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A metáfora, conforme explicações dos pesquisadores George Lakoff e Mark Johnson (1999, 2002), de simples adereço do pensamento adquiriu importância vital para o funcionamento da mente humana. Sem a sua existência, não haveria o pensamento em si, pois as metáforas estabelecem conexões com o sistema perceptivo humano em relação ao corpo e ao mundo e dão sentido às experiências cognitivas no ser humano. Por trás da linguagem está escondido um imenso sistema conceitual metafórico que rege o pensamento e a ação.
Historicamente, no campo das ciências cognitivas, duas versões se vinculam a concepções diferenciadas da natureza filosófica. A primeira geração surgiu nos anos 1950 e 1960, caracterizando-se pelos fundamentos da computação simbólica que aceitavam a visão da razão descorporificada e literal. A filosofia Anglo-americana era o pano de fundo de certos paradigmas dominantes, tais como: a inteligência artificial, a psicologia do processamento da informação, a lógica formal, a lingüística gerativa e a antropologia cognitiva. Esta era uma perspectiva “funcionalista” vista metaforicamente como um tipo de programa de computador que poderia rodar em um hardware apropriado (Lakoff & Johnson, 1999:76). Assim, aqueles que assumem esta visão tendem a rejeitar a existência dos conceitos metafóricos ou a imposição da estrutura racional do corpo e do cérebro.
A primeira geração da ciência cognitiva estava baseada em um compromisso a priori para os conceitos, a mente era essencialmente descorporificada podendo ser estudada independente do conhecimento sobre o corpo e o cérebro, simplesmente pela relação funcional entre os conceitos representados simbolicamente.
A segunda geração surgiu da metade para o final da década de 1970, como pesquisa empírica que mesmo trazendo muitas questões de princípios Anglo-americanos, se desenvolveu em face de algumas evidências, ou seja, da dependência dos conceitos e razões ligadas ao corpo. O foco na conceitualização e a razão voltada aos processos imaginativos ocorreram em função da construção metafórica. A característica marcante nesta segunda geração ligada à mente corporificada considera que as estruturas dos conceitos ampliam-se pelas experiências sensório-motoras e pelos sistemas neurais. Existe um nível básico de conceito que se expande não apenas pelo esquema motor, mas também pela capacidade de percepção gestáltica e pela formação de imagens (op.cit: 77). A noção de “estrutura” no sistema de conceitos é construída pelo esquema motor e pelo esquema de imagens. Os conceitos abstratos (emoções, idéias, tempo etc.) se definem pelas múltiplas metáforas, freqüentemente inconscientes aos indivíduos. Para apreendê-las é necessário encontrar outros conceitos que aparentemente sejam mais claros. A experiência que cada indivíduo carrega consigo possui um conjunto de domínios que são as organizações de nossas experiências em termos de dimensões naturais (partes, etapas, causas, etc.) LAKOFF E JOHNSON (2002:208). Essas dimensões podem ser designadas como “naturais”, pois estão coladas às experiências do corpo em sua interação com o ambiente e com as outras pessoas, por exemplo, amor, tempo, idéias, compreensão, discussão, trabalho, felicidade, saúde etc. (op.cit.), e necessitam clamar pelas metáforas porque não se definem com clareza em seus próprios termos cotidianos.
Na visão de Lakoff e Johnson, o programa objetivista é incapaz de explicar a compreensão humana de forma satisfatória devido aos elementos básicos necessários para a explicação experiencialista desta compreensão que são, conforme já mencionado, as propriedades interacionais, as gestalts experienciais e os conceitos metafóricos (LAKOFF & JOHNSON, 2002:337), propriedades estas que dizem respeito ao tratamento das questões humanas. Nem mesmo os argumentos subjetivistas sozinhos são capazes de dar conta da compreensão humana. A ciência é uma prática sócio-cultural e histórica que une o conhecimento a inúmeras influências, matérias, poderes, políticas e outras. Com essa possibilidade, esgota-se o mito de que a ciência proporciona o significado último para o entendimento de todas as coisas. A proposta que Lakoff & Johnson sugerem como possibilidade metodológico-filosófica para as ciências humanas é o experiencialismo. Nesta argumentação, não há procura por um ponto de vista absoluto e universalmente válido. A verdade é sempre relativa à compreensão, que se baseia num sistema conceitual não- universal (op.cit: 344). O modo como a compreensão acontece no corpo, tem a ver com os recursos primários da imaginação constituídos pelas metáforas, que possibilitam novos sentidos às experiências e à criação de novas realidades.
