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Martine Segalen (1980), centrada em várias regiões que compõem o campesinato francês, afirma que o amor existe em ambiências agrárias, mas ele é um valor afetivo subordinado à organização social da ideologia camponesa.

Le système de reprodution sociale fonctionne, protégeant la liaison fondamentale entre l’unité économique d’exploitation et le ménage. Qu’il y ait amour ou non, liberté ou pas, la stratégie familiale de l’alliance récupère le ménage pour assurer la marche de la ferme. Le mariage apparaît en effet comme une association qui confronte immédiatement les époux aux nécessités économique quotidiannes.21

Para Selagen, a sociedade rural reduz arbitrariamente, de forma pejorativa, as mulheres que experimentam o amor intempestivo, que burlam com a “ordem natural das coisas”. Portanto, os rituais de casamento, que falam de autoridade, falam também de sexualidade de forma implícita, domesticada.

La société rurale redoute ces femmes qui ont besoin d’amour, qui détruisent l’ordre “naturel” (...) et qui instaurent l’avènement du monde à l’envers. Les rituels de mariage,

losqui’ils nous parlent d’autorité, nous parlent aussi de sexualité de façon implicite.22

Endossando mais uma vez a divisão sexual do trabalho, homens, mulheres e crianças têm sua sexualidade dependente e inscrita nesta. O corpo-funcional do camponês, casto e castrado, a Ordem no desejo, institui sujeitos sexualizados em prol dos contratos parentais/vicinais. Apesar de Segalen apontar para a questão da ambigüidade do estatuto do masculino e do feminino em sociedades camponesas, ela se prende a um forte reducionismo em suas assertivas.

D’ailleurs, le statut du masculin et du féminin n’est pas sans ambiguïté et la société traditionnelle le reconnaît. Il existe un champ flou de la masculinité/feminité, dans le cas de l’homme qui fait gendre. Il perd son nom, prend celui de la maison du lignage de sa femme; mais il reprend son statut d’homme lorsque, dans la pratique, la direction du ménage lui est échue, de père à gendre.23

Outrossim, para Segalen, a vida cotidiana camponesa é impregnada por uma pedagogia da sexualidade, sem grandes problemas aparentes. Desde a mais terna infância as crianças aprendem observando a reprodução sócio-sexual inculcada pela ideologia camponesa24. Para a historiadora, nas pequenas casas onde co-habitam adultos e crianças,

as relações sexuais são mais facilmente conhecidas, haja vista que a divisão das casas é, em sua maioria, menos compartimentada. Destarte, no pensamento segaleano, o controle e a domesticação, apesar de criticar as caricaturas formuladas pelos folcloristas, arma o corpo do camponês e loca sua sexualidade instituída, pois une sexualité latente imprègne toute la vie paysannne25.

Por sua vez, Karin Wall (1998), uma outra pesquisadora das sociedades camponesas, ao analisar duas freguesias do Baixo Minho, campesinato português, realça uma inovação: a ajuda exercida por homens na organização dos filhos e dos trabalhos domésticos que passa a ser, em todos os meios, bem vista e socialmente aprovada. Quebra- se assim o desprezo pela participação dos homens no trabalho doméstico, mas mantém-se intacta uma identidade feminina ligada à construção e conservação do espaço íntimo da família.

Nas famílias mais pobres, onde o adulto, fosse mulher ou homem, “deitava mão” a qualquer trabalho para sobreviver, desde ir servir aos oito anos, trabalhar a jornal, fazer venda ambulante, tecer em casa ou ajudar quem “mandasse chamar”, era muitas vezes mais difícil de pôr em prática o estatuto de dona de casa. É aí que por vezes se encontra o homem a fazer trabalho de mulher e vice-versa. No entanto, enquanto produto da pobreza e da necessidade, a família onde o homem tinha de pôr o tacho ao lume era desconsiderada e desprezada.26

