3. Sistema de Unidades Naturales 17
4.1.2. Tasas de transici´ on en presencia de entorno
A investigação que realizamos no ambiente das classes multisseriadas proporcionou-nos um mergulho em uma faceta da educação que pouco tem sido investigada por pesquisadores na área da educação. Em levantamento bibliográfico que realizamos, evidenciamos que as pesquisas que têm seu lócus no ambiente das classes unidocentes, não têm como foco investigar a (re)construção e gestão de praxeologias de uma determinada disciplina, e assim poder evidenciar as variáveis e seus respectivos valores que conformam os milieux do professor no efetivo exercício da docência nessa ambiência.
Em nossa pesquisa, foi possível evidenciar o quanto a educação no meio rural padece pela falta de políticas públicas educacionais; nesse aspecto, podemos dizer que o ambiente das classes multisséries talvez se configure no caso mais crítico, uma vez que o trabalho docente nessas turmas é considerado pelos governantes como similar ao trabalho docente das classes seriadas. Embora essas ambiências apresentem incongruências bastante acentuadas no âmbito da sala de aula, não há diferenças no currículo oficial proposto pelo Sistema de Educação para essas instituições.
Embora o professor da ambiência multissérie desenvolva o exercício da docência sob condições muito diferentes das condições oferecidas pelo
Governo para a docência das classes seriadas, não há livros didáticos que contenham, por exemplo, praxeologias matemáticas que estejam em conformidade com as condições e restrições próprias do ambiente multissérie. Nesse caso, os professores das turmas unidocentes utilizam os livros didáticos das classes seriadas para (re)construir praxeologias para as classes multisséries.
É sob esse olhar que nossa pesquisa desenvolveu-se, ao buscar, sob o quadro da TAD e com base no MPDR, identificar e analisar na TDI realizada pela professora as variáveis e seus respectivos valores que permeiam a complexa docência das classes unidocentes e que conformam os milieux da professora sujeito desta pesquisa nas duas fases do trabalho transpositivo. Neste trabalho concebemos essa transposição de praxeologias das classes seriadas para as classes multisseriadas como problema docente que a professora enfrenta.
Consideramos que a construção do MPDR foi de grande relevância para a realização da análise deste trabalho, a qual, juntamente com os pressupostos da TAD, nos permitiu enfrentar o problema da construção do conhecimento matemático-didático do professor, responder às questões derivadas dessa problemática e revelar a importância da relação “saber/duração” na transposição das praxeologias matemáticas da instituição seriada para a instituição multisseriada.
Nessa perspectiva, as análises da primeira fase da TDI revelaram os valores das variáveis institucionais currículo e tempo didático, também revelaram a transição do currículo oficial para o currículo implementado que ocorreu nessa fase do trabalho transpositivo. No processo de construção das análises, foi possível evidenciar a imbricação existente entre o tempo didático, o currículo implementado e a relação “saber/duração”. Contudo, as análises mostraram que, nessa primeira fase da TDI, o currículo implementado e o tempo didático são apenas uma conjectura.
As análises também revelaram a importância das variáveis epistemológicas: história de vida; relações pessoais e relação com o saber para a transposição das praxeologias matemáticas da instituição seriada para a instituição multisseriada e para a consequente construção do “texto de saber”, e mais, evidenciamos na análise da primeira fase da TDI a articulação que se
formou entre os blocos de variáveis institucionais e epistemológicas e seus respectivos valores, a partir da relação “saber/duração”.
A Figura 42 mostra o esquema da integração desses blocos de variáveis a partir da relação “saber/duração”, no momento da (re)construção do texto de saber realizado pela professora na análise da primeira fase da TDI.
Figura 42: Esquema da dialética entre as variáveis e o saber/duração na primeira fase da TDI.
Ainda na perspectiva de a potencialidade do MPDR evidenciar as variáveis institucionais e epistemológicas e a articulação existente entre esses blocos de variáveis e a relação “saber/duração”. A análise da segunda fase da TDI revelou que a mudança de milieu não se deu só pelo fato de o aluno ser real nessa fase da TDI, mas também em função da mudança do valor que ocorreu em algumas variáveis institucionais.
