3 Teori
5.1 SWOT-ANALYSE:
5.1.1 Skanska preferd supplier program – «PSP»
O bávaro Karl Frederick von Martius foi o vencedor do concurso lançado em 1840 pelo Instituto Histórico quanto ao melhor plano de escrever a História Antiga e Moderna do Brasil. O trabalho escrito em 1843 e intitulado Como se deve escrever a História do Brasil propunha uma História que difundisse entre os contemporâneos “sentimentos e pensamentos do mais nobre patriotismo”. A obra histórica a ser escrita deveria despertar e reanimar nos brasileiros “o amor da Pátria, coragem, constância, indústria, fidelidade, prudência, em uma palavra, todas as virtudes cívicas”. Mas diante de “idéias políticas imaturas”, o autor alegava que o historiador patriótico nunca poderia esquecer que “para prestar um verdadeiro serviço à sua Pátria deverá escrever como autor Monárquico-Constitucional, como unitário no mais puro sentido da palavra”.640
A Comissão encarregada de dar seu parecer sobre este trabalho alegou que uma História escrita seguindo o programa delineado por von Martius era inexeqüível naquela época. Entretanto, por ser “bom demais”, sua utilidade “se manifestará desde já na direção que devem tomar as investigações históricas”.641 O texto de Martius foi aprendido pelos historiadores brasileiros do século XIX como uma espécie de manual de introdução aos estudos históricos.642 Desta forma, pelas noções e diretrizes dadas a esses estudos, alguns autores de trabalhos na Revista do IHGB podem ser vistos como fundadores de
discursividade, ou seja, eles não eram apenas os autores das suas obras; eles produziram algo
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OLIVEIRA, 1990, p. 66-74. As expectativas e as frustrações da participação popular no novo regime, na cidade do Rio de Janeiro, são trabalhadas por: CARVALHO, 1998d.
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MARTIUS, 1844, p. 409-410. Publicado, novamente, na Revista no v. 219, p. 187-205, 1953. 641
168ª Sessão em 10 de junho de 1847. RIHGB, t. 9, p. 279-287, 1870. 642
mais: “a possibilidade e a regra de formação de outros textos”.643 Casos como os de Januário da Cunha Barbosa, von Martius, Tristão de Alencar Araripe e Olegário Herculano de Aquino e Castro, por exemplo, nas suas formulações de como o historiador patriota deveria se portar, acabaram por estabelecer possibilidades indefinidas de trabalhos.
Ao presidir pela primeira vez a uma sessão do IHGB, em 15 de dezembro de 1849, o próprio Imperador fez um breve discurso no qual reforçava a responsabilidade dos sócios já preconizada por von Martius. Segundo o mecenas, “é de mister que não só reunais os trabalhos das gerações passadas, ao que vos tendes dedicado quase que unicamente, como também, pelos vossos próprios, torneis aquela a que pertenço digna realmente dos elogios da posteridade”.644 E assim, os filhos obedientes trataram de registrar de forma imaculada o governo de seu protetor. A bibliografia que trata do Instituto Histórico sob o regime monárquico destaca tal devoção nos escritos dos seus sócios. Nanci Leonzo aponta o Instituto Histórico como um importante defensor das instituições vigentes: “Sob a égide de D. Pedro II, seu grande protetor, seus membros não ousaram produzir e publicar na Revista Trimensal textos que ameaçassem a unidade do Império, e conseqüentemente, seus interesses econômicos e privilégios sociais.”645
A escrita da história no Instituto era, segundo Nelson Schapochnik, indissociável da ação política.646 Para Arno Wehling, os estudos históricos no IHGB estavam associados à sorte da Monarquia Constitucional.647 De acordo com Salgado Guimarães, “escrever a história brasileira enquanto palco de atuação de um Estado iluminado, esclarecido e civilizador, eis o empenho para o qual se concentram os esforços do Instituto”.648 A atividade do IHGB, conforme Ângela de Castro Gomes, constituía-se numa “verdadeira simbiose” entre historiografia e Estado Imperial.649 Sob a Monarquia, segundo Lúcia Guimarães, os sócios procuraram “pinçar no passado” os esclarecimentos que pudessem auxiliar na definição do presente; norteando a organização de um “estoque de lembranças” estava o projeto político iniciado em 1822.650 Para José Murilo de Carvalho, o trabalho do Instituto Histórico consistia em “vender uma idéia” de determinada ordem política e social e de unidade nacional, pois era
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FOUCAULT, M. O que é um autor? Lisboa: Vega, 1992. p. 58. 644
212ª Sessão em 15 de dezembro de 1849. RIHGB, t. 12, 4° trimestre, p. 552, 1874. 645 LEONZO, 1987, p. 43. 646 SCHAPOCHNIK, 1993, p. 73. 647 WEHLING, 2001, p. 132. 648 GUIMARÃES, M., 1988, p. 10. 649 GOMES, 1996, p. 15. 650 GUIMARÃES, L., 1995, p. 517.
