Kapittel 2. Det sivile samfunn i Skandinavia
2.1. Sivilsamfunnet i Skandinavia: et historisk perspektiv
A forma de organização, o planejamento e a realização coletiva do trabalho do assentamento Conquista na Fronteira permite satisfazer a necessidade de alimentação de todas as famílias assentadas. O Coletivo de Trabalhadores Rurais Sem Terra produz, de forma coletiva, permanente, diversificada e sem assistência técnica, quantidades constantes e suficientes de alimentos sem agrotóxicos que garantem a satisfação da necessidade de alimentação das 43 famílias assentadas.
Desde que chegaram à terra conquistada, após anos de luta, de fome e de precariedade, as famílias de Trabalhadores Rurais Sem Terra propuseram-se, antes de tudo, a produzir sua comida. Feijão, mandioca, algumas hortaliças e carne de porco foram, nos primeiros anos, os alimentos que integravam sua dieta. Hoje, produzem a maioria dos alimentos que integram os pratos da culinária rural desta região, não precisando ter dinheiro para garantir às famílias uma alimentação equilibrada e sem agrotóxicos. Os assentados afirmam:
A questão da subsistência, da alimentação é uma prioridade e as outras são para geração de renda. (...) A subsistência, custe o que custar, ela é prioridade. Quando falo de subsistência falo da horta, que lá se produz qualquer tipo de hortaliça: feijão, arroz, batatinha, mandioca, alho, cebola, isso faz parte da alimentação, isso é sagrado, não olhamos preços no mercado para nada, isso as famílias têm que ter.48
No assentamento Conquista na Fronteira são produzidos os diferentes grupos de alimentos necessários para uma equilibrada e suficiente alimentação das famílias. São cultivados grãos, hortaliças, leguminosas e frutas; são criados porcos, bois e vacas, frangos e aves de postura, existindo ainda uma horta comunitária, Há um aviário com 300 aves para a produção de carne e de ovos, 35 colméias 49 que produzem
48
Entrevista 13. Conselho Diretor. 26 anos no assentamento. Assentamento Conquista na Fronteira, MST, 25 de Março, 2015. (Assentado, Conselho Diretor, 2015).
49 Da produção apícola, se entrega a cada família 5 quilos de mel, o restante é
850 quilos de mel e 300 quilos de própolis, além de um engenho em que transformam a cana em melado e açúcar mascavo. Além disso, nas casas, cada família tem uma vaca leiteira, porcos, galinhas e outras aves, hortas complementares e pomar com diferentes frutas.
Conforme a informação fornecida pelo setor de controles e custos, não se dispõe de registros das quantidades de todos os alimentos produzidos pela equipe de alimentação em cada safra, mas pelo que se conseguiu observar, todos os produtos fundamentais para a alimentação das famílias são produzidos dentro do assentamento, pela equipe de alimentação. Planta-se feijão, arroz, milho, batatinha, mandioca, alho, cebola, amendoim; na horta se produz tomate, berinjela, nabos, repolho, alface e diversos tipos de temperos. Cada mês abatem onze porcos e a cada sessenta dias abatem quatro vacas.
Destaca-se também que as mulheres sabem preparar uma diversidade de outros alimentos derivados destes produtos. Em suas casas, elas fazem salame, lingüiça, queijos, nata, manteiga, molhos, bolos, cucas, bolachas, produtos com os quais preparam deliciosos e variados pratos; fazem, inclusive, sabão, tendo apenas que comprar óleo, sal e farinha de trigo para fazer pão e diferentes tipos de massas.
Os alimentos produzidos para a alimentação das famílias são distribuídos imediatamente depois da colheita, segundo as necessidades das famílias. Existe um registro de controle de entrega que leva em conta o custo de produção dos grãos e da carne, mas todos os produtos da horta são de acesso livre e sem nenhum tipo de controle de custos. A estocagem das verduras, de carnes e grãos para a alimentação das famílias é feita nas próprias casas. Já a armazenagem dos grãos e a silagem para a alimentação dos animais se faz num espaço comum da cooperativa, conforme relato dos entrevistados:
A cooperativa produz, colheu, faz um levantamento das famílias e se entrega às famílias. No ano passado nós colhemos 1.600 sacos de feijão, então, para a família se faz um levantamento de quanto tem que ser entregue a cada família, é tanto, se divide imediatamente, cada um vai levar o seu para sua casa. A estocagem é feita em casa, não na Cooperativa. Lá
remédios. Na safra passada, produziram mel para um ano e a meta de 700 quilos foi superada com a produção de 850 quilos. O mel não é comercializado porque falta a certificação da inspeção municipal.
na Cooperativa tem um lugar para guardar a semente para o próximo ano. Em termos de subsistência não se estoca, mas quando é para produção em escala, se armazena milho, soja, se não tem lugar dentro da Cooperativa se armazena fora. Para tratamento dos animais é estocado para todo o ano, para a silagem. Tem estocado para um ano, por cada planejamento.50
Em conseqüência, as famílias do assentamento não têm medo da fome, elas têm certeza de que durante todo o ano vão ter comida e água potável em suas casas, em quantidades suficientes para alimentar todos os membros da família. A realização coletiva do trabalho e a organização e o planejamento coletivo da produção garantem a alimentação das famílias, independentemente da renda disponível, do abastecimento e dos preços dos alimentos no mercado. A este respeito perguntou-se: “nos piores dos panoramas que vocês já atravessaram, alguma vez esteve ameaçada a alimentação das famílias?” E eles responderam:
Não, nunca. Tu tens que produzir com excedente, você produziu arroz este ano e o ano que vem não produziu arroz, mas você tem estocado51.
