5.1.1. Espiritualidade como vivência
O grupo apresentou duas posições referentes ao conceito de espiritualidade. As colaboradoras usaram as mesmas palavras para descrevê- las. Uma das posições relaciona a vivência diretamente à figura de Deus e a outra a relaciona com o indivíduo.
É nossa relação com Deus (...) o conhecimento, a vivência, a experiência de vida, aquilo que eu acredito, envolve meus princípios, aquilo que aprendi sobre Deus através da Bíblia, é essa comunicação com Ele (...). (Talita).
Pode ser com Deus ou qualquer outro aspecto que possa transcender o indivíduo, algo que exista fora de si mesmo, que você não pode controlar (...). Depende da cultura, do que a sociedade valoriza (...); a impressão que eu tenho é que, mesmo dentro de um mesmo país, há uma variação muito grande de experiências. (Natália).
Pargament (2007) define a espiritualidade como a busca de sentido para o sagrado e relaciona as orientações funcionais da Psicologia da Religião às orientações substantivas. O que distingue a busca espiritual de outros tipos de busca é a referência ao sagrado, denominador comum às definições apresentadas pelo grupo. O posicionamento em relação a um Ser identificado como Deus é parte do que Pargament chama de núcleo do sagrado, que independentemente da tradição religiosa pode apresentar três elementos: Deus, seres divinos e a realidade transcendente. O campo do sagrado inclui objetos, lugares, atividades e outros aspectos da vida que podem representar ou estar associados ao sagrado. De fato, as alunas incluíram experiências ou objetos
com características sagradas nas definições de espiritualidade que apresentaram ao longo das discussões.
A espiritualidade, sua dinâmica e suas expressões foram vistas no grupo por diferentes ângulos: duas participantes se referiram à dança como uma experiência do sagrado. Com este e outros exemplos o grupo foi ampliando a sua visão sobre a espiritualidade. Referindo-se a isso, Pargament (2007) diz que vários aspectos da vida podem ser considerados sagrados, além daqueles do campo religioso tradicional; o mais importante é considerar que “a espiritualidade deve ser compreendida e trabalhada como uma dimensão legítima da experiência humana, e não como um subproduto de outra experiência”. (PARGAMENT, 2007, p. xi).
5.1.2. Espiritualidade e Religiosidade
Pargament usa “espiritualidade” para tratar da dimensão anímica da natureza humana e “religião” e “religiosidade” para referir-se a seus contextos social, institucional e cultural, ressalvando que esses termos não são excludentes. (PARGAMENT, 2007). A respeito da diferenciação entre essas palavras, houve no grupo o consenso de que a primeira refere-se a uma experiência intima e pessoal e a segunda a um aspecto mais organizado e socialmente estruturado. Discussões sobre o assunto haviam acontecido recentemente em sala de aula e os pensamentos de Natália e de Mônica resumem a ideia geral do grupo:
A religiosidade está muito ligada à filiação a uma comunidade religiosa com uma série de princípios. Você participa dentro de um grupo, um núcleo que tem um objetivo e crenças particulares e muitas vezes é institucionalizado. A espiritualidade por sua vez, você não precisa estar institucionalizado para ter aquela vivência. (Natália). Você não precisa necessariamente da religião para transcender, para o seu bem-estar espiritual, não precisa necessariamente da religião (...). (Mônica).
No grupo a palavra “processo” foi compreendida como o desenvolvimento dinâmico da espiritualidade: “Para mim a palavra que se encaixa melhor nisso é processo e onde eu me encontro nele; se é um
processo estou indo em uma direção e me pergunto: em que direção estou indo?” (Júlia). Isso se aproxima de Pargament: “uma avaliação mais justa da espiritualidade requer atenção não somente em relação aos resultados espirituais, mas também ao processo” (PARGAMENT, 2007). Não é fácil transmitir este conceito em palavras, mas a linguagem do processo se dá quando o valor da espiritualidade baseia-se em sua qualidade, mais do que em critérios pragmáticos de verdade ou resultados.
5.1.3. Vivência pessoal da Espiritualidade
Talita descreve um momento de contemplação que vivenciou como sagrado:
Um dia fui a um lugar que tinha uma cachoeira na minha cidade natal, naquele dia eu não estava muito bem (...); olhei para aquela natureza e parecia que Deus estava sentado à minha frente na grama (...); fiquei muito tempo ouvindo o som da cachoeira,fiquei silenciosa ouvindo a água batendo nas pedras, depois de um tempo consegui ouvir o cantar dos pássaros, consegui sentir a brisa que estava ali e aquilo me acalmou muito (...). (Talita).
