Como já foi explanado em capítulos anteriores, os riscos psicossociais podem resultar em efeitos negativos para a saúde dos trabalhadores, quer ao nível mental e físico, sem nunca esquecer que os mesmos estão relacionados com a conceção, organização e gestão do trabalho, bem como com o contexto organizacional, económico e social. Sendo a empresa uma instituição organizada e complexa que tem em vista a produtividade e o lucro, as suas exigências e complexidades podem muitas das vezes entrar em choque com as características dos seus trabalhadores resultando em danos físicos e psicossociais (Freire, 2001).
Posto isto, interessa-nos de seguida identificar as dimensões de fatores de risco, através da análise dos resultados obtidos com o inquérito COPSOQ II – versão média (quadro 13), que os trabalhadores consideraram como risco para a saúde.
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Quadro 13 – Resultados do COPSOQ II -versão média
Dimensões Média a) Situação das dimensões Exigências quantitativas 2,71 Risco intermédio Ritmo de trabalho 4,48 Risco para a saúde Exigências cognitivas 3,41 Risco intermédio Exigências emocionais 3,51 Risco intermédio Influência no trabalho 2,11 Risco para a saúde Possibilidades de desenvolvimento 3,19 Risco intermédio Previsibilidade 3,40 Risco intermédio Transparência do papel laboral 4,57 Situação favorável
Recompensas 3,98 Situação favorável
Conflitos laborais 2,70 Risco intermédio Apoio social de colegas 3,16 Risco intermédio Apoio social de superiores 3,02 Risco intermédio Comunidade social no trabalho 3,89 Situação favorável Qualidade da liderança 3,57 Risco intermédio Confiança horizontal 2,54 Risco intermédio Confiança vertical 3,36 Risco intermédio Justiça e respeito 3,58 Risco intermédio Auto-eficácia 3,73 Situação favorável Significado do trabalho 3,84 Situação favorável Compromisso com o local de trabalho 3,07 Risco intermédio Satisfação no trabalho 3,17 Risco intermédio Insegurança laboral 4,20 Risco para a saúde Conflito trabalho-família 2,80 Risco intermédio
Saúde geral 3,59 Risco intermédio
Problemas em dormir 2,81 Risco intermédio
Burnout 3,49 Risco intermédio
Stress 2,96 Risco intermédio
Sintomas depressivos 2,66 Risco intermédio Comportamentos ofensivos 1,06 Situação favorável
Legenda: a) O valor indicado corresponde à média das médias das questões que integram cada uma das dimensões.
Através da leitura do quadro acima exposto, é possível constatar que as dimensões que representam um risco para a saúde, e nas quais incidiu o plano de intervenção, são as seguintes: ritmo de trabalho; influência no trabalho; e insegurança laboral. Não menos importantes, porém, são as dimensões identificadas como risco intermédio, nomeadamente as exigências quantitativas, cognitivas e emocionais; as possibilidades de desenvolvimento; a previsibilidade; os conflitos laborais; o apoio social de colegas e superiores; qualidade da liderança; confiança horizontal e vertical; justiça e respeito; compromisso com o local de trabalho; satisfação no trabalho; conflito trabalho- família; saúde geral; problemas em dormir; burnout; stress e sintomas depressivos.
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Contudo, importa destacar que dentro das dimensões que se posicionam no risco intermédio, existem três subescalas a ter em conta, uma vez que apresentam valores muito elevados e, consequentemente, próximos da situação de risco para a saúde. As dimensões que se encontram nessa situação são as exigências emocionais, saúde geral e burnout. Ademais, é de referir também as dimensões que, conquanto se encontrem em risco intermédio, apresentam valores próximos de uma situação favorável. Neste caso é de destacar as exigências cognitivas, previsibilidade, qualidade da liderança e justiça e respeito.
Por último, as dimensões que se apresentam numa situação favorável dizem respeito à transparência do papel laboral, recompensas, comunidade social no trabalho, auto-eficácia, significado do trabalho e comportamentos ofensivos11.
De um modo geral, as dimensões que se apresentam como risco para a saúde dos trabalhadores, tendo em conta os resultados do inquérito, vão ao encontro das conclusões retiradas com a observação direta, e estão intrinsecamente ligadas aos fatores de risco que se prendem “com a maioria dos domínios e contextos de actividade organizacional” (Sousa et. al, 2005, p.38). Assim, podemos afirmar que as dimensões identificadas pelos trabalhadores como risco para a saúde estão intimamente relacionadas com as características organizacionais no que diz respeito ao conteúdo e organização do trabalho, bem como às relações laborais preconizadas. Logo, as relações interpessoais conflituosas/tensas identificadas previamente como principal fator de risco no nosso modelo analítico não se verificaram, apesar das dimensões referentes a esse fator de risco se encontrarem em risco intermédio não apresentam valores próximos de uma situação de risco para a saúde.