necessário criar um consenso na elite brasileira.651 De acordo com Astor Diehl, um dos aspectos centrais do projeto historiográfico do IHGB era uma história legitimadora do presente e carregada de sentido político.652
Sem dúvida, aos sabres e baionetas dos exércitos imperiais na manutenção e consolidação do país juntavam-se os papéis e as penas dos sócios do IHGB. Com todo o peso desse comprometimento, como o Instituto registraria em tempos republicanos os episódios do Segundo Reinado? De que forma o dever de gratidão ao Imperador D. Pedro II e a efetiva participação dos sócios mais idosos na administração do Estado monárquico entrariam em choque com os escritos dos sócios que justamente defendiam a República diante da incapacidade e caducidade do regime anterior? Pela recentidade de seu governo, os sócios se eximiriam de registrar o reinado do protetor perpétuo? Na sessão comemorativa ocorrida em 4 de março de 1892, em lembrança ao falecimento do monarca, os discursos trataram de, justamente, destacar as suas contribuições para receber os “elogios da posteridade”. Olegário Herculano de Aquino e Castro, presidente na ocasião, disse que ao historiador caberia:
[...] a missão de registrar nos nossos fastos as tradições dessa existência honrada e benfazeja, que durante mais de meio século encheu de luz e de glória as nítidas páginas da história do Brasil.
Então se reconhecerá que tudo quanto há de grande e de belo, de útil e admirável, patenteando o desenvolvimento moral e material deste imenso país, tudo foi feito sob a protetora animação ou sob o influxo criador e benéfico [de D. Pedro II].653
José Luís Alves, em seu elogio ao pai protetor, apontou que o nome de D. Pedro II já estava gravado nas páginas da história contemporânea e, conforme os séculos forem passando, cada vez mais sua memória resplandecerá, pois, no futuro, “penas adestradas” traçarão a sua biografia e a “história imparcial e severa lhe fará justiça”.654 Para Manuel Francisco Correia, a História se encarregaria da “apoteose” de D. Pedro II, cabendo à posteridade lhe apreciar de forma “imparcial e calma” como um vulto histórico.655 Mesmo que ao futuro coubesse julgá-lo, o veredito destes sócios já fora dado sobre o Imperador. O tempo só confirmaria algo, desde logo, constatado pelos seus súditos fiéis. As referências à
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CARVALHO, J. M. de. O historiador às vésperas do terceiro milênio. In: _____. Pontos e bordados: escritos de história e política. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998c. p. 448.
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DIEHL, 1998, p. 33. 653
Discurso do Presidente. In: IHGB. Homenagem do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Sessão Extraordinária em comemoração do falecimento de D. Pedro II em 4 de março de 1892. Rio de Janeiro: Companhia Tipográfica do Brasil, 1892. p. 9.
