4 KALKULERING I SKANSKA
4.2 Skanskas prosjektmodell
A ciência é um empreendimento essencialmente anárquico: o anarquismo teórico é mais humanitário e mais apto a estimular o progresso do que suas alternativas que apregoam lei e ordem.
FEYERABEND, em Contra o Método
Não poderíamos, em nossa incursão por algumas das epistemologias atuais, deixar de incluir um epistemólogo polêmico como Feyerabend. Recebendo títulos como “pior inimigo da ciência”10, Paul Karl Feyerabend é autor de duras críticas às formas de racionalismo na ciência. Neste ponto, tem sua epistemologia próxima à de Thomas Kuhn, embora vá mais além e situe-se em um extremo relativismo. Assim como Kuhn, também toma a história como elemento de análise. Como afirma Harres:
Na tentativa de superar os problemas colocados pela lógica formal como critério de racionalidade, alguns autores, especialmente Thomas Kuhn e Paul Feyerabend, tomaram, como elemento de análise (único, em alguns casos) a experiência histórica real dos cientistas e das suas mudanças conceituais (HARRES, 1999a, p. 33).
10 Título dado a Feyerabend em uma lista que continha nomes como Thomas Kuhn, Karl Popper e
Nascido na Áustria em 1922 e falecido em 1994, foi doutor em Física, doutor honoris causa em Letras e Humanidades, filósofo e especialista em teatro, além, é claro, de um crítico ferrenho das análises da natureza da ciência propostas por outros pensadores. Sua contribuição mais explícita à discussão da natureza da ciência refere-se à metodologia científica. Entretanto, não se atém a ela, já que sua posição metodológica revela seus pressupostos epistemológicos sobre o empreendimento científico como um todo.
Em Contra o Método (sua obra mais conhecida), apresenta o seu anarquismo epistemológico, expondo suas críticas ao dogmatismo na ciência.
Críticas ao racionalismo e defesa do anarquismo epistemológico
O racionalismo apresenta-se como a corrente epistemológica alvo das críticas de Feyerabend, sobre as quais ele ergue e defende seu anarquismo epistemológico. Considerando o racionalismo crítico “a metodologia positivista mais liberal hoje existente” (FEYERABEND apud REGNER, 1996, p. 238), direciona suas críticas ao lado “conservador” da abordagem racionalista. Como enfatiza Martins (1998, p. 27), “Feyerabend certamente critica o conservadorismo da ciência, caracterizando-o inclusive como pernicioso”. Regner (1996), afirma que Feyerabend considera o racionalismo “incorreto” para tratar do desenvolvimento científico e “indesejável” para uma vida gratificante. Vejamos por que tanta aversão a essa epistemologia.
Regner (1996, p. 234) busca em Adeus à razão11 argumentos explicativos do epistemólogo para essa questão. Na obra, Feyerabend (1987, p.9) argumenta que no racionalismo “são as próprias coisas que produzem a estória e a dizem ‘objetivamente’, isto é, independentemente das opiniões e das compulsões históricas”, o que resulta no “critério de que o conhecimento é único – de que existe apenas uma história aceitável: a ‘verdade’ – abstrato, independente da situação (‘objetivo’) e baseado em argumento”. Desse modo, tal epistemologia, assim como o empirismo, estaria submetida a um método (com padrões fixos e estabelecidos), utilizando-se das seguintes regras: “1. Só aceitar hipóteses que se ajustem a teorias
confirmadas ou corroboradas; 2. Eliminar hipóteses que não se ajustem a fatos bem estabelecidos” (REGNER, 1996, p. 235).
Para cada uma dessas regras, Feyerabend propõe uma contra-regra correspondente. Para a primeira, “a contra-regra que nos incita a desenvolver hipóteses inconsistentes com teorias aceitas e altamente confirmadas” (FEYERABEND, 2007, p. 45 – itálicos no original). Para tanto, o cientista deverá adotar uma metodologia pluralista, introduzindo novas concepções, comparando idéias com outras idéias, em vez de apenas com a “experiência”.
Para a segunda regra, “a contra-regra que nos incita a desenvolver hipóteses inconsistentes com fatos bem estabelecidos” (FEYERABEND, 2007, p. 46 – itálicos no original). Segundo Feyerabend (2007, p. 47), “não existe uma única teoria interessante que concorde com todos os fatos conhecidos que estão em seu domínio”, o que sugere a invenção de um novo sistema conceitual que entre em conflito com os resultados de observação cuidadosamente estabelecidos. A utilização das contra-regras resulta em conseqüências que expressam um princípio metodológico sugerido por Feyerabend: “há apenas um princípio que pode ser defendido em todas as circunstâncias e em todos os estágios do desenvolvimento humano. É o princípio de que tudo vale” (FEYERABEND, 2007, p. 43 – itálicos no original).