Para Wall, a idade é fator de prestígio. Ser mais velho e do sexo masculino define um estatuto mais elevado, aquele que, segundo os camponeses portugueses, “deve impor o respeito”. Respeito associado ao medo, porque autoriza a utilização da violência e do castigo, em que o macho camponês tem nos seus próprios gestos corporais um sinalizador para acionar tal medo no Outro subalterno (a mulher camponesa, sobretudo). Apesar de tais inovações no campo da aparente flexibilidade de papéis sócio-sexuais, Wall mantém uma visão utilitarista e economicista sobre o rural. Ao retratar passado e presente nas duas freguesias portuguesas (Lemenhe e Gondifelos), a pesquisadora recobra certos valores compreendidos como basilares, embora de forma enrijecidos, instituídos. Neste sentido, homens, mulheres e crianças têm sua sexualidade ligada à labuta, a estereótipos que articulam os discursos do imaginário de um corpo-funcional.

Em relação aos casais mais novos, Wall ressalta que eles valorizam os fatores de entendimento, de entreajuda e o projeto familiar, hesitando um pouco mais em por de lado o fator sexualidade. Segundo ela, pelo menos os camponeses falam dele, mas ressaltado,

ainda, em termos compensatórios. Neste caminho, a pesquisadora aponta para os jovens, do meio rural abastado, que evocam duas limitações que condicionam fortemente a relevância dada, efetivamente, aos diferentes fatores da conjugalidade, e ao das relações sexuais em particular. A este respeito, a primeira limitação recobra o controle social exercido pela comunidade, surgindo intromissões e pressões suplementares sobre as respectivas pessoais e sobre as suas famílias. A segunda limitação, como aponta Wall, no trato dos jovens abastados, parece construir-se sem sobressaltos, no receio de se atribuir demasiada importância ao fator entendimento sexual, correndo o risco de por em causa um casamento que, partindo do ponto de vista dos jovens, se trata de um empreendimento-homogamia- projeto.

A reprodução biológica da família é enfatizada. A complementaridade e a dependência da mulher camponesa em relação ao marido são endossadas. Reciprocidade que corrobora para tornar as sexualidades subordinadas no retorno ao Nós. A um ideário que pretensamente quer silenciar ou maldizer outros modos de vida, em prol de um corpo- funcional, pois como Wall institui:

O controlo e a responsabilidade do “lá fora” (os campos) pertence sempre ao homem,

enquanto a responsabilidade do “cá dentro” – filhos, cozinha, horta e galinheiro – pertence à mulher 27.

Em tese, as duas pesquisadoras convencionam identidades instituídas para homens, mulheres e crianças, ditados pela onipotência e onipresença de um corpo-funcional. Este corpo instituído, inflacionário, torna-se cada vez mais comum o viés identitário, o conforme. A instituição (corpo-funcional) é instituição de um mundo no sentido de que ela deve e pode cobrir tudo, que tudo, em e por ela, deve, em princípio, ser dizível e representável, e que tudo deve ser incluído na rede de significações, logo, tudo deve fazer sentido, valer. Neste contexto, para Castoriadis a maneira pela qual, de cada vez, tudo faz sentido, e o sentido que faz, provém do núcleo de significações imaginárias da sociedade considerada28.O corpo-funcional que se delineia no TB é uma criação de imagens, significações e sentidos filtrados que têm como base às lutas explícitas das sociedades camponesas, somente elas, caricaturais, oficializadas. Segalen e Wall são bons exemplos de como o Texto sobre Camponeses, para além do Brasil, em sua contemporaneidade, continua, salvo raríssimas exceções, uma colagem de idéias que se dogmatizam por meio

de um Corpus Academicus sobre sociedades camponesas e que encontra sua aplicação tácita em projetos e políticas públicas a favor dos “marginalizados”, dos “camponeses”, já definidos e medidos, com “todos” os seus segredos revelados, quase sempre desvitalizados ou reféns de uma literatura redundante, de um imaginário prêt-à-porter, aceito como tal.

A Singularidade de Pierre Bourdieu: Do Camponês Como Classe-Objeto