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necessidade de se estudar o governo de D. Pedro II também estiveram presentes em outras oportunidades. Ao Instituto competiria, segundo Henrique Raffard, a tarefa de estudar, “com toda a consciência e meticuloso zelo”, os 50 anos de governo de D. Pedro II, “o Mestre Invisível, mas aqui sempre presente a nossa memória”.656
Entretanto, Henrique Raffard se mostrava cauteloso quanto ao momento em que tais estudos deveriam ter início: “Ao entrar no século vigésimo e com material de que dispomos, o Instituto está apto a poder estudar ao menos o período da primeira metade do século que expira.”657 José Carlos Rodrigues, ao contrário, em seu discurso de posse, ressaltava esta preocupação de que caberia ao Instituto pesquisar tanto os períodos mais distantes do passado do país quanto os fastos mais recentes do reinado de D. Pedro II.658 O Barão de Loreto apontava, em 1896, a falta de um trabalho histórico que descrevesse o reinado de D. Pedro II como “o ponto culminante do nosso progresso intelectual, moral e material”, cuja evolução ele esteve associado, sendo o “centro e motor” deste período. Esse trabalho, conforme Loreto, poderia ser intitulado “a época de D. Pedro II”, assim como a História da Grécia teve o século de Péricles, a de Roma o século de Augusto, a da Itália o de Leão X e a História da França o século de Luiz XIV.659
Joaquim Nabuco de Araújo fez o discurso mais contundente na defesa do registro do Primeiro e Segundo Reinados. Ao tomar posse, ele expôs três motivos que o levaram a aceitar o convite para que ingressasse no Instituto. Além de ajudar a conservar os documentos importantes do passado do país, principalmente pelo empenho em preservar aqueles de seu pai, o Senador e Ministro José Tomás Nabuco de Araújo,660 dizia atender a um pedido feito pelo próprio monarca antes de falecer no exílio. Afora estes dois motivos pessoais, o terceiro, segundo ele, era de “piedade nacional”. Joaquim Nabuco afirmava que a nossa história estava atravessando uma crise que poderia levá-la a uma “mutilação definitiva”. Referia-se a uma “escola mais política que religiosa” que pretendia reduzir a História Nacional a três nomes:
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Discurso. In: IHGB. Homenagem do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Sessão Extraordinária em comemoração do falecimento de D. Pedro II em 4 de março de 1892. Rio de Janeiro: Companhia Tipográfica do Brasil. p. 38-40.
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Relatório do 1º Secretário. Sessão Aniversária em 15 de dezembro de 1896. RIHGB, t. 59, parte 2, p. 362, 1897.
657 Relatório do 1° Secretário. Sessão Aniversária em 15 de dezembro de 1899. RIHGB, t. 62, parte 2, p. 428, 1900.
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11ª Sessão Ordinária em 1º de julho de 1907. RIHGB, t. 70, parte 2, p. 728, 1908. 659
2ª Sessão Extraordinária em 13 de dezembro de 1896. RIHGB, t. 59, parte 2, p. 342, 1897. 660
Na época de seu pronunciamento no Instituto, Nabuco vinha trabalhando no que seria sua obra maior Um
estadista do Império, em três volumes, publicados em 1897 e 1898, baseada, principalmente, nesta
documentação do arquivo paterno. “Homenagear a memória do pai e demonstrar a superioridade da Monarquia sobre a República foram as razões mais evidentes do livro.” MARSON, I. A. O império da revolução: matrizes interpretativas dos conflitos da sociedade monárquica. In: FREITAS, 2001. p. 93.
Tiradentes, José Bonifácio e Benjamin Constant. O novo sócio condenava que entre os dois primeiros vultos históricos e o último, isto é, entre as ações proponentes para a Independência e a República, estendia-se um “longo deserto de esquecimento” de quase setenta anos. Dentro deste espaço inóspito que estava sendo esquecido por alguns historiadores contemporâneos, Joaquim Nabuco relembrava que tanto o Primeiro como o Segundo Reinados assinalavam o “constante progresso material, intelectual e moral” de nosso país.
Nabuco de Araújo, ao defender a expressividade do governo de D. Pedro I ressaltava que, apesar de todos os erros do ex-Imperador e de seus ministros, o Brasil durante os dez anos de sua administração tinha feito mais progressos em inteligência do que nos três séculos decorridos desde a sua descoberta até a proclamação da Constituição Portuguesa em 1820.661 E o reinado posterior de D. Pedro II, de acordo com Nabuco de Araújo, representou o “apogeu moral de nossa história, plexo da unidade nacional e o nó vital da liberdade civil”. Escrever a História do Brasil esquecendo o reinado de D. Pedro II seria, segundo ele, como escrever a História de Judá eliminado o reinado de Salomão e a da França eliminado o reinado de Luiz XIV. Para este sócio, não se poderia alegar que os dois reinados foram épocas perdidas para o desenvolvimento nacional. As datas de 7 de setembro de 1822 e 13 de maio de 1888 eram consideradas como “o melhor epitáfio” à dinastia dos Bragança, pois ela se preocupou mais com a dignidade de seus cidadãos do que com a segurança do próprio trono.662 No momento em que o passado nacional corria o risco de ser mutilado no que ele teve de mais glorioso, Joaquim Nabuco, em 1896, apresentava-se como sócio do Instituto.