Nunca tivemos problemas, tudo foi produzido segundo o ciclo de cada cultura. Para produzir, por exemplo, a batatinha, é 2 ou 3 meses só, não dá para o ano, mas aí temos outras coisas, mandioca, feijão. Se não dá para fazer certa atividade, se discute nas equipes dos coordenadores e aí se leva na Assembleia para o povo saber que não deu para fazer aquela atividade que foi planejada e todo mundo fica sabendo o motivo. E aí as pessoas teriam que comprar, mas isso acontece pouco, hoje, a principal dificuldade é com o arroz, porque não produz, tentamos, mas não veio, mas as outras
50 Entrevista 13. Conselho Diretor. 26 anos no assentamento. Assentamento
Conquista na Fronteira, MST, 25 de Março, 2015. (Assentado, Conselho Diretor, 2015).
51
Entrevista 7. Conselho Social e Político. 27 anos no assentamento. Assentamento Conquista na Fronteira, MST, 21 de Março, 2015. (Assentado, Conselho Social e Político, 2015).
coisas, tudo é plantado e comido aqui dentro mesmo.52
A alimentação dos animais que lhes fornecem a carne também está assegurada, no mínimo, por um ano, segundo as informações obtidas:
A selagem é feita uma vez por ano e estoca. O que este ano foi feito, por exemplo, vai dar praticamente para dois anos. Nós achamos que a silagem que está pronta passa de um ano e meio, é capaz de chegar a dois anos e aí vai para o gado de leite, talvez para o gado de corte falte um pouco.53
Por exemplo, este ano nós fizemos em torno 7 a 8 mil sacas de milho em silagem, é um número muito grande, temos praticamente para dois anos, a alimentação das vacas está garantida. Tu tens que prever, a silagem dá em duas épocas, então, este ano, nós fizemos tudo numa época só, plantemos numa área grande e garantimos, mas geralmente, se não dá para fazer na primeira, no cedo, dá na segunda, no tarde, para garantir, de uma forma ou de outra, a produção. Tem que garantir. A única coisa que tu não garante é a produção de arroz, é muito difícil aqui no Brasil. Tu plantas no cedo, se deu uma seca, tem que ir buscar fora. O clima é muito variável.54
No que se refere ao balanço da última safra, à exceção do arroz, produziu-se tudo o que foi planejado para o ano agrícola de 2014-2015 na equipe de alimentação. Não se apresentam dificuldades com a
52 Entrevista 4. Coordenador equipe Alimentação e Reflorestamento. 26 anos
no assentamento. Assentamento Conquista na Fronteira, MST, 18 de Março, 2015. (Assentado, Coordenador Equipe Alimentação e Reflorestamento, 2015).
53 Entrevista 9. Coordenador equipe dos Grãos. 22 anos no assentamento.
Assentamento Conquista na Fronteira, MST, 23 de Março, 2015. (Assentado, Coordenador equipe dos Grãos, 2015).
54
Entrevista 13. Conselho Diretor. 26 anos no assentamento. Assentamento Conquista na Fronteira, MST, 25 de Março, 2015. (Assentado, Conselho Diretor, 2015).
quantidade, qualidade e constância dos alimentos produzidos. Desde a percepção dos assentados, o abastecimento dos alimentos se manteve igual, ou melhor, houve avanços importantes na qualidade da horta e foram experimentadas estratégias para o controle de pragas e a fertilização do solo sem o uso de insumos químicos. As dificuldades apresentadas estão relacionadas com a insuficiência no número de trabalhadores na equipe de trabalho, a falta de financiamento da produção para a alimentação, as doenças nas plantas e as falências na adubação do solo. Segundo o coordenador da equipe de alimentação:
A dificuldade é que não temos recursos para nós produzir, hoje estamos produzindo de nossas próprias forças, não tem recurso financeiro. Temos a terra, mas estamos precisando muito adubo, tipo calcário, e hoje não se tem uma política de financiamento para este setor. Por enquanto, nós usamos o adubo que nós temos, do tipo: do estábulo, dos potreiros, o capim, o que não queremos é tentar com adubo de aviário nem adubo químico. Hoje, nosso planejamento é plantar tudo sem tóxicos. O esterco do estábulo não é suficiente, precisaríamos dinheiro para comprar adubo orgânico.
E aqui não tem capacidade de produzir adubo orgânico?
Não.55
Na perspectiva do coordenador, o desafio da equipe de alimentação para o próximo ano é garantir sempre a alimentação sem agrotóxicos de todos dos trabalhadores Sem Terra que estão assentados e de seus filhos, procurando aumentar a produção.
Assim, as famílias de Trabalhadores Rurais Sem Terra assentadas no Conquista na Fronteira, mediante a propriedade coletiva da terra e dos meios de produção, a organização e realização coletiva do trabalho, conseguiram produzir, de forma coletiva e planejada, uma diversidade de alimentos sem agrotóxicos que lhes permite, hoje, estar protegidos da fome. Os assentados neste lugar têm a permanente certeza de que terão
55 Entrevista 4. Coordenador equipe Alimentação e Reflorestamento. 26 anos
no assentamento. Assentamento Conquista na Fronteira, MST, 18 de Março, 2015. (Assentado, Coordenador Equipe Alimentação e Reflorestamento, 2015).
os alimentos e a água potável necessária para satisfazer sua necessidade de alimentação e a de seus filhos durante, no mínimo, um ano. A fome, no assentamento, não existe.