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referentes ao suposto falso nacionalismo do “comunismo”, e que tentavam desconstruir a imagem positiva que era criada a seu respeito. Nesse sentido, o “comunismo” como sistema progressista, de esquerda e nacionalista era visto como uma “mistificação” criada pelas minorias ativas para confundir a opinião pública e seduzir a população, para defenderem um sistema que supostamente traria “justiça social” e era oposição ao sistema capitalista, de acordo com o que os autores pensavam a respeito das idéias das esquerdas. Assim, estas referências abriam espaço para a relativização do conceito de esquerda e direita, progressista e conservador, ou nacionalista e “entreguista”, matizando cada uma destas concepções. De acordo com o empresariado vanguardista, os “comunistas”,

na atualidade, revelando incoerência, mascaram a influência soviética sob a capa do “Nacionalismo”. Mas, o nacionalismo que pregam é sui-generis, pois é

455 DEMOCRACIA E EMPRÊSA. Editorial. Porto Alegre, v. 2, n. 11-12. op. cit., p. 1. 456 Idem.

457 Idem.

orientado visando produzir o enfraquecimento do bloco democrático, pela aversão aos Estados Unidos – principal adversário do bloco comunista-socialista; visa fomentar o sentimento duma independência fictícia, procurando incutir a tese de que todos os que podem ajudar o farão com o intuito de nos subjugar e nos espoliar. O objetivo máximo dos “Nacionalistas” é levar o povo à idéia de que o responsável por todos os nossos males são os Estados Unidos e que a União Soviética nos espera de “braços abertos”.459

A concepção de que o “comunismo” se “esconde” atrás de uma fachada de nacionalismo está ligada não só às polêmicas sobre o desenvolvimento econômico que fervilhavam desde os anos 1950 com a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), mas também com a questão do capital estrangeiro, que será discutida de forma mais aprofundada no capítulo seguinte, no tema “Problemas Econômicos”. Adiantamos que o capital estrangeiro era visto com bons olhos pelos IPÊS e pelo IPESUL, e criticavam as esquerdas por afirmarem que este tipo de capital era um dos principais motivos da “espoliação” do país, defendendo o capital nacional e as estatizações. Estas idéias inserem-se na polaridade que se formou desde os anos 1950 entre “nacionalistas” e “entreguistas”, que se intensificou com a criação da PETROBRÁS por Getúlio Vargas. Portanto, os “comunistas” teriam como estratégia golpear a “democracia” através de campanhas “nacionalistas” que, compreendidas de modo geral pela população como positivas em contraposição aos “entreguistas”, na verdade apenas disfarçariam a influência direta da União Soviética para que o “comunismo” fosse implantado no Brasil. É afirmado, em outro texto, que a liderança “marxista” é hábil “em coagir os adversários, apontando-os como vendilhões da pátria a serviço das potências estrangeiras. Com isso, freqüentemente, consegue submeter as maiorias desunidas a um processo de ‘nacionalismo coagido’”460. Ou seja, havia um processo de

convencimento de que as multinacionais causariam parte dos problemas econômicos do país. No entanto, o que parece ser problemático na interpretação dos empresários a respeito deste “convencimento” nacionalista, é o fato de imaginarem que as esquerdas tratavam empresas multinacionais fixadas no Brasil e empresas privadas associadas ao capital estrangeiro do mesmo modo. Correta ou não, o importante é que esta interpretação implica existência de um posicionamento de esquerda coeso e unificado, grau de organização que nem os grupos anticomunistas nem os ipesianos lograram construir. Por outro lado, em alguns artigos da DE são feitas diferenciações em relação às matrizes do “comunismo”, fosse maoísta, leninista, etc., mas não constituíam a regra. De acordo com Rodrigo Patto Sá Motta, “a postura

459 DEMOCRACIA E EMPRÊSA. Slogans. op. cit., p. 2. Grifos no original.

460 SIMONSEN, Mário Henrique. As tensões nacionalistas. Democracia e Emprêsa, Porto Alegre, v. 1, n. 7, p.

nacionalista que os comunistas procuraram defender em alguns períodos, marcada pela denúncia do imperialismo e afirmação da necessidade de fortalecer o Estado nacional, foi atacada pelos anticomunistas [...]”461. Como argumentamos anteriormente, o empresariado

vanguardista considerava esta atitude dos “comunistas” apenas uma fachada que encobria suas verdadeiras intenções.

