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5. Datainnsamling

5.2 Kvantitativ del – Spørreundersøkelse

5.2.1 Skala

A capital dos catarinenses, hoje Florianópolis, anteriormente denominada Desterro e sua região compreendida pelos municípios de Palhoça, Biguaçu e São José, mereceram um tratamento diferenciado, porque é a região onde se concentra o maior contingente de entidades negras, mesmo não sendo a maior população do estado. A capital por seu caráter de cidade chefe do executivo estadual lhe atribui peculiaridades na trajetória dos movimentos sociais, e em especial do movimento negro.

Como já indiquei no inicio deste capítulo o estado de SC, como tantos outros pelo Brasil sofreram um impacto significativo no rearranjo urbano das cidades, muito especialmente nas capitais, a partir de uma concepção desenvolvimentista, sanitarista e civilizadora (ROLNICK, SCHWARCZ, 1993). Esta concepção de caráter eugenista e europeizante sempre foi desagregadora das populações negras e sempre concorreu para a desqualificação social deste referido contingente de descendentes de africanos (CUNHA JÚNIOR, 2007). A capital, portanto, buscou espelhar na sua estrutura urbana este ideário.

Florianópolis, principalmente por ser a capital, vitrine do Estado, passou, por um reajustamento urbano. Entre outras ações, houve a expulsão da população pobre e negra do centro da cidade, derrubada de seus casebres, a instalação de serviços de água e esgoto, a construção da Avenida Hercílio Luz, inicialmente chamada de “Avenida do saneamento”, a instalação da rede de energia elétrica e a implantação de linhas de bonde. Esta última vista durante muito tempo como demonstrativa do progresso e civilidade da cidade... (BITTENCOURT, 2004, p. 31)

Como visto este processo, já no limiar do séc. XX, no sul do país assinala com intensidade um desejo de erradicar os negros da sua presença considerada de forma racista como incômoda, numa cidade onde a circulação e atividades dependiam destes

braços. Desta forma na antiga Desterro, capital da província de Santa Catarina, Mortari & Cardoso (2004, p. 88) assinalam:

Ora, foi justamente contra essa negra cidade, indomável que as elites brancas modernizantes do sec. XIX e meados do sec. XX, apontam suas baterias sob a capa da nova ideologia da higienização, foram sendo eliminados ano a ano, as marcas da presença negra em Florianópolis. As quituteiras foram expulsas dos cantos e bairros como a Figueira (Conselheiro Mafra), Tranqueira (imediações da Artística Bittencourt), Beco do Sujo (Av. Hercílio Luz), Toca (São Martinho), foram sendo destruídas para dar lugar a uma cidade “moderna”, “limpa” e branca. Sonhava-se na época coma consolidação de uma civilização européia nos trópicos.

Porém, mesmo diante deste enfrentamento com as elites catarinenses e seu ideal modernizante, os negros vão constituir espaços de contestação ao progresso e civilização preconizada pela modernidade. Um destes espaços, que combina solidariedade e recriação cultural tem-se as irmandades.

Dentro desse contexto, temos a Irmandade Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito dos Homens Pretos, como um espaço de expressão de africanos e afro-descendentes escravos, livres e libertos de Desterro. A Irmandade teve um papel importante na vida destes grupos, pois representava um território onde poderiam se encontrar, se relacionar, recriar tradições culturais

(MORTARI & CARDOSO, 2004, p. 89)

Posteriormente, verifica-se outro processo, combinado com a migração urbana, fortemente demarcada pela vinda de migrantes negros da região e de outros estados, acabou na ocupação das encostas do Morro do Antão, que se tornou local de concentração da população pobre e miserável da cidade. Ao mesmo tempo em que este contingente populacional vai constituir outras comunidades em diferentes morros no centro da capital, como é o caso do moro do Chapecó, o Mocotó, da Mariquinha, Nova Trento, do Céu, do Horácio, da Caixa (hoje Mont Serrat), entre outros espaços da capital catarinense ( MORTARI & CARDOSO, 2004).

Com o tempo, as comunidades foram transformando estas localidades em autênticos territórios negros, nele, através de um processo de reelaboração cultural e construção de sociabilidade – gestou novas modalidades de identificação e expressão cultural, num movimento tenso com o pensamento de modernidade preconizada pela capital dos catarinenses. É o caso da União Recreativa 25 de Dezembro (1933), constituído por um grupo de amigos que “pensaram na formação de um clube para homens negros, trabalhadores e respeitáveis, rival do Clube Concórdia, freqüentado por

brancos” (MORTARI & CARDOSO, 2004, p. 94). A Sociedade Recreativa “Brinca Quem Pode” (1934), “ao que tudo indica, a sociedade se imaginava como o grande espaço de elite negra florianopolitana” (ibidem).

