1 Innledning
8.1.3 Siviløkonomer
“Então a gente tinha que estudar, tinha que estudar, tinha que estudar.”
Quando perguntamos sobre experiências com preconceito na família, Regina responde que ela não lembra de ter sofrido, mas registra casos na família com a mãe e com o irmão. Ela considera os estudos a única forma de superação do preconceito, sendo a sua mãe, a figura familiar que impulsionou a todos os irmãos seguirem sempre estudando. O ocorrido com sua mãe, ela registra como uma questão racial, mas com o irmão ela tem dúvidas, tendendo a considerar que as rejeições sofridas por ele aconteceram mais em virtude da condição de pobreza, o que é esclarecido no relato abaixo:
Minha mãe, sinceramente! Ela teve muitos problemas de rejeição porque ela tinha casado com um negro. Na família dela, né. Então ela dizia muito pra gente assim: negro e pobre tem que estudar! Então o estudo para nós foi o único meio de hoje nós realmente sermos tudo o que nós queríamos. Pra alguém pode ser que eu não tenha nada, mas pra mim, eu tenho demais, graças a Deus! Todo dia eu agradeço, porque filho de pescador tinha duas saídas: ou ia ser pescador também, ou ia estudar para ser o que a gente queria.
A reflexão seguinte é sombreada por uma dúvida sobre qual tipo de preconceito recai sobre o irmão, e é exatamente a partir do forte incômodo que esta situação provoca, que a professora Regina descreve a atitude da mãe como uma guerreira que aposta no impossível, que corre risco, tendo como horizonte último a possibilidade de reverter o quadro de pobreza em que a família vivia.
Meu irmão tinha ido para Natal, porque em Macau onde eu nasci não tinha ensino médio. Ele começou a sofrer muita discriminação na casa da nossa mãe. Não sei se era racial. Era mesmo por falta de dinheiro. A sobrinha dela tinha mais dinheiro. Aí ela disse: a partir de hoje vou vender tudo aqui,
não tem mais escolha, porque eu quero que vocês estudem! Então pegou todo mundo! Porque às vezes na memória eu fico me lembrando... Meu Deus como foi isso que eu não me lembro muito bem? Eu sei que ela pegou todo mundo, botou num trem, porque não tinha dinheiro nem para a passagem de ônibus e trem era mais barato. E nós fomos todos para Natal, e ela nem tinha alugado casa! Então pra mim, pra todos nós da família isso foi muito
forte porque ela nunca estudou! Ela sabia muito mal escrever o nome dela, mas ela tinha tão segura essa história de educação! Então foi muito forte para a família. Então a gente tinha que estudar, tinha que estudar, tinha que estudar e todo mundo era assim e tal. Então saiu todo mundo para Natal, morar sem saber onde e chegou todo mundo assim e ela feito uma doidinha, coitada foi e arranjou uma casa, e meu pai sem emprego nem nada. Ela alugou a casa com o dinheiro que vendeu as coisas lá. Eu sei que até que a gente começou a estudar e pronto! Então o estudo para nossa família, e eu não estou falando eu sozinha, mas pra nossa família assim era realmente o meio!
No relato sobre o casamento com um francês, homem branco, Regina parece se sentir como que impelida a provar que tem dignidade, que precisa ser respeitada pelo que ela é. As desconfianças de que ela possa ser prostituta ou aproveitadora diante daquele homem branco são incômodas para ela. Esse tipo de constrangimento não é raro acontecer com pobres e negros, e a resposta é quase sempre a vontade de provar que mesmo sendo pobres e/ou negros, somos capazes, inteligentes, educados, ou seja, parece ficar claro que há um desejo de provar que é possível uma aproximação dos valores bem aceitos socialmente, ou seja, aqueles já prescritos pelos códigos valorativos das pessoas brancas. Observemos:
Quando eu eh, eu casei há 21 anos então meu esposo é francês muito branco e eu, aí sim, quando saía com ele, mas era uma coisa tão...! Porque eu, o que eu não queria era que as pessoas pensassem que eu tinha casado com meu marido porque eu era uma prostituta ou eu sendo preta e ele muito branco, e eu notava e ainda noto até hoje! Aí eu sinto discriminação se sair com meu marido. Ele é bem branco, bem alto, dos olhos bem verdes! Se eu saio com meu marido e se eu vou pedir algum, se eu vou pedir, assim comprar com ele, perguntam... Chego com ele, a pessoa num, num [...]. Aqui, inclusive em Fortaleza também as pessoas não falam comigo, vão direto para ele parece até que o dinheiro é dele, e o pior é que eles não sabem que o dinheiro é até meu, quem paga sou eu, mas eu num tô nem aí [...].
De acordo com Munanga (2003 p. 42), ao estudar as diferentes concepções de negritude, de afirmar-se negro com base na história: “Se existe um complexo de inferioridade do negro, ele é consequência de um duplo processo: inferiorização econômica antes, epidermização dela em seguida”, pondo em destaque o preconceito de classe.
Quanto ao recorrente “não estar nem aí”, embora seja uma estratégia comumente utilizada por alguns negros, não é algo bem resolvido, bem processado, porque paira no ar
uma dúvida dos brancos sobre a nossa capacidade intelectual, sobre nosso valor e competência, até sobre nossa dimensão afetos e emoções, permanecendo em nós, uma vontade de querer provar esse valor, e de mostrar nossa produção simbólica e material, buscando assim o reconhecimento do outro. Essas situações revelam preconceitos acumulados de raça e classe que para uma pessoa branca não ocorreria com a mesma intensidade.