Além disso, há uma questão importante a respeito das esquerdas, direitas e suas discussões sobre as reformas de base: “serão progressistas os que desejam reformas de base? Mas, quem não as deseja? [...] Desde quando será esquerda aplaudir tiranias e deixar que elas

se introduzam no Brasil?”462. A primeira parte evidencia o debate comum sobre as reformas

de base, tanto por parte das esquerdas como das direitas. A questão não era negar a necessidade de fazê-las, mas debater o modo de fazê-las. Quanto a isso, os diversos setores divergiam, embora houvesse pontos de contato.463 A reforma agrária, por exemplo, era um

ponto sensível da discussão. Tão sensível que muitas pessoas, principalmente ipesianos, pensavam ser necessário realizar uma reforma agrária no Brasil, mas de acordo com seus critérios. Esta postura, embora minoritária, pois os ipesianos se consideravam uma espécie de vanguarda do empresariado, teve grande influência no debate político posterior. Inclusive houve uma tentativa de reforma agrária no governo de Castelo Branco, embora não tenha logrado êxito. Para cada proposta das reformas de base o IPÊS tinha uma contraproposta464,

publicada em grandes jornais brasileiros e também na revista DE, no intuito de divulgar seus projetos para o grande público e também para o empresariado. É claro que, para o IPÊS, a reforma agrária deveria ser realizada com indenização prévia dos grandes produtores, dentro da legalidade do período e sem tensionar mais ainda os conflitos agrários.

Ser “progressista” nos anos 1960, de acordo com a análise das esquerdas feita pelo empresariado vanguardista, era apoiar estatizações e ser “nacionalista”. Além disso, dizia-se que o mundo marchava inexoravelmente para o “comunismo”, pois este seria o sistema do futuro: “o mais poderoso aliado da Rússia Soviética é a doutrina de que ‘a onda do futuro’ nos leva para o socialismo e que, em conseqüência, é ‘progressismo’ simpatizar com tôdas as

461 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. op. cit., p. 32. Grifo no original.

462 MANTA, Antonio. Com quem está a razão? Democracia e Emprêsa, Porto Alegre, v. 1, n. 8, p. 46-49, mai.

1963. p. 49.

463 Sobre o posicionamento dos setores mais conservadores do Exército, do IPÊS e do IBAD e da UDN, ver

MENDES, Ricardo Antonio Souza. op. cit..

464 Os estudos produzidos e divulgados sobre as reformas de base compreendiam, por exemplo, os temas da

“Remessa de Lucros, Reforma Tributária, Habitação Popular, Reforma Eleitoral, Inflação, Reforma Constitucional, Reforma Agrária e Planejamento”. DREIFUSS, René Armand. 1964: a conquista do Estado. op. cit., p. 238.

medidas que restrinjam mais e mais o funcionamento da economia de mercado”465. É

importante observar que, se no período pré-golpe a intervenção do Estado nos rumos da economia era visto com algum receio, após o golpe ainda há o mesmo tipo de crítica. O que mudou foi principalmente o grau de agressividade da crítica contra a intervenção estatal na economia, sendo alta no pré-golpe e relativamente baixa após. É importante salientar que há multiplicidade de opiniões na revista DE, e críticas ao governo pós-golpe, inclusive ao seu caráter estatizante, não foram poupadas.

Há outra questão importante, relacionada à crítica do empresariado vanguardista aos “progressistas” e à solução “comunista”:

Sob êste aspecto, muitos que se dizem de esquerda, resultam mais reacionários porque se apegam ao velho conceito totalitário do Estado que domina tudo, mais conservadores porque se opõem a tôda evolução e mais anti- revolucionários porque impedem a nova revolução dos espíritos para o reencontro com a liberdade, com a exaltação de dignidade, com o espírito de fraternidade e cooperação internacional.466

Portanto, revolucionária mesmo seria a “democracia”, pois é ela quem estaria evoluindo para um sistema que não era nem individualista nem coletivista, mas uma “terceira via” que, supostamente, seria ideal para concretizar a “justiça social” entre os brasileiros, idéia que já trabalhamos anteriormente neste capítulo. O Estado que abarca tudo fazia parte de uma idéia falsamente progressista, pois este era estático e carecia da dinâmica que o empresariado de vanguarda imprimia à suposta renovação da “democracia”.