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Essa revisão teve como objetivo identificar estudos brasileiros que apresentem impactos das AEEs sobre seus participantes no desenvolvimento físico, cognitivo e socioemocional em quatro artigos selecionados a partir dos critérios preestabelecidos. Dentro dos resultados encontrados, observou-se a existência de pesquisas sobre os impactos destacados, respectivamente, o estudo de Fonseca et al. (2010), Cortês-Neto et al. (2010) e Machado et al. (2007), e Carvalho e Carlini-Cotrim (1992).

O número de trabalhos levantados evidencia que a investigação sobre os efeitos das AEEs ainda não ganhou proeminência na agenda de pesquisa do Brasil, apesar da abrangência dos descritores utilizados. Dado que o desenvolvimento de projetos e programas, voltados para crianças, adolescentes e jovens, tem ganhado destaque nos últimos anos, principalmente, pela sua articulação com a educação de tempo integral, torna-se pertinente a realização de investigações que demonstrem quais os efeitos dessas ações a fim de contribuírem na elaboração de programas/projetos eficazes.

Notam-se entre os quatro artigos similaridades com relação à expectativa dos efeitos das AEEs. As hipóteses subjacentes e sobrejacentes destacam a perspectiva de que os efeitos das atividades seriam positivos e que haveria discrepâncias significativas entre seus participantes e não participantes. O estudo de Carvalho e Carlini-Cotrim (1992) demonstra informações nesse sentido em relação aos frequentadores de atividades religiosas que ingerem menos álcool e drogas quando comparados aos que não frequentam práticas vinculadas às religiões. Porém, os autores destacam que isso se

deve mais aos aspectos morais, presente nas doutrinas, do que sua frequência per si às atividades. Observa-se que as conclusões do estudo são contrárias às explicações acerca de como as AEEs impactam na não utilização de substâncias lícitas ou ilícitas. Isso conduz à mudança no foco da discussão da questão fazer versus não fazer atividades fora da escola, mas sim “para a do como fazer, tendo como pressuposto que um jovem realizado em suas potencialidades (e não apenas ocupado, ou assimilando padrões e códigos)” (Carvalho e Carlini-Cotrim, 1992) deveria ser o principal objetivo de projetos e programas que atendem a crianças, adolescentes e jovens. Cortês-Neto et al. (2010), encontraram diferença significativa no desempenho de português dos participantes de um programa social, o que remete a eficácia do mesmo. Machado et al. (2007) mostram dados que apontam impactos positivos quando relatam que os participantes do projeto investigado diminuíram os índices de estresse infantil. Ou seja, há indícios de que, assim como em outros países, as AEEs brasileiras possuem efeitos positivos.

O baixo número de pesquisas sobre estudantes em escolas de tempo integral, especificamente no que tange ao seu desenvolvimento acadêmico, destaca a importância de serem iniciadas investigações sobre o tema. Principalmente, pelo fato de que a ampliação da jornada escolar tem acontecido de forma recorrente no Brasil. Mas nem sempre com estratégias eficazes (Coelho, 2009). A indicação de que os estudantes de escolas de tempo integral não apresentaram bons resultados relacionados à aptidão física, que seria resultado da participação em AEE, como destacado por Fonseca et al., (2010), indica certa urgência em saber de fato quais, caso existam, os impactos da permanência de crianças e adolescentes em atividades no contraturno escolar.