No seguimento da análise procedeu-se ao cruzamento das dimensões, presentes no inquérito, com as variáveis independentes12 consideradas no nosso estudo – marca, idade, antiguidade e escolaridade – para se explorar as variáveis dependentes em análise (ver Anexo 9).
Ao debruçar-nos sobre os dados, verificamos que tanto os trabalhadores da marca A como da B/C/D consideram o ritmo de trabalho e a insegurança laboral como risco para a saúde o que pode estar relacionado com o facto de ambas as marcas serem
11 Para uma análise mais detalhada dos resultados do COPSOQ II - versão média consultar o Anexo 7. 12 As variáveis independentes “sexo” e “estado civil” foram excluídas do nosso estudo devido à nossa amostra ser maioritariamente constituída por trabalhadores do sexo feminino e casados.
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maioritariamente constituídas por trabalhadores acima dos 40 anos de idade e com antiguidade acima dos 20 anos tal como constatamos no quadro 9 presente no capítulo 2. Em relação ao ritmo de trabalho isso pode-se explicar em relação à idade uma vez que com o avançar da idade a coordenação, a mobilidade, a agilidade e flexibilidade articular diminui (Costa, 2008). No que concerne à problemática da insegurança laboral, o facto de esta apresentar valores alarmantes pode dever-se em parte ao contexto económico e laboral, que abordamos anteriormente no capítulo 1, que fez com que a ideia do “emprego para toda a vida” se definhasse. Note-se que uma das mudanças em relação às competências do trabalhador está relacionado com a polivalência e com o conhecimento e capacidades diversificadas o que pode, segundo Giddens (2010, p.417), fazer com que “muitos, especialmente os mais velhos, podem nunca mais conseguir encontrar empregos comparáveis aos que tinham antes, ou, talvez mesmo, qualquer trabalho remunerado”.
Por outro lado, no que respeita à dimensão influência no trabalho são os trabalhadores da B/C/D que percecionam uma menor influência (dimensão apresentada como risco para a saúde) podendo de certa forma estar associado à natureza do trabalho (tarefa mais simples, monótona e repetitiva), ao passo de que na A o produto é mais complexo envolvendo um maior número de decisões e menor automatização de movimentos. Ainda no que concerne à B/C/D, os seus trabalhadores percecionam de maneira positiva as recompensas, a comunidade social do trabalho, a qualidade de liderança, a justiça e respeito, a auto-eficácia, o significado do trabalho e os comportamentos ofensivos; já os trabalhadores da A apenas percecionam a transparência do papel laboral, o significado do trabalho e os comportamentos ofensivos como uma situação favorável. Aliás, são estes mesmos trabalhadores que percecionam a saúde geral como uma situação de risco para a saúde.
No que respeita à idade, ambos os grupos etários consideram o ritmo de trabalho, a influência no trabalho e a insegurança como fator de risco para a saúde. Igualmente como risco para a saúde, os trabalhadores com idade igual ou superior a 40 anos consideram as exigências emocionais e percecionam de forma positiva, em oposição aos trabalhadores com menos de 40 anos, a qualidade da liderança, a confiança horizontal, a justiça e respeito, o conflito trabalho-família e os problemas em dormir. Já os trabalhadores com idade inferior a 40 anos percecionam mais positivamente a auto- eficácia.
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Relativamente à antiguidade, todos os inquiridos consideraram ritmo de trabalho, influência no trabalho e insegurança do trabalho como risco para a saúde indo ao encontro do que foi exposto anteriormente. Outra dimensão que se apresentou como risco para a saúde foi a dimensão saúde geral nos trabalhadores que laboram entre 10 e 20 anos e há mais de 20 anos na empresa. Aliás, olhando para a média conseguimos aferir que a perceção de uma saúde mais deficitária aumenta com a antiguidade, o que pode estar relacionado com o desgaste físico provocado pelas características do trabalho de montagem em linha paralelamente ao envelhecimento dos trabalhadores.
Por último, ao olharmos para a escolaridade verificamos que tanto os inquiridos do ensino básico como do secundário consideram como risco para a saúde o ritmo de trabalho e a insegurança laboral. Por outro lado, são os trabalhadores do ensino secundário que percecionam negativamente as exigências emocionais; e os trabalhadores com o ensino básico uma menor influência no trabalho. Ainda assim, são estes últimos que percecionam positivamente a comunidade social no trabalho e a qualidade de liderança13.
Podemos, assim, concluir que ao fazermos o cruzamento das variáveis independentes presentes no nosso modelo analítico acabamos por obter as mesmas dimensões sinalizadas como fator de risco para a saúde, havendo apenas algumas exceções: a saúde geral apresentou-se como risco para a saúde em função da marca e da antiguidade; e as exigências emocionais apresentaram-se como risco para a saúde em função da idade e da escolaridade.
1.2 Análise das dimensões assinaladas como “risco para a saúde” e suas