A ciência proporciona a extensão do nível básico de capacidades para a percepção através da tecnologia. Alguns instrumentos como o telescópio, o microscópio e outros, têm expandido a capacidade de manipulação humana, e os computadores também possibilitam alargar a capacidade corporal básica ampliando o realismo corporificado. Apesar disso, os sistemas conceituais dos movimentos corporais são executados pelos modelos neurais que controlam as inferências motoras. Conforme Lakoff pontuou15, o corpo pode ser o mesmo de muitos anos atrás, mas sua concepção é que sofre modificação. Antes, não existiam as
mesmas metáforas para o corpo como atualmente, devido principalmente, aos avanços que a ciência vem sofrendo. O corpo e o cérebro contemporâneo conceitualizam em termos de circuitos neurais, assim como surgiram outras metáforas para o processamento da informação.
Os aspectos físicos, emocionais, perceptuais, imaginativos da existência diária, em consonância com Thelen e Smith, são correntes motivacionais que possibilitam o alargamento do pensamento. Assim, rejeita-se a suposição de que a mente trabalha como um computador digital, pois o sentido de conhecer ocorre pelas vias da categorização do mundo em sua ação sobre ele - são os centros não proposicionais, fluidos, desalinhados, imaginativos, emergentes, construtivos, metafóricos e acima de tudo, dinâmicos16 (THELEN & SMITH, 1994:323).
As categorias conceituais são, geralmente, muito diferentes do que a visão objetivista aponta. Esta evidência sugere uma visão diferente, não somente de categorias, mas da razão humana em geral. O pensamento é corporificado, as estruturas dos nossos sistemas conceituais despontam da experiência corporificada e só faz sentido em seus termos, além disso, o centro de nosso sistema conceitual está diretamente baseado na percepção, no movimento corporal, e na experiência de um caráter físico e social. A sabedoria está diretamente baseada na experiência, na percepção do mundo e nas atividades corporificadas. O significado tem origem nas ações, que ocorrem em tempo real e se constrói pelo modo como os indivíduos vêem, ouvem, sentem e agem para a resolução de seus problemas. Assim, nossas experiências corporificadas são repletas de domínios abstratos, metafóricos e imaginativos.
A cognição corporificada apresenta novos significados para as atividades das crianças que estão aprendendo a controlar os seus corpos no espaço. Segundo os experimentos das pesquisadoras, inúmeras habilidades motoras como o andar, o alcançar e chutar, por exemplo, foram aprendidas porque as crianças tinham alguma motivação para alcançar tal objetivo, havia algum evento interessante como agarrar um brinquedo ou abraçar a mãe, aproveitando a força de interação dos corpos para fazê-lo.
Embora pareça simples, caminhar requer movimentos complexos, como o domínio dos balanços dinâmicos, criando o impacto correto entre os pés e o chão. Para alcançar, as crianças precisam distribuir a quantidade apropriada de forças em seus braços e pernas, controlando o movimento de agitação. Quando há um declive, uma rampa, por exemplo, exigem-se habilidades locomotoras individuais que liguem o tipo e escala de movimentos locomotores para a inclinação. Os desafios e explorações auxiliam as descobertas que possibilitam o surgimento de outros novos desafios dentro do domínio de habilidades motoras colaborando no despertar da criança. Conforme pontuam Thelen e Smith (2004:325) as soluções para forçar interações com o mundo são tão penetrantes e fundacionais na infância e na verdade ao longo de toda a vida [...] na construção de toda a cognição17.
Conforme já visto, a primeira interação com o mundo acontece pelas vias da cognição corporificada, nos modos como a criança percebe e age nele. O ato de conhecer é dinâmico e o processo se auto-organiza pelas soluções que vão surgindo à medida que o problema é enfrentado em tempo real nas tarefas do dia a dia. Nessa perspectiva, a
16
- is at core nonpropositional, fluid, messy, imaginative, emergent, constructive, metaphorical, and above all dynamic.
17 …t
hat the solutions to force interactions with the world are so pervasive and fundational in infancy and indeed throughout life […] into the very fabric of all cognition.
aquisição da linguagem ocorre por um mecanismo natural pelo qual os conceitos metafóricos são adquiridos em uma seqüência desenvolvimental.
2.3. Os primórdios da organização: Esther Thelen e Linda Smith e a Teoria do