O questionamento da eficácia dos projetos brasileiros não significa depreciação de seu valor protetivo para seus atendidos. A principal característica dessas ações pauta- se na necessidade de atender a pessoas desfavorecidas economicamente e moradores de áreas onde a vulnerabilidade social é marcante. Há concepções implícitas voltadas para atender e suprir necessidades a que o Estado, através de suas políticas públicas, é omisso. Ou seja, essas ações têm um valor que é o de proteger o público atendido e proporcionar experiências que, muitas vezes, serão possíveis apenas por estar inscrito e frequente a projetos sociais ou em escolas de tempo integral. Fatos nesse sentido ocorrem quando são proporcionados, por exemplo, contatos com instituições culturais como cinema, teatro, exposições (Paro, Ferreti, Vianna & Souza, 1988a; 1988b). Mensurar esse tipo de efeito não é tarefa simples e requer elaboração de estratégias metodológicas que considerem essas questões. Machado et al. (2007) indicam a

necessidade de se criar instrumentos que contemplem essa área de pesquisa. O desafio não é particularidade do contexto brasileiro, pois, pesquisadores de outros países têm destacado que a identificação dos impactos dessas atividades não é tarefa fácil e nem sempre há consenso nos resultados encontrados (Roth et al., 2010).

O principal efeito que pode ser destacado das ações desenvolvidas fora da escola para crianças, adolescentes e jovens é o da proteção social. Especificamente em relação a esse aspecto não há o que se discutir. O fato de serem oferecidas alternativas de cuidados a esse público, sobretudo, daqueles que tanto os pais como as mães estão inseridos no mercado de trabalho, já evidencia a importância e necessidade desse tipo de ação. No entanto, a simples frequência a essas atividades é insuficiente para impactar aspectos que ultrapassam a proteção do público atendido. Ao se observar os porquês que as atividades relatadas nos quatro artigos analisados teriam impactos positivos sobre seus participantes, a justificativa que se sobressai é a de que aquilo que é desenvolvido nos projetos proporciona aprendizagens comportamentais e cognitivas que se relacionam com habilidades importantes para outros contextos, por exemplo, o escolar e o familiar. Com isso, a principal pergunta, dentre inúmeras, que deriva dessa consideração passa por aspectos teóricos e metodológicos: de que forma ocorrem e como identificar esses impactos? Diversos autores têm destacado que, para se entender os efeitos dessas ações, torna-se essencial a adoção de perspectivas ecológicas (Durlak et al., 2010; Mahoney et al., 2005).

Dos 52 artigos analisados integralmente, 32 utilizaram delineamentos exclusivamente qualitativos e discutiam questões diversas, sendo que os fatores avaliação de programas/projetos e impactos sobre seus participantes não se destacam. Essa informação ressalta a possibilidade de haver certa resistência na avaliação de resultados dessas ações, através de métodos quantitativos que não se solidificaram e nem ganharam abrangência no país nos estudos em educação (Tréz, 2012). Área que se vincula fortemente com os programas/projetos realizados fora da escola, como já evidenciado. O que, em certa medida, explica a preterição por essas estratégias investigativas. Gatti (2004, p. 13) destaca que “os métodos de análise de dados que se traduzem por números podem ser muito úteis na compreensão de diversos problemas educacionais”. Ao mesmo tempo, utilizar esse tipo de dado com outros provenientes de métodos qualitativos pode ser útil e ainda enriquecê-los. Nos quatro trabalhos analisados, é unânime a opinião de que novos estudos devem ser realizados. A

interlocução entre diferentes metodologias contribuirá, significativamente, para o entendimento dos efeitos das atividades e programas realizados fora da escola.

Com exceção do trabalho de Fonseca et al., (2010), todos os trabalhos analisados nesta revisão relatam atividades desenvolvidas por ONGs ou em parceria com esse tipo de instituição. Costa, Silva e Bonan (2011) mostram que o aumento de trabalhos desenvolvidos por ONGs é desacompanhado de estratégias avaliativas. O que traz preocupações pela ausência de dados com relação aos impactos das ações promovidas por elas, bem como pela aplicação dos recursos financeiros dessas entidades que provêm – na sua grande maioria – de órgãos governamentais ou da isenção de impostos. Dessa forma, trata-se de financiamento público. Ao considerar que as AEEs no Brasil, estão atreladas a essas instituições, encontram-se explicações para a ausência das informações investigadas nesta revisão que culminou com o levantamento de apenas quatro artigos em um universo de 2.773.