Nos capítulos precedentes historicizamos o percurso constitutivo das ideias conservadoras de Plínio Corrêa de Oliveira de seu nascedouro até a sua maturidade. Em um primeiro momento abordamos sua produção entre os anos de 1930 até o final da década de 1950. Demos ênfase aqui a duas obras que – como justificamos então – são marcos dessa caminhada: Em defesa da Ação Católica (1943) e Revolução e Contra-Revolução (1959). A última dessas tida como sua obra principal e manifesto de fundação da TFP.1
Na sequência investigamos o seu posicionamento e a sua atividade no contexto imediatamente anterior ao golpe que instaurou no Brasil a ditadura iniciada em 1964 indo até o ano de 1968, onde Oliveira fará a sua estréia como colunista do jornal Folha de São Paulo, tendo também nestas linhas explicado o significado dessa nova fase. Sendo assim, nos debruçamos com mais vagar sobre a explicação da tríade conceitual “Tradição, Família e Propriedade” conforme exposta na coluna semanal de Plinio Corrêa de Oliveira no periódico.2
1 Ver o primeiro capítulo deste trabalho. 2 Ver o segundo capítulo deste trabalho.
No último capítulo desta dissertação enfocaremos as “batalhas” travadas pelo colunista contra aquelas que ele julgava serem as manifestações mais claras da “Revolução” no contexto histórico que é abrangido pela balizas cronológicas deste estudo (1968-1976): A “esquerdização” do clero e a consequente guinada “progressista” da Igreja católica; o avanço “marxista” em diversas partes do mundo, notadamente com seus focos na América Latina; e, por fim, a política “vacilante” do “Mundo Ocidental” e da Igreja para combater esses “perigos”.
O clero vermelho e outros subversivos: contra o avanço comunista
Como apontamos logo no começo deste trabalho, a relação de Oliveira com a Igreja Católica sofrerá um progressivo afastamento desde o início de sua militância até as décadas de 1960 e 1970.3 Já mostramos como, desde a década de 1930, existiam conflitos entre grupos dentro da Igreja (tanto leigos como religiosos) que podem ser tachados genericamente de mais “progressistas” (por pregar mudanças ou reinterpretações de algumas posturas e dogmas da instituição) e os conservadores como Plinio. No entanto, até o final dos anos 1950, a linha oficial ditada pelo comando católico se coadunava no essencial como o pensamento do futuro líder TFPista.
3 Foge ao escopo desse trabalho mas, apenas para registro, é de se notar que, o final do pontificado de Paulo VI
e a subsequente ascensão de João Paulo II (após o brevíssimo período de João Paulo I) trouxeram novas inflexões para o ideário católico. Em menos de dez anos, significativas mudanças tinham se operado em pontos fundamentais da orientação pós Concílio Vaticano II. Um exemplo disso é a mudança da política “tolerante” com o “comunismo”– tão criticado por Plinio – para o anticomunismo militante de João Paulo II. Essa nova linha contribuiu para que se iniciasse – pelo menos publicamente – uma “reaproximação” entre a TFP e a Igreja.
Outro movimento de destaque foi a firme e pública condenação à Teologia da Libertação ordenada pelo papa e comandada pelo Cardeal Joseph Ratzinger, prefeito por quase 24 anos da Congregação para a Doutrina de Fé (antiga Suprema e Sacra Congregação do Santo Ofício) e futuro papa Bento XVI. Como veremos na sequência, Plinio dedicará considerável energia ao combate desse movimento (muito forte na América Latina no período) e em especial para o seu nome mais “perigoso” no Brasil: Dom Pedro Casaldáliga.
Essa situação começará a mudar com a eleição de João XXIII e, posteriormente, Paulo VI para o magistério supremo da Igreja. Marco dessas mudanças será a realização do já referido Concílio Vaticano II. Tivemos a oportunidade de esmiuçar esse processo, bem como a compreensão do mesmo, em escala nacional e mundial, na ótica de Plinio de Oliveira.
Cuidaremos agora de detalhar – em consonância direta com o capítulo anterior – a configuração desses conflitos nas páginas de sua coluna em Folha de São Paulo, bem como em sua obra A Igreja ante a escalada da ameaça comunista: Apelo aos Bispos silenciosos4, publicada em 1976, e que tenta sintetizar a evolução da “ameaça” desde os anos
do governo de João Goulart. Além disso, como não poderia deixar de ser, analisaremos a “Declaração de resistência”5 ao papa Paulo VI publicada com grande estardalhaço6 em 1974. Já o primeiro artigo publicado por Plinio em Folha de São Paulo será sobre o tema. Em agosto de 1968 estava em curso a coleta de assinaturas para o abaixo-assinado promovido pela TFP com a intenção de denunciar a “infiltração esquerdista em meios católicos”7 e ele parece ter achado nesse tema o gancho que lhe permitiria traçar um perfil da sociedade ocidental e, mais especificamente, da recepção do comunismo na sociedade brasileira.
