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Conforme afirma Whitworth (2010), o fenômeno estético do modernismo deve ser entendido em relação aos fenômenos históricos e sociais da época. De acordo com Wilson (1969, p.269), cerca de vinte anos antes do reinado da rainha Victoria acabar, em 1901, o espírito do otimismo, dúvida e culpa característicos da era vitoriana já começavam a dar lugar ao pessimismo, a tentativas de busca de um substituto para a religião, para o preenchimento de um vazio espiritual.

Conforme Wilson (1969, p.270), na busca de um substituto para a religião, a literatura trouxe como temas o hedonismo – o culto ao prazer, da arte pela arte – por meio da escrita de Walter Pater (1839-1894) e de Oscar Wilde (1856 – 1900), o imperialismo – que valorizava os soldados que mantinham a paz no Império, destacava “a responsabilidade do homem branco com seus irmãos que, apesar da diferença de cor ou credo tinham apreço pela mesma rainha; o valor de um Império como o criador de uma nova, rica civilização”39 – cujo expoente foi Rudyard Kipling

(1865 – 1936), e, o liberalismo – “a crença de que o futuro do homem está na terra, não no céu, e que, com o progresso científico e social, um paraíso terrestre pode

39 “[...] the white man’s responsibility to his Brothers who, despite difference of colour and creed,

acknowledged the same Queen; the value of an Empire as the creator of a new, rich civilization” (WILSON, 1969, p. 270).

eventualmente ser construído” (WILSON, 1969, p. 274)40

. O pessimismo era uma constante nas novelas e, para Mair e Ward (1960, p.204), a característica literária dos primeiros anos do século XX é o renascimento do drama.

Com o acontecimento da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o renascimento do drama inglês, que começara a ressurgir no início do século, foi desestimulado; havia uma preferência pelo teatro. Nesta cena, as peças de Shakespeare, John Gay e Bernard Shaw movimentavam os teatros (MAIR e WARD, 1960, p. 210 e 211). Quanto à busca para algo em que acreditar, a segunda leva de autores que vieram no pós-guerra, não se satisfez com o hedonismo ou liberalismo – queriam algo mais profundo.

A Inglaterra sofreu diversas crises durante os anos entre as guerras mundiais “uma greve geral, colapso financeiro, desemprego crônico em grande escala, a abdicação de um rei, a deterioração progressiva das relações estrangeiras”41

(MAIR e WARD, 1960, p. 223 e 224). Para Mair e Ward (1960), em um contexto como este, uma literatura lúcida e saudável não tinha muito espaço para florescer – escritores caiam em controvérsia e seus talentos eram usados para fins de propaganda política. Contudo, Virginia Woolf conseguiu destacar-se na literatura contemporânea. Seus “romances são, na verdade, poemas vestidos em prosa, como ela mesma era destinada a usar as roupas de uma época em que ela era um exílio”42

(MAIR e WARD, 1960, p. 224).

As relações na época do modernismo na Inglaterra eram complexas, e, segundo Whitworth (2010, p. 108), os escritores tinham consciência das semelhanças e diferenças entre si. O termo “modernismo” veio a ser usado somente depois da Segunda Guerra, sendo que na época de Woolf, vigorava a expressão “o movimento moderno”. Whitworth (2010, p. 108) ainda afirma que Woolf tinha consciência de que fazia parte de um movimento literário e das diferenças entre as

40 [...] the believe that man’s future lies on Earth, not in heaven, and that, with scientific and social

progress, an earthly Paradise may eventually be built”. (WILSON, 1969, p. 174)

41 “a general strike, financial collapse, chronic large-scale unemployment, the abdication of a king, the

progressive deterioration of foreign relations”. (MAIR e WARD, 1960, p. 223 e 224)

42 “Her novels are, in truth, poems dressed in prose, as she herself was fated to wear the clothes of an

gerações literárias. Ela costumava usar o termo “os modernos” em vez de se referir ao movimento como “modernismo”.

Contudo, essa nova forma de ver e fazer a literatura na Inglaterra também teve influências externas, que inspiraram os escritores ingleses (bem como outros artistas). De acordo com Mahaffey (2013, p. 36), o romance sofreu uma mudança de foco e estilo pouco antes da virada do século XX. O francês Édouard Dujardin (1861- 1949) desenvolveu uma técnica na escrita de Les lauriers sont coup´es (1887), em que o foco é o mundo interior.

