3. Results
3.1 Site characteristics
Se hoje entendemos o caráter discursivo de uma fotografia de imprensa, nem sempre foi assim. Passando por reflexões que se iniciam na relação da fotografia com a pintura, seguindo
20 Tradução livre da autora para: “1. La foto de prensa en ningún momento es más simple que el texto escrito. Su
estructura es compleja en igual medida que lo es el texto escrito, y tanto uno como el outro son productos de diversas transformaciones discursivas.
2. La foto de prensa no es ni una ilustración del texto escrito ni tampoco una sustitución del lenguaje escrito. Tiene una autonomía propia y puede considerarse como un texto informativo. Sin embargo, no es indiferente al contexto espacial del periódico.
3. La foto de prensa se revela particularmente eficaz en ciertos procesos de reconocimiento e identificación, pero sin negar lo mismo para el texto escrito.
4. El tipo de proceso discursivo que puede desarrollar el estímulo de la foto de prensa puede ser tan abstracto como el desarrollado por el lenguaje escrito. Y esto se debe a que tanto como el texto escrito se basan en
pelos caminhos que abordam a ligação da imagem fotográfica com seu referente, bem como sua conexão com o real, até chegar a seu aspecto informativo na prática jornalística, que carrega fortes laços com a noção de testemunho, muito se discutiu e produziu nos campos da comunicação e do discurso.
Nosso percurso nos mostrou que o fotojornalismo se configura em um gênero que produz um discurso sobre a informação, mas que, muito além de informar, apresenta visões de mundo que podem orientar, mais ou menos, de forma implícita ou explícita, o nosso olhar. Para isso, pode-se recorrer a estratégias discursivas que procurarão edificar o discurso com a finalidade de se atingir o destinatário de modo a concretizar a troca comunicativa. Sabemos que os efeitos visados podem não coincidir com os produzidos, principalmente quando se trata de uma comunicação de massa, voltada para um público heterogêneo e vasto. Entretanto, o que nos interessa aqui é sabermos que, na confluência dessas visadas, estão os efeitos possíveis. E é a partir desse ponto que podemos analisar os sentidos possíveis que os discursos de fotos jornalísticas podem engendrar.
Dentro da abordagem semiolinguística que nos serve de base, como detalhamos no capítulo 3, compreendemos que, para essa análise, é essencial estudarmos a situação de comunicação, neste caso, no domínio da prática social do jornalismo, especificamente do fotojornalismo, bem como os sujeitos que participam desse intercâmbio: o jornal O Globo e seu público alvo. Também precisamos entender o contexto de realização dessas fotos e compreender as representações sociais sobre as favelas do Rio de Janeiro que foram se constituindo social, histórica e discursivamente e os imaginários produzidos, como veremos no próximo capítulo. Sigamos viagem.
2 AS FAVELAS CARIOCAS DIANTE DE NOSSOS OLHARES
2.1 Considerações iniciais
Neste capítulo, traçaremos um panorama do surgimento e desenvolvimento das favelas na cidade do Rio de Janeiro e buscaremos compreender de que forma as representações sociais sobre tais espaços e seus moradores foram sendo construídas social e historicamente. Este passeio pelo processo de formação dos aglomerados urbanos populares irregulares – que envolvem desde ex-quilombos, passando por cortiços e casas de cômodos até favelas e conjuntos habitacionais – poderá nos ajudar a perceber discursos que foram sendo engendrados ao longo do tempo por vários atores sociais e a quais imaginários eles se relacionam, de modo a edificar uma memória discursiva sobre o tema.
Nossa principal referência nesse percurso será Valladares (2000, 2005). A autora discute essa questão e apresenta como os vários discursos circulantes no final do século XIX e início do século XX contribuíram para a formação de representações sobre as favelas. Ao se debruçar sobre o tema há mais de quarenta anos e cuja pesquisa é referência na área de Ciências Sociais, ela faz uma reflexão sobre as razões e modalidades da produção e da persistência de representações sociais cristalizadas21 ligadas às imagens desses locais. Para ela, a categoria favela é resultado, mais ou menos cumulativo e contraditório, “de representações sociais sucessivas, originárias das construções dos atores sociais que se mobilizaram em relação a esse objeto social e urbano” (VALLADARES, 2005, p. 21), tanto em produções eruditas quanto populares e midiáticas. Ou seja, por meio de diversos discursos circulantes.
Seus estudos mostram que a gênese do processo de construção das representações sociais das favelas remonta às descrições e imagens que nos foram legadas por escritores, jornalistas e reformadores sociais do início do século XX. Amplamente divulgados naquela época, esses textos permitiram o desenvolvimento de um imaginário coletivo sobre as favelas e seus moradores, ao mesmo tempo em que opunham favela e cidade. Tais discursos circulantes dos
21 Utilizaremos a expressão “representações sociais cristalizadas” em vez de “estereótipos”, de modo a marcarmos nosso lugar teórico a partir de Moscovici (2011) e de Charaudeau (2007). Cf. Capítulo 3.4.
quais a autora fala, apesar de originários de diferentes tendências ideológicas e políticas, carregavam percepções semelhantes, que são discutidas por ela ao longo da obra.