Como expressão da valorização das referencias culturais de matriz africana alicerçada na musicalidade, os morros da capital marcam o surgimento das escolas de samba, principalmente as escolas: Copa Lord, Protegidos da Princesa e Coloninha (TRAMONTE, 1996, MORTARI & CARDOSO, 2004), irrompendo e reconquistando, ao menos no carnaval o espaço público como visibilidade as comunidades negras nesta cidade.

Outras manifestações importantes são os terreiros, tanto de Umbanda quanto de Candomblés, que desafiam os estigmas que recaem sobre esta religião de matriz africana. Assim tem-se noticia dessas religiões desde os anos 40, como é o caso do terreiro de Mãe Malvina (TRAMONTE, 2006, p. 123). Este terreiro de Umbanda para a autora “pode ser considerada um caso emblemático da constituição das religiões afro- brasileiras na Grande Florianópolis”. Desde então outras formas religiosas abrem caminho no tecido social para a expansão da rede destas religiões.

Após este itinerário parcial de organizações sociais, culturais e religiosas que marcam o espaço urbano da capital, teremos o surgimento de outras organizações agora preocupadas em debater e discutir os processos de desigualdades da população negra do ponto de vista de uma intervenção de caráter mais político. Florianópolis, a capital concentra a maior parte de organizações do MN, num fluxo dos movimentos identitários que sacodem a sociedade brasileira, a partir da década de 80.

Segundo Scherer-Warren (1996), em pesquisa realizada sobre organizações voluntárias em Florianópolis, no que se refere à classificação identidade negra pode-se relacionar diferentes grupos. Estes contribuíram e alguns ainda contribuem para a superação da discriminação racial, defesa de direitos sociais da população negra e de construção de uma sociabilidade identitária de matriz africana: Núcleo de Estudos Negros (NEN), Fundação Cruz e Souza, Movimento Negro Unificado (MNU), Bloco Liberdade, Grupo de Mulheres Negras Cor de Nação, União Brasileira dos Homens de Cor (UBHC). Completando a lista na memória dos militantes aparecem ainda: Bloco Jamaica, Grupo Resistência, União de Negros Pela Igualdade (UNEGRO), entre outras.

Para o âmbito deste trabalho buscarei caracterizar a ação desenvolvida por estas primeiras organizações, tendo em vista as fontes disponíveis, tanto escritas quanto orais, como também pela presença constante na cena catarinense.

Vale anotar, que antes da década de 1980 têm-se alguns registros de entidades negras, segundo se pode encontrar em Goss (2006, p. 145):

Há informações de que entre os anos 1940 e 1950 houve a intenção de se criar um Núcleo da Frente Negra Brasileira em Florianópolis, mas a proposta não se concretizou. A Partir da década de 1960. Foram criadas organizações como o Centro Cultural Cruz e Sousa e a União Catarinense dos Homens de Cor (UCHC).

Cardoso & Mortari (2004, p. 97) também escreveram sobre o Cruz e Sousa, no entanto, anotaram que este grupo se chamaria “[...] Grupo Cultural Cruz e Souza, presidido pelo celebre tribuno Osvaldo Silveira”, do qual não se tem mais informações sobre sua trajetória e término.

Posteriormente, o registro que se tem sobre o ressurgimento do Movimento Negro contestatório das relações raciais é demarcado pelo inicio da década, em 1980, com o surgimento da Sociedade Cultural Antonieta de Barros.

Conforme se depreende do depoimento de Valmir Brito, os encontros iniciais para a construção desta entidade negra em Florianópolis se deram a partir de reuniões informais, na casa do atual vereador de Florianópolis Márcio de Souza:

A minha experiência com o movimento social negro, precisamente eu comecei 78, 79, foi o contato que nós tínhamos nas reuniões, eu era criança ainda, mas nas reuniões que aconteciam na casa do Márcio de Souza, fica no bairro agronômica, na R. Juvan Rocha. Então eu lembro que ali se reuniam o Márcio, a Márcia, a Vera às vezes do movimento feminista negro, se encontravam lá. Então foi lá, o Márcio trazia muitos jornais do Rio, agora não lembro os nomes dos jornais, e nessa época eu não me lembro do movimento ou Antonieta de Barros ou Cruz e Sousa, eu não me lembro bem, o nome do movimento, mas foi na casa do Márcio que eu comecei a ter contato com essa questão negra do movimento.

No documento que tenho em mãos, que consta de carta de princípios, linha de ação e estatuto está registrada que a fundação se dá em 09 de agosto de 1980. No entanto, segundo informa Mortari & Cardoso (op. cit., p. 97), confirmando a informação dada na fala anterior, seus membros se encontravam em outros vários momentos, assim escreve:

Em uma tarde de sábado qualquer, entre os anos 1978 e 79 reuniram-se Flávio Silva, Flávio Expedito, Claudionor Veridiano da Costa, Osvaldo Poeta, Márcio de Souza, Osvaldo Silveira e algumas pessoas de quem só