O primeiro conjunto noticioso a ser analisado foi publicado no jornal Folha de S.Paulo no dia sete de outubro de 2012. Numa breve contextualização, refere-se à campanha do então candidato à prefeitura da cidade de São Paulo, Fernando Haddad, que disputava o pleito pelo Partido dos Trabalhadores.
O conjunto noticioso foi publicado na página 12 do caderno Eleições, especificamente criado pelo referido jornal para a cobertura jornalística do pleito daquele ano. Abaixo, encontra-se a reprodução da página inteira na qual ele foi veiculado:
126 Com a manchete de “Haddad diz que é ‘fácil’ ganhar votos e que vai vencer a eleição”, o conjunto noticioso encontra-se ocupando a metade superior da página e três colunas verticais, sendo que duas destas são as centrais e uma à esquerda. Para além da manchete, ele é composto por uma grande fotografia cuja autoria é de Avener Prado, da Folha Press, conforme consta nos créditos no canto superior direito da mesma. Abaixo da fotografia encontra-se sua legenda, na qual está escrito que: “O candidato Fernando Haddad (PT) faz carreata pela zona sul no último dia de campanha”. Abaixo da manchete, há uma linha fina que informa que “Petista mira indecisos e pede empenho à militância do partido”.
O texto principal do conjunto noticioso possui uma assinatura indefinida: “De São Paulo”. Ao final do texto, entre parênteses e em negrito, encontra-se o nome de Luiza Bandeira. Entretanto, como já apontado nos capítulos precedentes, as menções feitas aos autores dos textos e fotografias restringem-se somente à descrição do conjunto analisado, uma vez que, como abordagem teórico-metodológica, o conjunto noticioso é compreendido como sendo um só enunciado concreto, cujo enunciador é o superenunciador jornal, ou seja, a instância de enunciação complexa constituída por diversos agentes enunciativos. Estes diversos agentes enunciativos podem ter sua participação explicitada, como neste caso (o nome do fotógrafo e da jornalista ao final do texto principal), ou não, como o nome dos redatores, editores, diagramadores, revisores, diretores de arte etc.
Abaixo, encontra-se a transcrição do texto principal do conjunto noticioso, respeitando as divisões de parágrafos e grifos originais:
No último dia de campanha, o candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, tentou encorajar a militância do partido e disse que era fácil ganhar votos.
“Posso dizer para o nosso militante: é fácil ganhar votos, muito fácil. Porque nós temos as melhores propostas. Então aborda [o eleitor indeciso] com carinho que você traz o voto para nossa chapa”, disse, durante visita a uma feira na zona leste.
Haddad afirmou pela manhã que mirava os indecisos e chegaria ao segundo turno. Após divulgação da pesquisa Datafolha em que apareceu na situação de empate técnico com os adversários José Serra (PSDB) e Celso Russomano (PRB), ele afirmou que irá ganhar as eleições.
O petista criticou Serra ao ser questionado sobre um panfleto do PSDB que liga PT ao mensalão.
“O estilo de campanha tem a ver com a personalidade dele [Serra], a maneira de ele ver a política. Ele trata como inimigo os adversários”, disse.
Ele também criticou promessas de Russomano.
O candidato se surpreendeu com a ausência do ex-presidente Lula na penúltima agenda de sua campanha, uma visita às obras do Itaquerão. A Folha antecipou ontem que Lula não iria ao compromisso.
Ele ainda encerrou abruptamente seu último compromisso, uma carreata na zona sul, e não falou com eleitores ao final. (LUIZA BANDEIRA)
127 Na sequência, está reproduzido o conjunto noticioso em detalhe:
Na fotografia, o candidato Fernando Haddad ocupa a posição central do primeiro plano, estando em cima de um carro ladeado por colaboradores. A legenda informa se tratar de uma carreata, seu último compromisso de campanha durante aquele primeiro turno das
128 eleições municipais de 2012. Com os braços erguidos na altura dos ombros, orienta-se para a direita da fotografia apontando para algo que foge do enquadramento. Os indicadores e os polegares de ambas as mãos estão estendidos, enquanto que os outros dedos estão retraídos. O gesto das mãos do candidato Fernando Haddad simula uma arma apontada.
