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No modelo, o tipo narrativo é definido como “o esquema de uma intervenção textual, tendo por propriedade designar uma pluralidade de acontecimentos disjuntos do mundo comum, no qual acontece o processo da comunicação” (ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001, p. 316). Essa definição geral revela a complexidade nocional desse tipo, o qual se caracteriza com a ajuda de noções referenciais (a cadeia culminativa de

acontecimentos e a disjunção de mundos) e de uma noção textual (a intervenção).

Para tratar das noções referenciais, cujo estudo se faz no interior do módulo referencial, Filliettaz (1999) defende que as diferentes formas de expressão da narratividade representam acontecimentos que se articulam em uma cadeia culminativa. A hipótese dessa cadeia repousa sobre a ideia de que toda história, segundo o autor, pressupõe uma tensão entre acontecimentos desencadeadores e acontecimentos conclusivos, a qual decorre da transformação dos personagens e da situação em que se encontram

32 Quando necessários, esclarecimentos sobre os outros tipos integrantes da tipologia serão feitos de

71 inicialmente implicados. É nesse sentido que as narrações se distinguem das listas de ações, como, por exemplo, receitas culinárias. Como observa Adam (1992), as listas de ações se organizam de forma linear, obedecendo a uma lógica simplesmente cronológica. Nas narrações, ao contrário, os acontecimentos, ainda que estejam cronologicamente ordenados, obedeceriam a uma lógica causal, em que acontecimentos anteriores funcionariam como a causa de acontecimentos posteriores. No modelo modular, essa cadeia culminativa de acontecimentos se representa da seguinte forma:

FIGURA 3 - Cadeia culminativa de acontecimentos

Para o modelo, essa cadeia de acontecimentos constitui a representação praxeológica que subjaz a todas as sequências narrativas e não a estrutura de uma sequência narrativa específica. Isso porque essa cadeia, assim como o protótipo narrativo de Adam (1992, 2011), articula de forma esquemática os acontecimentos ou os episódios que são (proto)típicos de uma representação de história. Em produções linguageiras particulares, a organização dos acontecimentos de uma narração tanto pode assumir uma configuração típica, muito próxima da representação referencial de história, como pode assumir uma configuração atípica (e mais distante do protótipo), na qual nem todos os acontecimentos estão explicitamente verbalizados ou na qual se observam diferentes níveis hierárquicos 33.

O que garante a variação no grau de tipicidade das produções linguageiras particulares são as regras de recursividade próprias do esquema acima. Nele, um número restrito de componentes é capaz de gerar a imensa diversidade das formas narrativas, o que é representado pelas setas. A noção de cadeia culminativa de acontecimentos constitui,

33 Em configurações atípicas, um dos episódios pode ser representado não por um acontecimento único,

mas por uma cadeia completa de acontecimentos ou por uma sequência pertencente a outra categoria tipológica (descrição ou deliberação).

72 portanto, um instrumento teórico que não apresenta um caráter normativo, porque não corresponde a um padrão com que uma dada sequência discursiva deve se identificar para ser considerada uma sequência narrativa (ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001)34.

A forma como uma sequência narrativa específica atualiza a cadeia culminativa de acontecimentos, aproximando-se ou afastando-se da representação típica, está intimamente ligada à segunda noção referencial com que se define o tipo narrativo: a noção de disjunção de mundos.

Seguindo as proposições de Bronckart (2007), Filliettaz considera que “toda produção linguageira conduz necessariamente à criação de um mundo discursivo que se distingue teoricamente das coordenadas do mundo comum das atividades humanas” (FILLIETTAZ, 1999, p. 281). Embora esses mundos sejam distintos, suas coordenadas espaciais e temporais podem estabelecer entre si relações de conjunção ou disjunção. Assim, se no tipo deliberativo, por exemplo, esses mundos se identificam e por isso são conjuntos, o tipo narrativo, ao contrário, conduz à criação de um mundo discursivo que é diverso daquele em que se desenvolve o processo interacional. Em outras palavras, o tipo narrativo opera uma disjunção entre o mundo que o discurso representa (o mundo da história) e o mundo no qual o discurso é produzido (mundo em que se dá a atividade de narrar a história)35.

Se, por um lado, o tipo narrativo se aproxima de outras formas semióticas de narratividade (balé, pintura, vitral) por representar uma cadeia culminativa de acontecimentos disjunta do mundo comum em que ocorre a atividade de narrar, por outro lado, esse tipo se diferencia dessas formas por se ancorar em configurações textuais (CUNHA, 2010; FILLIETTAZ, 1999; ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001). No modelo modular, o estudo das configurações textuais se faz no interior do módulo hierárquico.

