5. Hvordan forsørger personer med flyktningbakgrunn med lav utdanning, ingen
5.3. Skattefrie overføringer viktigst for de som hverken er sysselsatt eller under
Por meio do consumo em série de um mesmo tipo de objeto ou do culto a determinada personalidade, fãs e colecionadores buscam garantias fundamentalmente assentadas no passado. Apenas neste tempo, e não no presente ou no futuro, haveria a segurança de se viver em universos que não poderiam ser alterados pelo passar dos anos ou, ainda, por força do hermetismo inerente a essas práticas, entrar em conflito com outras instâncias. Tal propósito de salvar o passado não impediria, contudo e paradoxalmente, que as ações de fãs e colecionadores fossem igualmente capazes de recriar uma outra ordem de coisas no lugar antes ocupado pela “tradição”. Isso porque a parte do passado salva pelo colecionador se transforma, sob sua ação, em algo muito diferente daquilo que foi um dia. Mesmo que seu propósito seja o de tudo preservar desse tempo inicial, o resultado será sempre e melancolicamente o de ter em suas mãos apenas uma parte daquilo que, plena e integralmente, existiu apenas e precisamente nesse passado. Se esta seria sua intenção - a de salvar o passado –, sua conseqüência seria a de transformar esse mesmo passado em algo destituído de seu ordenamento. Citando o próprio Benjamin, Hannah Arendt observa o espaço que o passado ocupa na atividade do colecionador:
Como um revolucionário, o colecionador “sonha com o seu caminho não só para um mundo remoto ou passado, mas ao mesmo tempo para um mundo melhor onde certamente as pessoas estão providas do que precisam como no mundo cotidiano, mas onde as coisas estão liberadas do trabalho humilhante da utilidade.”196
É provável que, ao pensar sobre o assunto, Benjamin tivesse como parâmetro coleções de livros e suas variações, tanto mais adequadas talvez para pensar o ato de colecionar como algo capaz de alterar o sentido de uma ordem natural das coisas. Ao que tudo indica contudo, o mesmo acontece entre as outras infinitas formas de colecionismo ou também entre fãs. No caso do fã de um grupo de rock, tal alteração de ordem ocorre diretamente na medida em que há, por parte da indústria fonográfica,197 espaços bem
196 BENJAMIN citado por ARENDT, op. cit., p. 169.
197 Ao contrário daquilo que ocorre entre colecionadores, a escolha de um artista
como inspiração para um fã-clube encontra-se, na maioria das vezes, diretamente ligado ao espaço que o primeiro ocupa na indústria cultural. Ainda que objetos obscuros (“coisas que não servem para nada”, como diria Walter Benjamin) possam
determinados para divulgação e consumo do tipo de música que o grupo faz: qual o seu público, em que emissoras de rádio tocarão suas músicas, quanto tempo permanecerá entre os mais vendidos, etc. O ponto de vista do fã se desvia dessa estratégia comercial, na medida em que buscará outros sentidos para aquele tipo de música e artista.
Sob a perspectiva de um dos entrevistados, dono à época do domínio www.roxette.com.br, haveria uma nítida diferença entre a música da dupla e os interesses dos produtores, gravadora ou emissoras de rádio. Ainda que reconheça que o auge da dupla tenha ocorrido por volta dos anos oitenta, o entrevistado aponta o fato da maioria das pessoas considerar a dupla extinta, quando, na verdade e desde então, várias fases se sucederam, com o grupo se mantendo em atividade até hoje. Como é comum acontecer entre fãs ou colecionadores, o crescimento de seu interesse pelo grupo (seguido do intercâmbio que mantém com outros fãs) terminou produzindo interpretações particulares a respeito do mesmo, muito freqüentemente desvinculadas daquilo que a gravadora disponibiliza para o público em geral. Possivelmente por este motivo, e conforme foi observado anteriormente, não é comum esse tipo de fruição despertar grande atenção ou interesse por parte dos produtores, por maior que seja o interesse e dedicação demonstrados por um fã. Nesse e em outros casos, a reinvenção do tema em questão apresenta-se incompatível com a própria idéia de sua exploração comercial.
É muito significativo, nesse sentido, que o fã de um seriado como “Jornada nas Estrelas” tente distinguir seu gosto daquele associado ao grande público. Não apenas por uma questão de distinção, um trekker demonstrará as eventuais incoerências da série, o desenvolvimento e características de cada uma de suas muitas fases, as inúmeras discussões científicas suscitadas pelas especulações feitas em alguns episódios, etc. De modo que, do seu ponto de vista, o incrível da série tem a ver não necessariamente com seu sucesso comercial ou com aquilo que veio a figurar nos meios de comunicação de massa, mas sim, e a despeito de tudo isso, com um leitura particular do conjunto e de cada episódio.
facilmente inspirar o início de alguma coleção, dificilmente algum fã-clube será formado em torno de algum grupo ou indivíduo desconhecidos do grande público.
