No rol de diferenças entre o contextualismo e o contrastivismo a primeira delas diz respeito à discussão do mecanismo linguístico através do qual o termo “saber/conhecer” produz condições de verdade contexto-dependentes. Segundo o contextualista “saber/conhecer” é um termo indexado ao contexto de tal modo que o campo semântico deste termo se expande ou se contrai em função do contexto de proferimento (atribuição). O parâmetro para essa concepção indexical, por exemplo, é o pronome pessoal ‘eu’. “Eu estou em Fortaleza” é verdadeiro dito por João (que está na cidade) e falso dito por Chico (que está em Aracaju). O termo ‘eu’ indexa as condições de verdade da proposição ao proferimento particular em primeira pessoa. Por analogia, as proposições em que “saber/conhecer” ocorre indexariam as condições de verdade ao contexto de proferimento. João pode saber que “aqui está
uma mão e aqui outra” em um contexto que indexa as condições de verdade a baixos padrões epistêmicos e não saber que “aqui está uma mão e aqui outra” em um contexto que indexa as condições de verdade a altos padrões. Sendo assim o contextualista pode, sem contradição, afirmar que João sabe que p e que João não sabe que p a depender do contexto. João sabe que p em ‘Co’,mas João não sabe
que p em ‘CHC’.
Em contraposição ao mecanismo linguístico que atrela a presença semântica, estendida ou contraída, do termo saber à contexto-dependência das condições de verdade, o contrastivismo localiza não no termo saber, mas na ausência de um contraste definido q o elemento gerador da contexto-dependência das condições de verdade da proposição. Isto funciona porque o contraste q, como já aludimos, é um elemento constitutivo tanto da relação ternária do conhecimento quanto da satisfação sintático-semântica do termo “saber/conhecer”. Sendo assim, cada contexto é responsável pela saturação de q a partir do estabelecimento das alternativas relevantes relativas a cada caso particular. A discussão de fundo que não podemos perder de foco é que o contextualista assume uma concepção binária do conhecimento da forma Ksp, ao passo que o contrastivista assume uma concepção ternária do conhecimento da forma Kspq.
Em resumo, nas palavras de Schaffer a diferença básica entre os dois mecanismos semânticos que regulam a contexto-dependência das condições de verdade é que na “indexicalidade o que é variável é a relação denotada a partir [do termo] ‘saber/conhecer’, enquanto que na ternicidade o que é variável é o valor do relatum q” (SCHAFFER 2004, p. 83). A principal vantagem defendida pelo contrastivista em face do contextualista, no que tange à discussão ora em tela, é a possibilidade de oferecer uma melhor explicação da estabilidade atributiva do conhecimento. O valor da estabilidade do conhecimento e da atribuição do conhecimento é de fundamental importância. Uma flutuação atributiva poderia gerar uma insegurança epistêmica acompanhada de um relativismo indesejado. Analisar o conhecimento, e a relação em que este conceito está inserido, se configura, em última análise, como uma tentativa de capturar a estrutura constante em toda a atribuição daquele conceito. Quando a teoria é clara, então conseguimos atribuir o conceito de modo estável, constante em qualquer situação.
A estabilidade oferecida pelo contrastivista pode ser explicada do seguinte modo. Enquanto uma atribuição binária Ksp possui um componente indexado a um
elemento flutuante, qual seja, a multiplicidade de contextos em que p pode ser proferida, uma atribuição ternária Kspq, por seu turno, é mais estável na medida em que o contraste q codifica o conjunto das alternativas relevantes que ajudarão a explicar, dentre outras coisas, o que é que S sabe. Vejamos um caso comparativo: (i) Maria sabe que o pássaro no jardim é um pintassilgo (ii) Maria sabe que o pássaro no jardim é um pintassilgo ao invés de um corvo. Em (i) temos uma atribuição binária susceptível à flutuação contextual gerada pela contraposição das alternativas mais diversas. Ou seja, é uma atribuição aberta. Senão vejamos: Se introduzirmos (i) nos seguintes contextos formados pelas respectivas alternativas Co
{corvo, pica-pau, sabiá, canário, beija-flor e andorinha} e CHC {corvo, pica-pau,
sonhos verídicos, cérebro numa cuba, gênio maligno}, podemos dizer que Maria sabe que é um pintassilgo em Co, mas que Maria não sabe que é um pintassilgo em
CHC. Observamos uma instabilidade atributiva aqui na medida em que para o mesmo
S {Maria} e o mesmo p {isto é um pintassilgo} o termo “saber/conhecer” flutua, se alarga e se
estreita oscilando consoante o contexto em que é proferido.
Em (ii), por sua vez, a alternativa contrastante q{é um corvo} estabiliza a
atribuição, uma vez que ajuda a codificar o conhecimento de S de que p. O contrastivista não dá margem para flutuação contextual. A razão adicional para a estabilidade da atribuição ternária em desfavor da binária é que o elemento mutável na relação de conhecimento não é o termo “saber/conhecer”, mas o espaço contrastante q. Na visão ternária desde que o contraste q esteja no campo discriminatório de S, então S continua sabendo que p. Ou seja, S {Maria} sabe que p {isto é um pintassilgo} ao invés de q {corvo, pica-pau, sabiá, canário, beija-flor e andorinha}, é verdade,
entretanto, o valor de verdade da atribuição ternária pode mudar, não pela instabilidade contextual (revisionismo semântico) do termo “saber/conhecer”, mas pela mudança no contraste q. S {Maria} sabe que p {isto é um pintassilgo} ao invés de q {sonhos verídicos, cérebro numa cuba, gênio maligno} é uma atribuição falsa. A semântica do termo
“saber/conhecer”, entretanto, permanece invariável, isto é, estável. Como já dito acima “o que é contexto-variável não é a relação denotada por ‘saber/conhecer’, mas ao invés disso, o valor do relatum q” (SCHAFFER 2004, p. 83).
A concepção ternária possui a vantagem de manter o score (as regras reguladoras) do progresso geral da pesquisa na busca do alcance da meta epistêmica, a verdade. Isto se dá porque a concepção de conhecimento ternária é capaz de se manter estável através dos mais variados contextos. A compreensão
indexical de “saber/conhecer” perde sua estabilidade através das mudanças contextuais e não consegue manter o score consistente. O progresso da pesquisa, para o contrastivista, pode ser aferido em seus vários estágios através dos diferentes valores de q. Um erro linguístico em que incorre os que tratam “saber/conhecer” como um indexical é tratá-lo como uma aberração lexical (lexical freak) sem precedentes. O erro, segundo Schaffer, é tratar “saber/conhecer” em paralelo ao indexical ‘eu’110. Há uma visível assimetria entre ambos. A simetria
lexical pode ser estabelecida entre “saber/conhecer” com a classe de verbos da qual fazem parte “preferir” e “explicar”. Portanto, segundo Schaffer, há razões mais adequadas para se tomar o termo “saber/conhecer” como um modelo linguístico ternário do que como um indexical.