34 Assim como o tipo narrativo, o descritivo se caracteriza por uma representação referencial típica, a

qual, com base nos trabalhos de Adam (1992), se define como uma configuração recursiva de operações cognitivas (ancoragem, aspectualização, relação e tematização). Já o tipo deliberativo, ao contrário do narrativo e do descritivo, não se caracteriza, segundo Filliettaz (1999) e Roulet, Filliettaz e Grobet (2001), por configurações referenciais próprias, constituindo, por isso, “uma espécie de ‘grau zero’ de um modelo tipológico” (FILLIETTAZ, 1999, p. 292).

35 As operações de conjunção e disjunção, segundo a proposta de Bronckart (2007), foram abordadas, no

73 No estudo do módulo hierárquico, considera-se que toda interação verbal se caracteriza por um processo de negociação em que os interactantes iniciam proposições, reagem a elas e as ratificam. Conforme Roulet (ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001, p. 57), “toda intervenção linguageira (cumprimento, pedido, asserção, etc) constitui uma PROPOSIÇÃO, que desencadeia um processo de negociação entre os interactantes”. Assim, um diálogo formado por uma pergunta (Que horas são?), por uma resposta (São nove horas.) e por um agradecimento (Obrigado.) evidencia um processo em que uma proposição (a pergunta) desencadeia uma reação (a resposta), que motiva uma ratificação (o agradecimento).

Esse processo de negociação é representado no modelo por meio do seguinte esquema:

FIGURA 4 - Esquema do processo de negociação

A negociação conjunta dos interactantes leva à construção de unidades textuais complexas. Assim, toda unidade textual corresponde a uma realização efetiva do processo esquematizado acima e é representada por meio das estruturas hierárquicas. Essas estruturas são formadas pelos três tipos de constituintes que os interactantes produzem em toda interação verbal: trocas, intervenções e atos.

• Troca: unidade textual máxima, que é formada por intervenções que refletem as várias proposições, reações e ratificações de um processo de negociação.

74 • Intervenção: unidade constitutiva da troca, que pode ser formada por apenas um ato, mas que costuma apresentar uma configuração complexa, da qual participam outras intervenções, atos e até mesmo trocas.

• Ato: unidade textual mínima, que constitui a menor unidade delimitada por uma e outra passagem da memória discursiva36 (MARINHO, 2007).

Com a estrutura hierárquica, é possível a descrição das hierarquias e das relações existentes entre os constituintes do texto – trocas, intervenções e atos. Essas relações são de três tipos: dependência, interdependência e independência.

Existe uma relação de dependência entre dois constituintes, quando a presença de um deles está ligada à presença do outro, ou seja, quando a presença de um depende da presença do outro. O constituinte dependente é chamado de subordinado e pode ser suprimido sem comprometer a estrutura global do texto. O outro constituinte é chamado de principal e exprime uma informação considerada de fundamental importância para o texto. Existe uma relação de interdependência entre dois constituintes, quando um deles não pode existir sem o outro, como ocorre, por exemplo, em uma troca formada por pergunta e resposta. Finalmente, existe uma relação de independência, quando a presença de um constituinte não está ligada à presença de outro, isto é, quando a presença de um não depende da presença de outro. Exemplos desse tipo de relação são as intervenções ou atos coordenados (ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001)37.

Segundo Filliettaz (1999), os tipos de discurso se ligam a unidades textuais de natureza monologal, já que, em vista dos problemas expostos no item 2.2.1, a noção de “sequência dialógica” foi excluída da tipologia da forma de organização sequencial. Nesse sentido, o componente textual que entra na formulação dos tipos de discurso é a

36 A memória discursiva é definida como “conjunto de saberes conscientemente partilhados pelos

interlocutores” (BERRENDONNER, 1983, p. 230). Ela compreende “os diversos pré-requisitos culturais (normas comunicativas, lugares argumentativos, saberes enciclopédicos comuns, etc) que servem de axiomas aos interlocutores para conduzir uma atividade dedutiva”, bem como “as enunciações sucessivas que constituem o discurso” (ROULET; FILLIETAZ; GROBET, 2001, p. 23).

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Vale frisar que, no modelo, a subordinação e a coordenação de constituintes textuais são fenômenos discursivos, fundamentalmente ligados à interação. Assim, o que define se um constituinte do texto é principal, subordinado ou coordenado em relação a outro constituinte é a sua importância para o desenvolvimento do processo de negociação entre os agentes e não o elo sintático entre esses constituintes (CUNHA, 2011; ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001).

75 intervenção, que, como foi dito, corresponde a cada uma das fases do processo de negociação.

Como se pode observar, o tipo narrativo é uma noção complexa, porque resulta da combinação de informações de naturezas diferentes. Do ponto de vista referencial, o tipo narrativo se caracteriza pelas noções de cadeia culminativa de acontecimentos e de

disjunção de mundos. Do ponto de vista hierárquico, os tipos discursivos, e não só o

narrativo, se caracterizam pela noção de intervenção textual.