Assim, pelos debates acima, vejo que, se era premente para alguns a necessidade de se colocar no papel, o mais rápido possível, a história do reinado do augusto protetor, para outros mais cautelosos havia a alegação da conveniência de uma maior distância temporal entre o acontecido e o seu relato. Porém, monarquistas já haviam escrito sobre o Segundo Reinado antes da proclamação da República. O volume Le Brésil en 1889 organizado pelo sócio do
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Joaquim Nabuco citava o trabalho de John Armitage para destacar positivamente o governo de D. Pedro I.
John Armitage era comerciante e adido da legação britânica no Rio de Janeiro, na década de 1830, e foi autor
de uma História do Brasil, publicada em Londres, em 1836, em dois volumes: The History of Brazil, from the
period of the arrival of the Braganza Family in 1808, to the abdication of Don Pedro the First in 1831, compiled from State documents and other original sources, forming a continuation to Southey’s History of that Country. A tradução brasileira foi feita em 1837 com o título de História do Brasil desde a chegada da real família de Bragança em 1808, até a abdicação do imperador D. Pedro I, em 1831. Armitage projetou
uma imagem positiva da monarquia constitucional, insistindo na importância de D. Pedro I na construção do Império. MARSON, 2001, p. 75.
662
17ª Sessão Ordinária em 25 de outubro de 1896. RIHGB, t. 59, parte 2, p. 310-314, 1897. Joaquim Nabuco exerceu, no Instituto, a função de orador (1898-1899) e compôs as Comissões de História (1897) e Subsidiária de História (1898-1899). Nesta época, em outra obra publicada fora do Instituto, O dever dos monarquistas:
carta ao Almirante Jaceguai (1895) ele procurou destacar os inúmeros benefícios que a Monarquia prestou ao
Instituto, Barão de Santa Ana Nery, foi publicado para a Exposição Universal de Paris naquele ano. Segundo Wilson Martins, “raras vezes ter-se-á reunido um elenco tão brilhante de grandes homens, escrevendo com indiscutível competência sobre os aspectos da vida nacional”. Deste elenco, a grande maioria compunha ou viria a compor o quadro social do IHGB.663 O receio de deixar para posteridade tal registro, acredito, devia-se ao fato de, como ocorrera com o trabalho de Cristiano Benedito Otoni, citado no capítulo anterior, e na introdução de Raul Pompéia ao livro de Rodrigo Otávio, Festas Nacionais, apontado acima, estarem surgindo histórias que, antes de enaltecerem, denegriam a pessoa e o governo de D. Pedro II. E nisso os intelectuais de inspiração comtiana já vinham trabalhando conforme alertava Joaquim Nabuco. As publicações, especialmente do Apostolado Positivista, realizaram um “intenso trabalho de reestruturação da memória nacional”. Os positivistas eram tidos como “hábeis manipuladores da história”.664
Entretanto, afora os discursos, a inserção de referências a D. Pedro II e ao seu governo nos artigos publicados na Revista foi feita de forma cautelosa. Em 1894, sob organização de Henrique Raffard, foi publicado um tomo especial da Revista em comemoração ao falecimento do Imperador ocorrido em dezembro de 1891. Este volumoso tomo de mais de 800 páginas somente se ateve à transcrição das manifestações de pesar em discursos, correspondências, telegramas e necrológios nos principais jornais nacionais e estrangeiros. Exceto a apresentação do organizador, nenhum outro sócio se fez presente através de artigos ali publicados. O trabalho se restringiu a reproduzir, principalmente, o que “os de fora” diziam minimizando que o Instituto, através dos escritos de seus sócios, fizesse referências diretas ao Imperador. A impressão que me foi dada era a de que, com este trabalho, a direção do IHGB almejava transmitir a seguinte mensagem: “vejam, não somos nós que o estamos enaltecendo, são os outros”.