Júlia enfatiza a autonomia sentida em relação à escolha da religião:
Eu busquei a Igreja Adventista sozinha, eu fiz estudos bíblicos e fui batizada. Minha mãe também estudava, mas só depois de dois anos ela se batizou na igreja. Então, numa família inteira, somente ela e eu que somos adventistas (...) e algo sempre ficou muito presente em todo esse meu processo espiritual: a questão da autonomia que os meus pais me deram para decidir. (Júlia).
Nas declarações de Natália, Mônica e Ana pude observar a influência dos relacionamentos familiares e sociais na conformação da espiritualidade:
Hoje, pensando no conceito de espiritualidade, eu acho que mudou muito na minha vida. Uma hora eu era cristã e religiosa e outra hora eu fazia outras coisas, inclusive namorados. Hoje eu acho que a minha questão espiritual está mais voltado para meu relacionamento pessoal do que pra religião; se for olhar com mais cuidado, apesar do meu conhecimento de estar aqui a realidade é outra. Mas eu acho que se for fazer uma linha assim na minha história o movimento tem muito a ver com o lugar e as pessoas (…). (Natália).
Bom, eu sempre tive uma influência espiritual e religiosa na minha vida. Tenho ascendência japonesa, minha família direta veio do Japão. E eu tenho uma tia que era presbiteriana, então eu sempre fui ensinada nesses caminhos e quando a minha mãe foi a primeira vez
na igreja adventista eu tinha dois anos. Quando ela retornou por segunda vez nós entramos na linha outra vez [voltamos para a igreja], até porque eu também comecei a pensar no que eu queria de verdade (...). (Mônica)
Eu venho de uma família bastante tradicional na Igreja Adventista. Eu sou a sexta geração de adventistas na minha família. E é uma coisa muito enraizada na minha família materna, embora na família paterna, meu pai se tornou adventista na adolescência pela influencia de uma tia; então a família do meu pai já é mais bagunçada (...). (Ana).
Segundo Pargament a busca do sagrado inicia-se com a descoberta de algo sagrado para o indivíduo. Quando este o encontra, procura um caminho espiritual para sustentar e acolher seu relacionamento com ele. Mudanças internas ou externas na vida podem ameaçar, danificar, questionar ou até levar a uma crise do sagrado; o individuo busca então estratégias para preservar e
proteger o sagrado o melhor que puder. (PARGAMENT, 2007).
Notei nos relatos o caminho percorrido por cada uma das participantes em sua experiência com o sagrado. Talita relatou uma vivência com ele, Julia ressaltou a ação e a aquisição de conhecimentos e Natália, Mônica e Ana relataram a influência dos relacionamentos na conformação da espiritualidade. Além de ajudar a compreender a dinâmica do sagrado na vida delas, o diálogo em grupo sobre o assunto promoveu o autoconhecimento e a abertura para falar sobre o assunto.
5.1.4. Espiritualidade como dinâmica do sagrado
A visão pessoal das participantes sobre o sagrado influi na maneira como elas compreendem a relação entre a Espiritualidade e a Psicologia. Em um dos diálogos mais intensos a esse respeito Luiza diz categoricamente: “Cada pessoa tem a sua verdade, independe da existência disso ou não (...)”. A ideia de que o indivíduo atribui a determinado objeto, pessoa ou situação atributos sagrados é apresentada pela maioria delas: “Eu torno sagrado, eu escolho acreditar; se formos pensar que nós fazemos isso, então somos nós que fazemos de Deus um ser sagrado” (Mônica). Natália busca inclusive uma
referência religiosa para explicar sua interpretação do sagrado e cita um dos mandamentos da Bíblia:
Algo interessante é que, dentro da nossa própria crença, nosso Deus admite que podemos colocar outras coisas no lugar sagrado. A Bíblia diz: “não colocarás outros deuses diante de mim”. Ela mesma deixa claro que é possível que isso ocorra (...), santificar outras coisas. (Natália).
A participante que de início se referiu a Deus como a figura central em sua espiritualidade mostrou alguma resistência em pensar que é o próprio ser humano que torna algo sagrado para si e questionou isso algumas vezes. Mas Pargament (2007) usa o termo “santificação” para caracterizar o processo pelo qual as pessoas atribuem um significado divino a aspectos da vida: para algo ser considerado sagrado, qualidades sagradas devem ser-lhe atribuídas, como transcendência, infinitude e plenitude. Pode existir uma tremenda diversidade nos caminhos pelos quais o sagrado é entendido, mas com o tempo as pessoas desenvolvem preferências por certos caminhos e destinos. Essas preferências se juntam para formar sistemas de orientação espiritual individualizados, que incluem quadros de crenças espirituais, práticas, relações, experiências e valores que constantemente direcionam a busca pelo sagrado (PARGAMENT, 1997).