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Como mencionamos anteriormente, grupos de pesquisa em Parapsicologia no Brasil estavam normalmente associados a uma ou outra doutrina religiosa. Em meio a este contexto conflituoso um grupo de pesquisadores se destacava por acreditar na autonomia da Parapsicologia enquanto campo de investigação científica. Entre eles encontrava-se Wellington Zangari.

Zangari era estudioso da hipnose e, por indicação do pároco responsável pela paróquia que frequentava, chegou ao Padre Quevedo e ao CLAP, onde começou seus estudos em Parapsicologia (Machado, 1993). Zangari frequentou assiduamente o CLAP por alguns anos, afastando-se em 1983 por divergências ideológicas. Ele e alguns outros pesquisadores acreditavam que a Parapsicologia poderia ser algo autônomo, separado do objetivo religioso. Em 1984 fundam o ECLIPSY, então denominado Grupo Científico de Pesquisas em Parapsicologia.

Em um artigo de 1993 da Revista Brasileira de Parapsicologia, revista publicada pelo ECLIPSY, Fátima Machado nos relata um pouco das atividades desenvolvidas pelo grupo durante seus primeiros anos. Conta-nos que o ECLIPSY organizou reuniões sistemáticas de estudo e cursos de divulgação. Que por alguns anos realizou estudos Ganzfeld e outros testes de ESP e PK, e que manteve uma crescente biblioteca. Em 1990 o ECLIPSY deixou de ser um grupo de pesquisa para tornar-se Instituto de Investigações Científicas em

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Parapsicologia, legalização alcançada essencialmente por seu trabalho já ser muito semelhante àquele desenvolvido fora do país.

Em 1991 o ECLIPSY teve dois de seus membros aceitos como Associate

Members da PA, sendo o primeiro grupo brasileiro a ter em seu quadro

pesquisadores aceitos como membros da associação. Essa aproximação com os pesquisadores da PA fortaleceu o vínculo entre as instituições, propiciando suporte e orientação aos trabalhos realizados no Brasil.

Em 1993 foi estabelecido um convênio com uma instituição de ensino superior, a Faculdade Anhembi Morumbi, instituição paulistana privada. O convênio se manteria até 1999. Durante sua estada nesta instituição, o ECLIPSY passou a se chamar Inter Psi- Instituto de Pesquisas Interdisciplinares das Áreas Fronteiriças da Psicologia27.

Naquele ano o Inter Psi deixou a Faculdade Anhembi Morumbi e tornou-se

um grupo doCentro de Estudos Peirceanos (hoje Centro Internacional de Estudos

Peirceanos) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, instituição também privada e de grande renome na cidade de São Paulo. Essa filiação deveu-se ao fato de Fatima Regina Machado ser Diretora Executiva do Centro, doutoranda do programa de pós-graduação em Comunicação e Semiótica com tese sobre

Poltergeists, e tornar-se posteriormente professora naquela universidade. Ao

integrar o Centro de Estudos Peirceanos o Inter Psi passou a ser denominado Grupo de Estudos de Semiótica, Interconectividade e Consciência. Ali permaneceria por mais nove anos.

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Atualmente, este não é o único grupo a desenvolver trabalhos acadêmicos no país. Há outros grupos que vêm trabalhando há alguns anos, especialmente nas cidades Juiz de Fora (MG) e Curitiba (PR), e que ganharam certa representatividade, ainda que o último apresente uma clara motivação espírita. Destes, o de maior destaque pela seriedade dos estudos desenvolvidos e pela imparcialidade de suas publicações é o da Universidade Federal de Juiz de Fora, sob orientação do Prof. Dr. Alexander Moreira Almeida.

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Em 2008, Wellington Zangari é aprovado como professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, assumindo a cadeira de Psicologia Social da Religião no departamento de Psicologia Social e do Trabalho. Dois anos depois, após a aprovação de todos os comitês e instâncias competentes, foi estabelecido no instituto um laboratório que passou a se chamar Inter Psi- Laboratório de Psicologia Anomalística e Processos Psicossociais. Além do laboratório, disciplinas optativas em Psicologia Anomalística passaram a ser oferecidas no instituto, primeiramente aos alunos de pós-graduação, e depois de gradução.