De acordo com Alves (2002, p. 20), o filósofo William James (Estados Unidos), formado em medicina em Harvard, publicou sua pesquisa Principles of

Psychology (1890), em que afirma que a consciência seria como um fluxo contínuo

a stream of consciousness43 – um rio corrente em que eventos presentes e passados se relacionam em um movimento “ininterrupto e multissígnico de sentimentos e impressões vivenciadas pelo indivíduo – visuais, auditivas, físicas, associativas, subliminais – que, juntamente com o pensamento racional, comporiam o processo da consciência”.

Na Inglaterra, John Lehmann (1989, p. 48) salienta que a técnica do fluxo de consciência já havia sido utilizada por Richardson e Joyce antes de Woolf. Porém, a questão sobre as influências de uns autores sobre outros, já há muito discutida, o leva a constatar que, “a ideia de empregar tal técnica estava claramente ‘no ar’; era parte de uma nova percepção que os romancistas e poetas do pós-guerra, de maior sensibilidade, procuravam expressar”. Além disso, a maneira como cada escritor desenvolveu o uso da técnica é diferente:

Dorothy Richardson nunca encontrou uma solução adequada para o problema de seleção e estrutura que a técnica do ‘fluxo da consciência’

43

De acordo com o Dictionary of Literary Terms (SHAW, 1972, p. 359), o termo stream of consciousness é entendido como “a manner of writing in which a character’s perceptions and thoughts are presented as occurring in random form. In this technique, ideas and sensations are revealed without regard for logical sequences, distinctions between various levels of reality (sleep, waking, etc.), or syntax. Stream of consciousness, a phrase coined by William James in his Principles of Psychology (1890), attempts to set forth the inner thoughts of a character in the seemingly haphazard fashion of everyday thinking. This method of writing has been used by many authors, among them James Joyce, Virginia Woolf, Dorothy Richardson, and William Faulkner.”

apresenta. Nos curtos ensaios de Monday or Tuesday, Virginia tentou algo que acompanharia o espoucar da mente, de uma sequência de pensamento para outra; mas mesmo nesses esboços há menos incongruência do que poderia parecer numa primeira leitura.

Diversos autores foram influenciados pelo fluxo de consciência, que o levaram à literatura por meio de diferentes técnicas. Uma delas é a apreensão dos pensamentos de algum personagem por meio do monólogo interior. É como se o autor estivesse reproduzindo um diálogo (nesse caso, um monólogo) que se passa na mente de uma personagem. Woolf apropria-se deste recurso para criar Mrs.

Dalloway, o que pode ser visto mais adiante nesta dissertação.

O monólogo interior é a apresentação da sequência de pensamentos das personagens que

permite ao escritor explorar o movimento da consciência e capturar os pensamentos no momento mesmo de sua concepção, podendo ser expresso tanto em primeira pessoa, pela própria personagem, ou em terceira pessoa, onde haveria a inclusão de expressões como ‘ele pensou’; ‘ela refletiu’; etc. (ALVES, 2002, p. 21)

O impressionismo, que é a reprodução de percepções e sensações na escrita, que despertam emoções no leitor, também se faz presente na escrita de Virginia Woolf. Conforme Mair e Ward (1960, p. 224), ela

inventou um instrumento literário mais sensível do que qualquer outro existente antes, um instrumento responsivo a cada vibração dos sentidos, contudo leve. Ao lê-la, cada percepção é aguçada; se vê, ouve, toca, degusta e cheira por meio das sensibilidades despertadas.

Conforme Read (1952, p.156), por meio do monólogo interior se atinge o último estágio do impressionismo. Outra característica importante do impressionismo é o ritmo que é ditado pelo uso de rimas, aliterações (repetição de um fonema nas palavras de uma frase, obtendo um efeito estético) e o uso deliberado da pontuação. Mahaffey (2013) aponta que a impressão que se tem quanto ao termo “fluxo de consciência”, advindo da psicologia e que evoca cognição, é a de que a técnica literária descrita tem a mente do indivíduo como foco. Entretanto, essa visão é limitada e, tanto Dujardin quanto Joyce alegaram que seu interesse era na alma de seus personagens, e não na mente. Mahaffey (2013, p. 37) explicita que a ideia da

alma é “mais ampla que a mente, porque ela designa não apenas pensamentos que ocorrem em níveis diferentes de consciência que estão constantemente sobrepondo imagens do passado e do futuro no presente, mas também emoções e percepções”44

. Assim, o romance passou a se aproximar mais do drama, da poesia e da música, oferecendo ao leitor “uma experiência mais variada e intensa da “alma” de uma personagem, no fluxo do momento presente”45

(MAHAFFEY, 2013, p. 37).