4 OLIVEIRA, Plinio Corrêa de. A Igreja ante a escalada da ameaça comunista: Apelo aos Bispos
silenciosos. 4ª Edição. São Paulo: Vera Cruz, 1977. A primeira edição do livro data de junho de 1976.
5 TFP. A política de distensão do Vaticano com os governos comunistas – Para a TFP: omitir-se? ou
resistir? Folha de São Paulo, 10 de abril de 1974. Embora esse texto não seja assinado por Plinio podemos
considerá-lo como tal por pelo menos dois motivos: Em primeiro lugar, tudo aquilo que já expusemos acerca da organização nos autoriza a afirmar a impossibilidade de uma publicação mesmo que levemente discordante do entendimento de seu líder. Além disso, o estilo do texto sugere que o seu redator – ou pelo menos o seu redator final – foi o próprio Oliveira.
6 Importante destacar que embora citemos a versão publicada na Folha de São Paulo esse documento foi
publicada também em Catolicismo e reproduzido (gratuitamente ou de forma paga) em mais de 70 órgãos de comunicação nacionais de internacionais durante o restante do ano de 1974 e, internacionalmente, até o início de 1975. A lista completa e a data das publicações pode ser encontrada em TFP (Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade). Um Homem, uma Obra, uma Gesta: Homenagem das TFPs a
Plinio Corrêa de Oliveira. São Paulo: Edições Brasil de Amanhã, 1988. p. 259 e 260 (nota 4).
O pretexto para o lançamento do abaixo assinado foi a descoberta do chamando “Documento Comblin”8. Elaborado pelo padre belga José Comblin9 tratar-se-ia de um diagnóstico sobre a sociedade brasileira e latino-americana preparado para a discussão que ocorreria naquele ano na II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, que se realizaria na cidade de Medellín (Colômbia).
O documento defendia que o Brasil (e a América Latina em geral) não estava “em desenvolvimento”. Ao reverso, argumentava que apenas alguns setores conheciam esse desenvolvimento e que essa disparidade, longe de ser um componente acidental do processo, era ponto chave e intencional da mecânica de domínio e exploração das classes subalternas pelas dominantes. Além disso, defendia que a saída para essa situação estaria muito provavelmente em uma revolução social violenta, uma vez que não seria possível imaginar que esses grupos dominantes abdicassem de sua condição de forma pacífica.10
De fato, esse posicionamento colocava o sacerdote como um arquétipo de tudo aquilo que Plinio via como “infiltração esquerdista” na Igreja. E ele teve oportunidade de deixar isso claro em Folha de São Paulo imediatamente após os acontecimentos. No dia 23 de
8 A existência do documento em questão veio a público no início de junho de 1968, quando o vereador
recifense Wandernkolk Wanderley denunciou à imprensa a sua existência, sem no entanto revelar como o obtivera. No dia 19 de junho a Folha de São Paulo publicou uma matéria (que nunca foi desmentida) afirmando que o Serviço Secreto do Exercito já tinha conhecimento do texto há pelo menos dois meses, mas, ao invés de agir diretamente contra o sacerdote, preferiu que o texto “vazasse” para a imprensa como forma de provocar uma polêmica que mobilizasse setores conservadores contra o padre. Ver: Exército já conhecia o
documento de Comblin. Folha de São Paulo, 19 de junho de 1968.
9 Já tivemos a oportunidade de nos referirmos a esse personagem em nosso primeiro capítulo. Joseph (José)
Comblin (1923-2011) foi um sacerdote belga radicado no Brasil, com passagens posteriores pelo Chile, desde a década de 1950. Sociólogo e teólogo foi um dos expoentes da Teologia da Libertação no continente. Depois de ter sido professor na Escola Teológica dos Dominicanos em São Paulo entre o final da década de 1950 até o início dos anos 1960 foi, em 1962, para o Chile, onde lecionou na Faculdade de Teologia do Chile. No final dessa década foi convidado por Dom Helder Câmara para assumir uma cátedra no recém criado Instituto de Teologia do Recife. Organizou também seminários rurais em outros pontos de Pernambuco e na Paraíba, onde difundiu a sua “Teologia da enxada”. Por suas posições socialistas (e nas décadas de 1960 e 1970 muito próximas ao marxismo) e sua amizade com Dom Helder esteve constantemente vigiado pelo aparato repressivo da Ditadura. Além disso, sofreu constante pressão de diversos setores conservadores, com amplo destaque para a TFP, sendo finalmente expulso do país em 1971, retornado apenas em 1980. Veremos ao longo deste tópico alguns lances desse conflito.