A escolha pela mudança de nome e a troca do termo parapsicologia por psicologia anomalística é justificada em apresentação feita por Zangari durante a convenção anual da PA de 2011 realizada na cidade de Curitiba, Paraná.28 Zangari nos relata que a escolha teve quatro razões principais: 1) pelos motivos históricos já apresentados, que nos levam a compreender a conotação negativa e normalmente associada a grupos religiosos que o termo parapsicologia assumiu no Brasil; 2) por acreditar que o campo se ocupa de estudar e compreender experiências essencialmente humanas e, portanto, objeto de estudo da própria Psicologia, e não da algo à margem desta, como a etimologia do termo ‘parapsicologia’ propõe; 3) por desejar que esta se torne uma área acadêmica mais integrada, englobando todas aquelas que hoje se ocupam das experiências anômalas, como a Parapsicologia, a Psicologia da Religião, e a própria Psicologia

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Esta convenção foi de extrema importância para a Parapsicologia no Brasil, por ser a primeira a acontecer fora do eixo EUA-Europa, como fazia anualmente a associação desde sua fundação em 1957. Longe de ser aleatória, a escolha da localidade foi motivada pelo Brasil representar "o maior contigente de membros fora dos Estados Unidos e Europa", segundo informação presente no website da PA.

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Anomalística; e 4) por julgar o termo tão “estranho” que nenhum charlatão se interessaria por adotá-lo como justificativa a suas práticas (Zangari, 2011).

Refletindo sobre os acontecimentos mais recentes no campo, Zangari afirma que:

Apesar das dificuldades mencionadas e da complexidade cultural em que vivemos, posso dizer que a Pesquisa Psi tem avançado no Brasil. Na convenção da PA de 1995, em Durham, Carolina do Norte, Machado e eu discutimos a situação da Parapsicologia em nosso país e argumentamos que aqui a Parapsicologia vivia sua adolescência. Em Nova York, em 2001, dissemos que a Parapsicologia em nosso país apresentava os primeiros sinais de maturidade. Hoje, 10 anos depois, eu diria que a Pesquisa Psi no Brasil começou sua fase de consolidação acadêmica e maturidade (Zangari, 2011, p. 3)29.

Assim como havia ocorrido no Reino Unido, alunos universitários concluíram seus programas de mestrado e doutorado e se dirigiram a outras universidades do país, onde também têm montado grupos de estudos e recebido novos alunos pesquisadores interessados no campo.

Atualmente, a Universidade de São Paulo conta com 10 pesquisas em andamento. Zangari salientou a importância desta universidade e destas pesquisas para o contexto acadêmico brasileiro, afirmando que “tudo o que acontece na USP em termos acadêmicos tem consequências diretas na produção científica brasileira e no treinamento de novos profissionais. E, de certa forma,

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“Despite the difficulties we mentioned and the cultural complexity in which we live, I can say that Psi Research is improving in Brazil. At the PA Convention in 1995, in Durham, North Carolina, Machado and I discussed the situation of Parapsychology in our country and we argued that, here Parapsychology was in its adolescent stage. In New York, 2001, we said that Parapsychology in our country presented its first signs of maturity.Today, 10 years later, I would say that Psi Research in Brasil began its academic consolidation and maturity.”

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também determina o que é considerado pertencente ou não do cenário acadêmico em nosso país” (Zangari, 2011, p.3)30.

Compreendemos agora as razões que levaram Nancy Zingrone a fazer a declaração presente na introdução deste capítulo, assim como suas implicações. Se o Brasil será testemunha de um novo “Efeito Morris” não nos é possível saber, mas reconhecemos que, assim como esta, há diversas outras pesquisas acadêmicas em andamento, e o interesse pela área tem crescido. Encerramos este capítulo no mesmo espírito com que Zingrone finalizou a disciplica oferecida em 2011, expresso por sua colocação: “No pressure, of course (Sem pressão alguma, é claro)”.

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“Everything that happens at USP in academic terms has direct consequences on the Brazilian scientific production and training of professionals. And it also, in a certain way, determines what is considered "in" or "out" in the scientific scenario in the country.”

73 CAPÍTULO 3