A Figura 43 mostra o esquema da integração dos blocos de variáveis e a relação “saber/duração” no momento da gestão das praxeologias matemáticas na turma multissérie na segunda fase da TDI.
Nossa investigação proporcionou-nos evidenciar a professora utilizar componentes praxeológicos para enfrentar situações as quais consideramos singulares no ambiente das classes unidocentes. Em vários momentos da entrevista que realizamos com a professora, ela revelou que sua posição de aluna e de docente nas turmas multisséries contribuiu para que adquirisse experiência para tratar das problemáticas que permeiam a docência no multisseriado. Essa experiência que a professora revela possuir, sob o quadro da TAD, é entendida por nós como componentes praxeológicos que apoiam a (re)construção e desenvolvimento das praxeologias transpostas da instituição seriada para a instituição multisseriada.
Tal como preconizado por Chevallard (2009), em nossa pesquisa constatamos na fala da professora que a construção desses componentes praxeológicos foram construídos em sua história de vida nos encontros que ela teve nas instituições que frequenta e frequentou, com os temas matemáticos analisados. É nesse processo de encontro e reencontro nas instituições que a professora admite mudanças na construção de sua relação com os temas.
Referente à construção da relação da professora com os objetos de estudo, destacamos a instituição multisseriada, haja vista a professora ter sido sujeito desta instituição em duas posições distintas; aluna e professora, nas quais estabeleceu forte relações com os objetos de estudo a qual toma como referência para suas práticas docentes.
Nesse aspecto, nossa pesquisa proporcionou-nos um (re)encontro com a TAD no que se refere a evidenciar a construção de componentes praxeológicos de uma pessoa em sua história de vida, que, segundo Chevallard (2009), ocorre na dinâmica do universo cognitivo do sujeito nos processos de sujeição nas instituições.
O desenvolvimento das análises proporcionou-nos evidenciar a formulação inicial do problema docente , elencado por nós neste trabalho, ratificar-se em um problema didático, nos termos propostos pela TAD, a partir da integração da dimensão fundamental . A dimensão epistemológica ao ser adicionada à formulação inicial desencadeou determinados questionamentos que nortearam nossa pesquisa no sentido de buscar identificar como vivem as praxeologias matemáticas na instituição multisseriada
e quais são as condições e restrições que permitem que tais praxeologias vivam com suas singularidades na instituição multisseriada.
Nesse sentido, consideramos que a dimensão epistemológica funcionou em nossa pesquisa como um vetor que nos permitiu evidenciar de forma clara as características das praxeologias matemáticas na turma multissérie em que ocorreu a intervenção, por exemplo, as mudanças que ocorreram nas praxeologias matemáticas, da (re)construção no “texto de saber” para a gestão na sala de aula, que, segundo a professora, ocorrem em função do tempo didático de que ela dispõe para trabalhar determinado tema.
Assim, concebemos o condicionamento das praxeologias matemáticas ao tempo didático, como característica mais forte das praxeologias matemáticas no âmbito da instituição multisseriada no período em que estivemos acompanhando a docência da professora sujeito da pesquisa na turma multissérie.
As características das praxeologias matemáticas reveladas na pesquisa levaram-nos a investigar quais são as condições e restrições que permitem que essas praxeologias vivam com tais características. Dentre as condições que são oferecidas para o desenvolvimento da docência na instituição multisseriada, destacamos a condição de o professor ter que trabalhar com mais de um ano do Ensino Fundamental na mesma sala e no mesmo horário, que implica em uma turma formada por alunos com distorção idade-série muito acentuada.
Essa condição imposta à docência do multisseriado permitiu-nos, na qualidade de pesquisador, sob o quadro da TAD, imergir na ecologia das classes unidocentes, e assim evidenciar essa condição se configurar como uma restrição ao trabalho docente dos professores dessa ambiência.