Esses escritores e intelectuais, apesar de pertencerem a diferentes tendências ideológicas e políticas, ou perseguirem distintos objetivos em suas visitas aos morros, percebiam da mesma forma o que representavam tais áreas e seus habitantes no contexto da capital federal e da jovem República. Seus pontos de vista remetiam a um mesmo conjunto de concepções, a um mesmo mundo de valores e idéias. Suas representações convergiam para o estabelecimento de um arquétipo da favela, um mundo diferente que emergia na paisagem carioca em contracorrente à ordem urbana e social estabelecida. (VALLADARES, 2005, p. 28)
Interessante essa observação da autora, pois percebemos que os produtores dos discursos circulantes pareciam partilhar os mesmos universos de saber, que culminam em uma visão comum, apesar das diferentes intencionalidades e situações de comunicação. Todos numa tentativa de compreender um fenômeno novo na cidade, em configuração.
Ela separa o processo de construção social da favela em dois períodos: a) do início do século XX aos anos 1950, quando ocorre a gênese da favela, a descoberta do fenômeno, a construção de um arquétipo, a inauguração de um saber oficial sobre esses espaços com o Censo de 1950 e a circulação de discursos produzidos por jornalistas, cronistas, engenheiros, médicos, arquitetos, administradores públicos e assistentes sociais; b) dos anos 1960 aos dias atuais, quando a favela se torna objeto de estudo nas universidades, e o tema passa a inspirar a literatura sobre pobreza urbana no Rio de Janeiro e no Brasil.
Podemos citar ainda o interesse pelo tema que gerou uma série de produções audiovisuais as quais abordam os chamados territórios periféricos – favelas, morros, guetos, subúrbios – e seus sujeitos excluídos socialmente. Enquanto discurso, tais produções colaboram para a construção de imaginários sobre esses lugares e seus residentes. No cinema, listamos, por exemplo, o sucesso que obteve o filme Cidade de Deus, de 2002, que trata do crescimento do crime organizado no conjunto habitacional Cidade de Deus entre o final da década de 1960 e o início dos anos 1980 (FIGURA 1). Com quatro indicações ao Oscar, vários prêmios conquistados e sucesso de crítica internacional, o filme foi um marco na história do cinema brasileiro e podemos dizer que, em certa medida, teria contribuído para divulgar e reforçar essa imagem que relaciona favelas à criminalidade no Rio de Janeiro. Já parte da crítica nacional e acadêmica não aprovou o uso de recursos para embelezar e espetacularizar a imagem, uma espécie de “glamourização” da miséria e da violência.
Em contrapartida, podemos citar outras produções audiovisuais mais recentes que investiram em discursos associados à diversidade cultural, ao espírito comunitário, à criatividade e à solidariedade, como as séries Cidade dos Homens e Antônia e o quadro Minha periferia, do programa Fantástico, da Rede Globo, mesmo que, algumas vezes, pudessem trazer algumas representações sociais cristalizadas, portanto, que simplificam e generalizam.
Figura 1 – Cartaz do filme Cidade de Deus
Legenda: Narrativa reforça representações ligadas aos imaginários da marginalidade e da violência
Fonte: http://o2filmes.com.br/acervo/15/Cidade_de_Deus
Além da base em Valladares (2000, 2005), buscamos outros autores, como Campos (2007) e Silva & Barbosa (2005), que dialogam com a autora ou complementam nossa abordagem, e que nos auxiliaram a compreender esse caminho de construção de determinadas visões sobre as favelas e seus moradores e a refletir sobre tal processo. Depois de lermos várias obras sobre a gênese e o desenvolvimento das favelas no Rio de Janeiro, concluímos que o trabalho dessa autora seria nossa referência básica devido à sua capacidade de apresentar um panorama amplo do fenômeno, bem como de promover uma análise do processo de construção das representações sociais, questões que se encontram diretamente relacionadas a nossos interesses. Os outros autores contribuíram para enriquecer nossa visão sobre o tema e para descortinar outros pontos de vista que não foram apontados nas obras de Valladares (2000, 2005) consultadas.
Realizamos, ainda, uma pesquisa exploratória em bancos de teses e em artigos acadêmicos para descobrir estudos, em vários campos disciplinares, sobre tal temática, a saber, a construção de uma imagem das favelas e de seus moradores. A maior parte das pesquisas que
verificamos contemplava o discurso verbal, sendo muito poucas as abordagens encontradas que tratem do discurso icônico (este, quando considerado, normalmente referia-se a produções audiovisuais do cinema e da televisão).
No próximo tópico, procuramos mostrar como as favelas surgiram e se desenvolveram no Rio de Janeiro e, nos seguintes, tratamos de reflexões e estudos que abordam diversos modos de perceber esse espaço urbano carioca e seus habitantes, gerando uma memória social e discursiva sobre tal temática, permeada de representações e imaginários.