De forma idêntica, no caso de um colecionador de automóveis dos anos sessenta, a idéia de construir um outro sentido para o objeto é imediatamente percebida no fato de que os mesmos não possuem nenhuma finalidade de uso (principalmente se comparados aos fãs de um seriado, que afetivamente assistiram e eventualmente assistem cada um dos episódios) ou que podem estar ali na razão inversa de seu sucesso comercial. Nesse particular (como também em relação a outras coleções de automóveis) há uma oposição entre veículos que foram produzidos dentro de determinadas concepções mecânicas, estéticas, comerciais, etc e sua preservação numa coleção onde, não existindo mais nenhuma dessas condições, restaria a idéia de seu uso alternativo – preservação – no presente.
Assim, ainda que as ações de colecionadores e fãs impliquem em uma reinterpretação, e, nesse sentido, uma alteração da ordem na qual seus temas se encontravam inscritos, ainda que assim seja, seria arriscado afirmar como sendo sempre o passado o objeto dessa reconstrução. E, como conseqüência, atribuir um caráter necessariamente revolucionário a suas práticas. As próprias observações de Benjamin a esse respeito, mesmo apontando os vínculos entre as práticas de um colecionador e a modernidade – na medida em que o mesmo alteraria com sua percepção o sentido tradicional de uma ordem estabelecida – não permitem a conclusão de que o primeiro estendesse esse caráter revolucionário a, necessariamente, todo tipo de colecionismo e colecionador. Em outros termos, parece haver nessas práticas monotemáticas de consumo um paradoxal diálogo entre o passado e o presente: se por um lado há uma reconstrução, no presente, de algo que existiu fundamentalmente no passado, por outro, há também uma reconstrução do passado na medida em que sua interpretação não é feita numa totalidade, mas apenas em função da presença, lá, de um único objeto. Desse modo, um colecionador de forte apaches reinventará o uso dessas miniaturas no presente, por meio de diversas classificações, comparações históricas, estratégias dos fabricantes, etc. Ao mesmo tempo, a época na qual o brinquedo existiu (ou mesmo o tempo histórico – do “velho oeste” – ao qual o mesmo se refere), longe de ser o tempo e a ordem de muitas outras coisas, é o tempo de uma memória particular, construída em
torno de uma miniatura ou de um único e idealizado período da história americana.
Ainda que tanto o passado (o contexto) quanto o presente (o objeto) sejam assim reescritos por colecionadores e fãs, é em relação ao primeiro que invariavelmente se voltam seus maiores e melhores interesses.198 O porquê disso parece estar, naturalmente, relacionado à busca de uma garantia que só poderia ser fornecida pelo passado e relacionada a posse de uma coleção ou filiação a algum fã-clube. No primeiro caso, o passado se apresenta como o tempo mítico que poderia ser paralisado e ter suas melhores características fixadas por meio de diversos relatos. Se, em relação a outros acontecimentos históricos, o passado encontra-se longe de ser algo tão fixo (por meio da forma como sempre poderá ser reescrito e reinterpretado), dificilmente o será em sua relação com uma coleção ou algum fã-clube. No caso destes, uma vez definido o mito,199 o problema de sua autenticidade simples e sintomaticamente deixa de existir (posto ser essa a garantia de imutabilidade buscada pelo fã ou colecionador), restando apenas o prazer ligado à sua contínua atualização. A afirmação de um colecionador de filmes de faroeste é bastante esclarecedora ao observar a pouca relevância dos acontecimentos históricos em que o gênero se baseia, uma vez que o mais importante seria a “história do filme”.
Em larga medida o centro do elevado interesse e dedicação apresentados por colecionadores e fãs está relacionado ao fato de seus adeptos transferirem para um objeto ou ídolo uma sociabilidade que nesses espaços não encontraria grandes obstáculos para seu desenvolvimento. Num contexto – o das sociedades modernas – em que a ordem cotidiana é continuamente alterada e oferece graus muito pequenos de previsibilidade e estabilidade ao indivíduo, o desenvolvimento de uma coleção parece oferecer exatamente o
198 Se em alguns casos a presença do passado pode se apresentar como algo
evidente (jipes americanos fabricados no ano de 1951; Elvis Presley, etc.), em outros sua constituição é algo inevitável: mesmo colecionadores de ônibus ou fãs de seriados que ainda são produzidos e exibidos (por exemplo, “Arquivo X”) permanecem tendo como referência central os primeiros modelos, primeiros episódios, etc.