No plano visual que corresponde à fotografia, o candidato Fernando Haddad aparece em cima de um carro participando de uma carreata na zona sul da cidade de São Paulo, cumprimentando eleitores e buscando apoio. O gesto flagrado na fotografia escolhida para compor o enunciado concreto apresentado no jornal é aquele no qual aparece com as mãos simulando um revólver, apontando em determinada direção, possivelmente cumprimentando alguém que acompanhava sua carreata.
No plano verbal, tanto na linha fina do conjunto noticioso quanto no terceiro parágrafo do texto principal encontramos o verbo mirar, no contexto de explicitar a estratégia do candidato de focar seus esforços no convencimento dos eleitores indecisos e angariar seus votos para assim conseguir chegar ao segundo turno daquelas eleições.
Dessa forma, estabelecida a relação direta entre elementos verbais e visuais, é possível construir o esquema abaixo:
plano verbal plano visual
verbo mirar gesto mirar
ter como objetivo a conquista voto dos indecisos, buscar apoio dos eleitores indecisos.
cumprimentar colaboradores, indicar, acenar, demonstrar percepção da presença de alguém etc.
Nesta relação direta entre elemento verbal e o visual se opera o desdobramento metaenunciativo opacificante. Um mesmo elemento aparece nos dois sistemas de significação distintos, o verbal e o visual, e é essa presença que instaura o desdobramento metaenunciativo, um comentário sobre o dito neste enunciado concreto. O sentido do gesto mirar é opacificado pelo discurso do qual o elemento verbal mirar é parte. Dentre os diversos significados que o gesto do candidato pode assumir na fotografia, um é ressaltado por meio desse desdobramento: o de mirar eleitores indecisos.
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plano verbal plano visual
verbo mirar gesto mirar
ter como objetivo a conquista voto dos indecisos, buscar apoio dos eleitores indecisos.
cumprimentar colaboradores, indicar, acenar, demonstrar percepção da presença de alguém etc.
plano verbo-visual
o gesto do candidato de cumprimentar, indicar, acenar flagrado na fotografia reflete a estratégia adotada de ter como objetivo a conquista do voto dos indecisos.
Como sustenta esta tese, é a partir desse desdobramento ocorrido pela relação direta entre elementos visuais e verbais que temos a opacificação. O gesto do candidato Haddad, nesse enunciado concreto, é comentado: é como se ele estivesse aspeado: deixa de significar um cumprimento ou um aceno, mas passa a significar sua estratégia política. Para utilizarmos as categorias de não-coincidências estabelecidas por Authier-Revuz, há aqui uma não- coincidência do elemento visual consigo mesmo (ao invés da palavra consigo mesma).
Por fim, é importante frisar que esse fenômeno só ocorre no plano verbo-visual do enunciado concreto analisado. Caso a fotografia fosse publicada isoladamente, como um só enunciado concreto, a opacificação do gesto do candidato não ocorreria. Mesmo se estivesse acompanha somente de sua legenda, “O candidato Fernando Haddad (PT) faz carreata pela zona sul no último dia de campanha” o efeito tampouco seria produzido. É por isso que o gesto do candidato nesse enunciado concreto pode ser compreendido como estando verbo- visualmente aspeado.
É este motivo pelo qual no subtítulo deste capítulo que apresenta a análise foram propositalmente utilizadas aspas: “A ‘mira’ de Fernando Haddad”, porque explicita a analogia que quer ser estabelecida nesse trabalho: o que significa o gesto do candidato de mirar registrado na fotografia? Ou, utilizando-se de uma modalização autonímica para descrever, pode-se dizer: o candidato mira em transeuntes, no sentido de buscar apoio dos indecisos, durante carreata na zona sul da cidade. O itálico na frase precedente é uma modalização autonímica, que comenta o próprio enunciado orientando o entendimento do verbo mirar (X, no sentidode X’).
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