A “sugestão” desse princípio, bem como da estratégia anarquista e suas contra-regras não têm a intenção, segundo Feyerabend, de substituir a indução pela contra-indução, substituindo um conjunto de regras por outro, mas atentar para o fato de que todas as metodologias têm os seus limites (FEYERABEND, 2007, p. 49). A defesa do anarquismo epistemológico caracteriza também o que Feyerabend chama da “razoabilidade do irracionalismo” contra a “irracionalidade do racionalismo”.
Regner (1996, p. 233) esclarece um ponto pertinente ao tratar do anarquismo epistemológico feyerabendiano:
[...] ‘anarquismo’ significa, antes, oposição a um princípio único, absoluto, imutável de ordem, do que oposição a toda e qualquer organização. Na sua tradução metodológica, não significa, portanto, ser contra todo e qualquer procedimento metodológico, mas contra a instituição de um conjunto único, fixo, restrito de regras que se pretenda universalmente válido, para toda e qualquer situação – ou
seja, contra algo que se pretenda erigir como ‘o’ método, como ‘a’ característica distintiva, demarcadora do que seja ‘ciência’.
Tal esclarecimento desfaz possíveis e recorrentes interpretações da epistemologia de Feyerabend como aquela contra qualquer forma de organização metodológica ou contra a utilização de procedimentos metodológicos na ciência.
Compreendendo a ciência como um empreendimento anárquico, Feyerabend defende um pluralismo teórico e metodológico como condições para o progresso na ciência. Segundo ele, o progresso só é conseguido quando violadas as regras metodológicas existentes. “Fica evidente que tais violações não são eventos acidentais, não são o resultado do conhecimento insuficiente ou de desatenção que poderia ter sido evitada. Pelo contrário, vemos que são necessárias para o progresso” (FEYERABEND, 2007, p. 37).
Para defender esse ponto de vista, utiliza-se da história da ciência, apresentando, em Contra o Método, o que chama de um “estudo de caso”, em que detalhadamente examina as questões envolvidas na transição do aristotelismo para o copernicanismo, descrevendo e analisando as decisões e atitudes teóricas e metodológicas de Galileu em tal processo. Com o exemplo, argumenta que o avanço só foi possível porque as regras metodológicas vigentes foram quebradas por Galileu, não utilizando as regras recomendadas nem pelo empirismo, nem pelo racionalismo crítico. É esse, segundo ele, o procedimento adotado pelos cientistas e que faz (e deve fazer) a ciência avançar: a violação das regras metodológicas vigentes.
Neste sentido, Feyerabend não oferece critérios para a escolha de teorias, que é feita, então, baseando-se em critérios subjetivos (propaganda, fatores sociais e políticos etc). Notamos, aqui, uma sutil (mas expressiva) diferença em relação a Kuhn: para este último, as regras metodológicas de avaliação de teorias são o que ele chama de “valores da comunidade cientifica” (simplicidade, fecundidade, poder preditivo etc); para Feyerabend essas regras não existem, o que, dentre outros aspectos, caracteriza esse epistemólogo em uma “linha” mais relativista que Thomas Kuhn.
Alves-Mazzotti e Gewandsznajder (2002, p. 40) destacam que o epistemólogo recebe muitas críticas por não oferecer critérios objetivos para a seleção das teorias,
o que torna problemático pensar que suas recomendações garantem alguma forma de progresso em direção à verdade ou à resolução de problemas e, portanto, que seu pluralismo metodológico leve ao progresso do conhecimento. Segundo os autores, Feyerabend responde as críticas afirmando que a ciência não é superior às outras formas de conhecimento (seja em relação aos métodos ou aos resultados) e não deve gozar de nenhum privilégio.
A não-superioridade da ciência é coerente com as idéias de Feyerabend sobre a liberdade do indivíduo. Segundo Chalmers (1993, p. 184), Feyerabend defende o que chama de uma “atitude humanitária”. De acordo com esta atitude, os indivíduos devem ser livres e tal liberdade os levará ao seu desenvolvimento. Assim, a atitude humanitária e a defesa da liberdade individual12 está em consonância com sua visão anarquista de ciência, já que no interior da ciência os indivíduos podem ter sua liberdade aumentada em virtude da não restrição metodológica; e, de modo mais amplo, os indivíduos são livres para escolher entre a ciência ou outras formas de conhecimento.
É ainda válido destacar que, na edição de 1992 de Contra o Método (ou de 2007, como é citado neste trabalho) Feyerabend revê, brevemente, suas posições sobre o relativismo e a razão, que apareceram na primeira edição inglesa de 1975.