199 É interessante perceber como esta construção do mito entre colecionadores e fãs
parece não apresentar nenhum tipo de conflito relacionado às definições do objeto ou ídolo.
oposto disso: ao viver sua vida principal200 no tempo da coleção, o aficionado tem a garantia de um tempo e de circunstâncias que não se modificarão, garantindo-lhe uma estabilidade que a vida cotidiana não parece mais oferecer. Em “O medo à liberdade”, Erich Fromm observa exatamente este aspecto da vida nas sociedades modernas, nas quais
A vastidão das cidades em que o indivíduo se sente perdido, edifícios altos como montanhas, um constante bombardeio acústico pelo rádio, grandes títulos nos jornais que mudam três vezes por dia e não permitem a ninguém decidir por si o que é importante, espetáculos em que uma centena de moças demonstra sua habilidade com precisão de um mecanismo de relojoaria para eliminar a individualidade e agem como uma máquina poderosa embora suave, o rítmo incisivo da música moderna – estes e muitos outros pormenores são expressões de uma constelação em que o indivíduo se defronta com dimensões incontroláveis, ante as quais ele é uma partícula minúscula. Tudo o que lhe resta fazer é acertar o passo como um soldado em marcha numa esteira rolante. Ele pode fugir – seu sentimento de independência e significado, porém, desapareceu.201
Mesmo que essa concepção do mundo moderno pareça exagerar a idéia de controle sobre a ação dos indivíduos (como o fizeram alguns dos teóricos da Escola de Frankfurt, à qual Erich Fromm era ligado)202 seria talvez insuficiente considerá-la apenas por este aspecto. Uma das idéias centrais de “O medo à liberdade” é a da existência de uma diferença fundamental entre o mundo antigo e o moderno: se no primeiro caso o indivíduo nascia dentro de um contexto que lhe antecipava quase que inexoravelmente os caminhos dentro dos quais sua vida seria vivida, ao indivíduo moderno nenhuma garantia poderia ser dada em relação aos espaços sociais dentro dos quais suaexistência viria a se desenvolver:
A história da Europa e da América a partir do fim da Idade Média vem a ser a história do surto do indivíduo em sua plenitude. É uma marcha que se iniciou na
200 Bem ou mal sucedidos em seus negócios particulares, a principal identidade dos
entrevistados parecia estar vinculada à sua condição de fã ou colecionador.
201 FROMM, Erich. O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1970. p. 111.
202 É preciso lembrar que “O medo à liberdade” foi escrito em 1941; num período em
que a possibilidade de vitória do nazismo parecia algo próximo e real. Erich Fromm observa, contudo, que os riscos de controle sobre a vida dos indivíduos derivariam não apenas das experiências totalitárias, mas também no contexto das democracias capitalistas.
Itália, durante o Renascimento, e que só parece ter atingido agora o seu clímax. Foram necessários mais de quatrocentos anos para desagregar o mundo medieval e libertar as pessoas das peias mais aparentes. Porém, embora em muitos aspectos o indivíduo tenha crescido, tenha-se desenvolvido mental e emocionalmente, participando das realizações culturais de maneira jamais antes vista, cresceu também o hiato entre a “liberdade” e a “liberdade para”. O resultado desta desproporção entre a emancipação de qualquer vínculo e a falta de possibilidades para a realização positiva da liberdade e da individualidade conduziu, na Europa, a uma fuga apavorada da liberdade para o jugo de novos grilhões ou, no mínimo, para um indiferentismo social.203
Segundo Fromm, a liberdade conquistada pelo homem moderno torna-se um problema na medida em que a mesma perde, no capitalismo, qualquer possibilidade de significar uma auto-determinação do indivíduo. Entre os muitos riscos que acompanham esta liberdade encontra-se a aceitação de sistemas políticos que significariam a anulação desta mesma liberdade. Ou como variações daquilo que o autor chama de “mecanismos de fuga”, em relação às quais a indústria de consumo se apresenta grandemente vinculada.
Nesse sentido, o consumismo moderno e as práticas de colecionadores e fãs em particular parecem guardar incômodos vínculos com as observações de Erich Fromm. Entre estes, a “troca” do mundo da vida cotidiana moderna pelo mundo da coleção ou do ídolo equivaleria a uma troca entre um mundo inseguro, instável e conflituoso por outro seguro, estável e destituído de conflitos. Mesmo que os graus de dedicação a uma coleção ou culto de determinada personalidade possam variar muito e atingir níveis muito elevados, é caso de notar que, ainda assim, tais trocas parecem ser bastante compensadoras na avaliação de seus executores: em lugar da busca por muitas coisas, busca-se um único tipo de coisa (o que pode, efetivamente, simplificar enormemente a vida do indivíduo); essa única coisa buscada é também a mais desejada; o contato com outros entusiastas do tema é quase sempre algo bastante agradável, etc.