contemporâneo da paixão de Cristo, de modo que todo açoriano se sente presente quando se fazia a Festa nos Açores. A permanência da memória no tempo hierofânico mítico da performance religiosa permite que a cada renovação do sentimento religioso, também se renove a condição do ser açoriano imigrante na cidade de São Paulo. A memória permanece significante dentro do tempo sagrado, protegido do secular, mas propicio às ressignificações simbólicas pertinentes.
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