A resposta da professora Regina em relação ao olhar descrente e desconfiado dos brancos foi estudar, estudar, estudar, da forma como declara em uma das passagens de sua narrativa, demonstrando a persistência, a constância na busca de alcançar através da escolarização o lugar socialmente significado, onde finalmente se ganha aceitação à altura do que uma sociedade branqueada exige. Vale registrar o relato abaixo, na íntegra, para evidenciar que ela parece mostrar que venceu uma grande batalha que parece sem fim:
[...] quando me casei, aí eu fazia questão de mostrar a aliança, que inclusive nem uso, mas você vê, é uma história também de cabeça, né. Aí eu mostrava, botava a mão assim para mostrar: “Olha, eu tô com esse gringo, mas eu sou casada!” E hoje eu nem me incomodo mais com aliança, tô nem aí! Quer dizer, também depende mais da pessoa, né, vai amadurecendo... Eu acho que você é discriminado, mas você também, sabe, se discrimina. Sei lá! É uma coisa de doido! Então, mas há discriminação racial realmente com relação ao meu a marido, até hoje eu sinto muito forte isso. Ele é muito chateado com isso, não na Europa, mas no Brasil. A gente viaja muito lá, mas aqui senti discriminação quando eu me casei, porque a família do meu marido é uma família muito... Tem condições, não sei o quê, e logo quando me casei eles pensavam que eu era uma negra brasileira sem dinheiro, que tudo isso não era verdade, mas a mentira era que eles pensaram que eu tinha me casado para morar na França ou para pegar o dinheiro da família dele, enfim... Então eu fiz o mestrado, disputei o mestrado com a vinda dos meus filhos ao mundo, e sendo professora, trabalhando de manhã, de tarde, e de noite, que é uma coisa de doido! Professora do Estado e em seguida optei por continuar logo o doutorado, e terminei o doutorado em 2001, fiz concurso [...].
Em seu estudo sobre indivíduos estigmatizados, Goffman (1998, p. 20) reconhece que: “A pessoa com um atributo diferencial vergonhoso pode romper com aquilo que é chamado de realidade e tentar obstinadamente empregar uma interpretação não convencional do caráter de sua identidade social.” Ou seja, a mulher negra brasileira acompanhada de um homem branco europeu terá que provar de alguma forma o contrário do que imediatamente lhe é atribuído como identidade: ser prostituta.
Rufino dos Santos (1995) esclarece a esse respeito, na mesma entrevista concedida à bióloga Rosa Andrade, aqui já referida, algo que pode se ajustar à compreensão do comportamento da professora. Nesse sentido, ele considera que:
A atitude da pessoa negra diante do preconceito e do racismo é muito variável. Talvez, ela possa ser buscada na infância. Meu pai era comunista e minha mãe dizia aos filhos: Não há diferença alguma entre um menino preto e um branco, a não ser que você esteja sujo, rasgado. Tudo o que um menino branco pode você pode, a não ser que você se ache inferior.” A origem da minha atitude pode ser essa. Nunca tive medo de ser “minoria” porque eu tinha convicção de que qualquer agressão era para ser respondida. (RUFINO DOS SANTOS, 1995, p. 43).
Quando fala dos filhos, a professora Regina parece se sentir aliviada. Podemos inferir que seja porque seus filhos não sofrerão o que ela e a sua família de origem sofreram, pois a mobilidade social havia possibilitado melhores condições de vida e trabalho, e esta só foi possível, segundo o seu relato, graças ao esforço pessoal e aos longos anos de estudo e trabalho incansáveis, trazendo a relação que se estabelece entre sociedade, trabalho e escola no percurso identitário dos homens.
Também deduzimos que há um alívio de sua parte porque seus filhos supostamente não sofreriam os preconceitos de raça, uma vez que a mistura com o pai francês resultou numa hibridização de forte tendência branca, bastante aproximada de um tipo branco, a qual de acordo com o que ela diz, ficou uma mistura muito bonita. Ao mesmo tempo ela parece sentir com algum pesar que os traços negros de sua família, ou seja, os seus próprios traços estão desaparecendo. É o que pudemos observar na sua reflexão:
É, o meu filho ficou um pouco... O povo diz que ele não é negro, eu digo que é, porque se não... Ah, meu Deus! Não teria nada de mim... É, mas ele é negro, mas a pele ficou bem mais clara do que a minha, os olhos verdes... Ele é muito lindo, muito estudioso, faz o Curso de Direito e entrou... Ele tinha 16 anos quando começou a fazer o Curso de Direito, o Pablo. E a Chloe, ela é branca ficou mais pra o lado do pai, né... Ficou. Ela é branca, o menino é preto. É, mas é um preto assim bem falsificado (risos). Digo que é preto falsificado... (Grifamos).
Costa (1983) fala de uma negação tão forte do próprio corpo pelos negros que estes muitas vezes tentam metamorfoseá-lo, indo desde a transformação da cor, forma e textura do cabelo, por exemplo, até a própria aniquilação de seu corpo à medida que vão se sucedendo os casamentos com brancos, e nascendo filhos cada vez mais claros.
A esse respeito, Sodré (1999, p. 139) considera que:
Na verdade, a constituição psíquica do indivíduo depende da força de continuidade do grupo, de modo que cada indivíduo configura-se como “lugar” num território ao mesmo tempo singular e social, sempre investido de um desejo ancestral (familiar) de continuidade da espécie.