Apesar da força dos discursos na defesa da gratidão e na exaltação do pai protetor desde seu exílio, somente em 1897 foi publicado um estudo no qual Franklin Américo de Menezes Dória, o Barão de Loreto, na conclusão de A Independência do Brasil, ensaio histórico, ressaltava que o Império do Brasil entrou no concerto das nações, progredindo e prosperando graças ao “governo sábio, justo e honesto” de D. Pedro II.665 No ano de 1899, através de
Apontamentos acerca de pessoas e cousas do Brasil, Henrique Raffard deu continuidade ao
tomo especial de 1894 dedicado à memória de D. Pedro II. Porém, desta vez, passados cinco
663 MARTINS, W., 1978, v. 4, p. 323. 664 FERREIRA NETO, 1986, p. 82-83. 665
anos da publicação daquele tomo especial, o Instituto, através dos escritos de Raffard, fez referências diretas ao Protetor. Na introdução, o autor apontava sua preocupação em coligir vários escritos a fim de que “um dia” se possa escrever com “imparcialidade” a biografia do Imperador. Organizado em seis partes, este estudo procurava dar aos futuros historiadores elementos para provar a brandura de caráter, o patriotismo, a tolerância e o amor do falecido monarca. No entanto, Henrique Raffard se preocupou em referenciar o caráter de D. Pedro, principalmente, pela influência da criação da Condessa de Belmonte, e não pelos seus atos no governo.666
Publicado em 1900, Visconde de Mauá, esboço biográfico de João Carlos de Souza Ferreira destacava o governo estável de D. Pedro II, “aceito e respeitado por todo o país” que lhe assegurou a integridade. Mesmo que tenha irrompido um movimento de contestação no ano de 1848 em Pernambuco, Souza Ferreira afirmava que ele não se dirigiu contra a forma de governo.667 Um dos motivos para os poucos artigos sobre D. Pedro II na Revista, provavelmente, esteja no que Max Fleiuss disse em Centenários do Brasil, escrito em 1900, sobre ainda ser cedo para se enunciar uma opinião sobre o governo de D. Pedro II, apesar de muitos a terem, mas recearem de expressá-la. De acordo com Fleiuss, os últimos tempos se caracterizavam pelo “terror” em tratar com respeito e estima os homens do antigo regime. Para ele, a admiração do que era “indiscutivelmente admirável” não poderia se constituir em um delito. As “novas crenças” para se enraizarem, segundo Max Fleius, não deveriam perseguir as que antecederam-nas, principalmente, se aquelas foram notáveis pela “honradez e benemérita atividade”.
Para Fleiuss, o término do reinado de D. Pedro II representou um ciclo de cinqüenta anos que havia assegurado ao povo e à terra um regime em que a lei, o progresso e a honra não eram ficção, mas realidade. Além disso, na pessoa do soberano, se concentravam todas as virtudes humanas aliadas a um grande patriotismo e cultura intelectual. Inclusive, para ele, as comemorações no Quarto Centenário do Descobrimento do Brasil não seriam completas e justas se não recordassem os feitos de D. Pedro II.668 Reforçando tal grupo de “mosqueteiros do rei”, o sócio João Cardoso de Menezes e Souza, o Barão de Paranapiacaba, organizou as duas partes do trabalho intitulado Prometeu acorrentado, trasladação poética do texto, que do
original de Ésquilo, vertido literalmente para português por D. Pedro II, Imperador do Brasil, publicado nos anos de 1906 e 1907, em memória do falecido monarca.
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RAFFARD, H. Apontamentos acerca de pessoas e cousas do Brasil. RIHGB, t. 61, parte 2, p. 5-567, 1899. 667
FERREIRA, J. C. de S. Visconde de Mauá, esboço biográfico. RIHGB, t. 62, parte 2, p. 74-136, 1900. 668
Na segunda parte, o sócio apontava que procurou assinalar fatos que servirão para acentuar as feições da moralidade do Imperador “injustamente desfiguradas por alguns”. O autor considerava D. Pedro II como um alto espírito com sede de cultura intelectual e propulsor de todas as medidas para elevar o país “à altura de seu destino”. Ao assumir a direção da Nação, o Imperador, segundo Paranapiacaba, evitou que ela caísse na anarquia com sua poderosa destra. Dirigiu seu governo de forma honesta, influindo sobre seu progresso social e dando-lhe impulso para tomar um lugar de honra entre as nações mais civilizadas. Conforme o autor, D. Pedro II “há de passar da trama da História Pátria para a História Universal, por ser um dos homens que melhor compreenderam o espírito do século”. Em razão disto, caberia, não só aos sócios do Instituto, mas ao país, “venerá-lo como um ente superior”. 669
A Comissão de Redação em nota introdutória ao Diário de viagem ao Alto Nilo feita
pelo Imperador D. Pedro II em 1876, publicado em 1910, apontava para a importância deste
trabalho em testemunhar as qualidades primordiais do magnânimo soberano, tais como seu amor à ciência, seus escrúpulos, o desejo de acertar, seu devotamento a todas as coisas nobres e belas, sua inteligência e caráter dignos de toda veneração. Conforme a Comissão, eram merecedores de atenção e estudo quaisquer escritos deixados por individualidades históricas,