51 XII. Lager
38. Sivil luftfart
O religioso ou espiritual deve ser mantido sempre em mente ao lidarmos com a consciência puer, pois esse é o substrato arquetípico de cada problema puer. (HILLMAN: 1999, p. 7)
Como já visto, a perda das grandes narrativas na Pós-modernidade colaborou para a formação de um ser perdido e inseguro, para quem a religião se torna uma possibilidade de conexão de vida, além de um guia neste mundo, para ele sem sentido.
Se o fenômeno religioso é, antes de tudo, um fenômeno da cultura e a cultura é a expressão de uma sociedade, isto explica, de certa forma, o desdobramento dos novos modelos religiosos neopentecostais nas mídias, advindos de uma “aspiração coletiva ao estabelecimento de uma autoridade que aliviaria da angústia, dizendo, novamente o que se deve, o que não se deve fazer, o que é bom e o que não é” (MELMAN: 2003, p. 38).
Igrejas como Renascer em Cristo, Pentecostal Deus é Amor, Igreja Internacional da Graça, Igreja Evangélica o Brasil para Cristo e a Igreja Universal do
Reino de Deus trabalham com a “Teologia da Prosperidade49” que assegura o direito
de seus seguidores a uma vida repleta de realizações financeiras, amorosas e sociais, além de saúde plena. Essa teologia está centrada no livro de R.R. Soares, pastor da Igreja Renascer: “Como Tomar Posse da Benção” e que sugere que o indivíduo deixe de ser passivo nas orações e utilize frases como “eu ordeno” “eu determino, etc., alegando que o prazer deve ser conquistado aqui e agora, sentimento típico da adolescência e acentuado no puer.
A procura do indivíduo puer também se dá por quem lhe dê segurança, aponte os caminhos a serem seguidos e por quem demonstre autoridade. Neste sentido, Charles Melman pontua que:
As seitas oferecem à demanda popular o que nossas democracias e nossas organizações políticas não podem mais propor, mas do que conservam a nostalgia: um mestre! Eis o que elas oferecem: um mestre um patrão, um guia (...) alguém que permite à (sic) você não mais se confrontar com a dúvida, com a escolha, com a responsabilidade, que alivia você da existência. Você tem apenas que segui-lo, obedecê-lo. Terminado o livre arbítrio, você tem que se referir inteiramente e plenamente aos mandamentos prescritores. (2003,p. 166)
No capítulo anterior foi visto que, segundo Dan Killey, psicoterapeuta autor do livro “A Síndome de Peter Pan: Homens que nunca crescem”, são características deste indivíduo apresentar rasgos de irresponsabilidade, além de dificuldades em assumir as consequências de seus atos, viver por muito mais tempo em sua base familiar evitando, assim, as responsabilidades de uma vida adulta. Também as tele religiões, principalmente as neopentecostais, contribuem neste sentido, na medida em que seu discurso tende a tirar de seus seguidores a culpa pelos seus erros e derrotas, direcionando-os a entidades “malévolas” que interferem negativamente em suas vidas. Direcionam os fiéis, através da Teoria da Prosperidade, pelos “melhores caminhos a serem seguidos”. Neste sentido, as tele religiões prosseguem, prometendo prosperidade e um porto seguro. Se comparadas às vantagens que o fiel teoricamente adquire com o esforço por ele empreendido, no caso acompanhar os cultos (do sofá) e contribuir financeiramente com a causa, a relação é realmente atrativa:
49 A Teoria da Prosperidade é uma teologia adotada por alguns grupos religiosos, especialmente os neopentecostais que pregam a prosperidade material e terrena dos fiéis que se voltam a Jesus, através da participação nos cultos e donativos à Igreja, conforme livro Imagens de Culto, Imagens da Mídia de Alberto Klein, 2006.
Marcando sua presença no rádio e na televisão, essas igrejas fizeram e fazem muito barulho, prometendo curas, saúde financeira e sucesso nas relações amorosas. ‘O filho de Deus não deve e não pode passar necessidades’ é a sedutora mensagem do que se convencionou chamar de ‘Teologia da Prosperidade’ (KLEIN: 2006,p. 19).
Além do fato de que padres e pastores multimídias, jovens e dinâmicos, arrastam milhares de fiéis incentivados por suas promessas de felicidade e prosperidade “aqui e agora”, eles carregam consigo características pueri na forma de agir, vestir-se e comportar-se50, conforme citado no Capítulo I.
Ressalta Alberto Klein que “Na era da televisão o olhar se impregnou de uma maneira televisiva de enxergar as coisas” (2006, p. 224) e por ser um show televisivo segue alguns padrões de “sucesso” do meio: principalmente de juventude, beleza, simpatia, carisma, vitalidade e, como não podia deixar de ser, vaidade. Transforma- se o corpo-físico, real, em um corpo imagem que não vende apenas produtos para a publicidade, como estávamos acostumados. Ele vende ideologia religiosa e, para isto, utiliza-se também da eterna juventude e da cristalização da beleza. No esforço de tornar-se imagem, há uma preocupação excessiva sobre o próprio “eu”, mas, o corpo narcísico encerra-se em si mesmo, assim como o “adultescente”, que vive da imagem de eterna juventude.
Já que o espetáculo ocupou o lugar do ritual, para Contrera (2005, p. 9) “passa-se a buscar na visibilidade midiática, (...) a revelação perdida”. Afinal, conforme a frase que abre este capítulo, a religião faz parte de seu substrato arquetípico, procura-se a comunhão com o sagrado e não só a aparência religiosa. E por incrível que parece, há esta possibilidade através dos mídias. Segundo esta pesquisadora, a imagem possui função transcendente, e permite ao indivíduo sair de si e projetar-se, “principalmente quando o suporte dessa imagem é a luz, como no caso da mídia eletrônica. Por isso a relação tão intensa entre a televisão e a transcendência, por meio desse projetar-se no nada da luz da tela, para o nada além do ego conhecido”. (2005: p. 9-10)
Ilustração 5: Apóstolo Rinaldo em culto
Fonte: http://www.vice.com/read/jesus-surfed-for-your-sins, acessado em 18/01/2012
Para ratificar as características aqui descritas sobre as igrejas neopentecostais, serão trazidas algumas peculiaridades sobre a Igreja Bola de Neve Church, que em sua totalidade é representativa do fenômeno de que trata esta tese.