A cultura da sala de aula e, tal como foi referido na secção anterior, é um tema que tem grande importância na aprendizagem. Reconhece-se que a aprendizagem da disciplina, e não me refiro apenas à aquisição de conhecimentos e desenvolvimento de competências, mas acima de tudo ao desenvolver de certas atitudes nos alunos, não é independente do contexto em que decorre, ou seja, este é um processo que depende de um conjunto largo de factores. A começar pelo papel que é assumido na sala de aula quer pelo professor, quer pelos alunos e que tem uma grande influência no processo de aprendizagem. As interacções que são criadas na sala de aula, o papel que os diversos actores (professor, alunos, robots …) assumem e a forma como estas interacções se dão,
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influenciam o que se aprende e a forma como se aprende. O professor pode assumir um papel de um ser superior ou mais inteligente, porque tem conhecimentos que os alunos ainda não dominam ou de um participante do processo de aprendizagem, que dá espaço ao aluno para pensar, para duvidar, para questionar e acima de tudo aprender com ele. Na AP-Robots e, tendo como base a teoria do construccionismo de Papert, optei pela última situação ou seja, os alunos apropriam-se, para seu próprio uso, dos robots para com eles criarem modelos e metáforas sugeridos pela cultura que os rodeia.
Na AP-Robots propõe-se a criação de projectos para a construção e programação de robots. Os desafios são lançados, ao aluno cabe a tarefa de os enunciar e definir o que quer fazer e como quer fazer. O aluno é colocado perante uma situação real do dia-a- dia, deve percebê-la e, ele próprio transformá-la numa situação-problema para a qual deve procurar e colocar as questões que ajudem à sua resolução. A tarefa, normalmente atribuída ao professor de colocar as questões para o aluno responder, não existe. Aquela tarefa é da responsabilidade dos alunos. São eles que, perante determinada situação, devem colocar as perguntas e procurar as respostas, discutindo e reflectindo com os outros colegas. Numa primeira fase, a reflexão é feita com os colegas do seu grupo e numa fase posterior é alargada aos restantes colegas da turma. No final, os alunos são convidados a partilhar a sua estratégia, apresentado a solução encontrada a outras pessoas. Com isto, os alunos têm de novo a oportunidade de reflectir acerca da forma como definiram as questões e como as abordaram.
A cultura de sala de aula que assim emerge compromete o aluno na construção, no teste e verificação dessa construção. As tarefas que o professor sugere que os alunos realizem, aparecem como desafios, como situações concretas que se vão evidenciando problemáticas à medida que os alunos as abordam. Na resolução dos problemas, novas questões e novos desafios surgem. Ao contrário do que normalmente acontece nas salas de aula, aqui os alunos não são penalizados pelos erros que cometem.
A forma como os alunos trabalham é outro elemento revelador de uma cultura diferente. Os problemas são resolvidos no seio do grupo, na discussão dos vários elementos do grupo e na interacção com outros grupos. Quando no próprio grupo não há uma resposta ou a resposta continua envolta de algumas dúvidas, os alunos procuram respostas nos
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colegas de outros grupos, criando assim uma grande interacção entre eles. Igualmente, a análise e o desenvolvimento desta cultura rica e estimulante é a preocupação constante do professor na preparação e no desenvolvimento da aula e do projecto.
A troca da abordagem tradicional – baseada no professor como o centro da sala de aula, o ponto de partida do conhecimento – pelo uso de robots que ajudaram a dar visibilidade aos alunos e a transformá-los nos protagonistas da sala, favoreceu o trabalho e a maneira como os alunos passaram a estar na aula: mais activos, dinâmicos e criativos. Contudo, é importante evidenciar que o conhecimento de robots que se pretende não é de modo algum um conhecimento técnico mas sim um conhecimento que é construído. O aluno assume um papel de investigador, que faz perguntas, procura respostas, testa e analisa estas respostas, criticamente. Não há qualquer abordagem prévia ao funcionamento do robot, os alunos reconhecem por si as especificidades desta tecnologia e rapidamente a controlam. Tentar explicar o funcionamento do robot seria difícil manter a abordagem tradicional e uma perda de tempo, os alunos não estariam atentos nem tão pouco ouviriam. Os alunos de hoje pertencem a uma sociedade digital - nascem no seio da tecnologia, por este motivo é urgente as salas de aula integrarem-se nessa realidade, na realidade dos alunos.
O professor deve mediar de forma intencional o processo de ensino e aprendizagem, não se pode limitar a falar, a transmitir conceitos, acima de tudo precisa de vivenciar com os alunos a descoberta de novos conceitos. Esquecer por momentos o que sabe sobre o assunto em causa e deixar-se guiar pelo caminho que o aluno começa por traçar, descobrindo-o e desbravando-o com ele. Acredito que nesta caminhada conjunta, o papel do professor é mais valorizado. É importante para o aluno que o professor tenha a capacidade de, à medida que segue o aluno, perceber se a estrada é segura e encontrar formas de mostrar isso ao aluno. Este papel de orientador e guia, dá ao aluno a segurança que necessita para seguir em frente na construção do seu projecto que é em simultâneo a construção da sua aprendizagem.
A abordagem de projectos baseada em situações-problema, ajudará os alunos a compreender a importância do trabalho em equipa e da partilha de conhecimentos e permitir-lhes-á encontrar soluções criativas e ideais novas para os problemas propostos.
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