junho – antes, portanto de sua estréia como colunista – o jornal deu destaque a carta enviada por ele à Dom Helder solicitando que o bispo tomasse medidas contra o padre.11
O conteúdo dessa carta é revelador sobre a postura que a TFP adotava naquele momento. Usando um tom protocolarmente respeitoso para o trato com Dom Helder (tom esse que seria paulatinamente abolido nos anos seguintes) Plinio começa por fazer, a seu modo, um arrazoado dos argumentos expostos por Comblin, afirmando que esse “visa implantar no Brasil a tríplice reforma urbana, agrária e empresarial”. Essa seria eivada de ideais comunistas que levariam a uma “revolução no Estado” (de caráter “político-social”) e outra na Igreja. Para isso se propugnaria inclusive a “dissolução do Exército Nacional e a distribuição de armas ao povo”.12 Feito isso ele cobrará de Dom Helder que
“expulse do Instituto Teológico de Recife, e da ilustre Arquidiocese em que ainda refulge a gloriosa recordação de Dom Vital, o agitador que se aproveita do sacerdócio para apunhalar a Igreja, e abusa da hospitalidade brasileira para pregar o comunismo, a ditadura e a violência no Brasil.”13
Essa punição tinha, na ótica pliniana, pelo menos três fundamentos lógicos. O primeiro – como se entrevê acima – é que o missivista espera que as autoridades nacionais tomem enérgicas providências contra Comblin e, sendo assim, não se poderia esperar contemporização, ou mesmo a interposição de entraves, por parte das autoridades eclesiásticas.
Os outros fundamentos são mais reveladores. Para Plinio, o padre havia traído a Igreja por, além de criticá-la em suas estruturas, cogitar apresentar o documento para que
11 TFP pede a d. Helder Câmara que tome medidas contra o pe. Comblin. Folha de São Paulo, 23 de junho
de 1968. Na matéria foi publicada a integra de carta enviada por Plinio como presidente da TFP.
12 Idem. 13 Idem.
fosse tomado como linha oficial na Conferência Geral do Episcopado. Isso era um absurdo uma vez que, como defende Oliveira, os padres “vermelhos” não eram sequer uma exceção dentro da Igreja. Antes, eles estavam mais para um perigoso “grupo infiltrado” que tentava perverter a “esposa mística de Cristo”. Ou seja, nesse momento histórico – e ainda que isso seja uma decisão política – a Igreja Católica é tratada como um corpo sadio que está sob ataque. É latente na carta a perspectiva de demonstrar ao público que a instituição continua defendendo os valores sob os quais a TFP foi fundada.
O último fator contra o sacerdote belga era a “falsificação” da realidade em seu diagnóstico. Essa “ridícula impostura” seria deliberada e teria fins eminentemente políticos. Segundo a carta,
“Ele [o padre Comblin] qualifica a estrutura social hodierna do Brasil e da América Latina como ‘uma das mais aristocráticas que jamais houve na História’. Ela se constituiria de duas classes, uma de brancos opressores e exploradores, e outra de índios, negros e mestiços explorados e oprimidos. Qualquer brasileiro sabe a que
ponto nesse quadro não existe nem uma imagem da realidade, nem sequer uma caricatura dela, mas uma invenção de todo em todo gratuita: uma inverdade
integral que é impossível não qualificar de grosseira impostura.”14
Essa desqualificação é sintética da visão de mundo de Plinio e de sua perspectiva de intervenção social. Ideias como a “harmonia” entre as classes sociais e o encobrimento do caráter conflitivo das relações de produção já foram abordados anteriormente. Aqui interessa sobretudo destacar como a distorção da realidade social será peça fundamental em seus ataques às novas posturas católicas entre as décadas de 1960 e 1970.
Uma vez que não haveria opressão e conflito de classes (exceto quando incentivado pelos “revolucionários”), que o preconceito racial não estaria fortemente presente na dinâmica social latino-americana e que a situação de miserabilidade endêmica em diversos pontos do continente seria ignorada, todas as iniciativas que para sanar ou diminuir esses problemas seriam externas à própria realidade.
Dito de outro modo: se as populações latino-americanas não conviviam com essa situação, as tentativas de mudança – mais ou menos radicais – que surgiriam teriam que ser postas “de fora”. Assim, os sacerdotes definidos por ele como progressistas (partidários das reformas litúrgicas, da modernização dos costumes, da valorização dos leigos e das comunidades, das mulheres, dos pobres, das reformas nas estruturas sociais, etc) não estariam se pondo em consonância com os interesses de suas comunidades. Antes, estariam trazendo a elas, “pacíficas e tementes a Deus” o “vírus” da “Revolução”. E essas comunidades ficariam mais indefesas exatamente por essas ideias advirem daqueles que deveriam ser os bastiões da “Contra-Revolução”. Essa perspectiva – que se encaixa perfeitamente com o restante de sua visão de mundo – estará sempre como pano de fundo de seu combate ao “clero vermelho”, mesmo quando não for tão claramente referida em alguns textos.
Mas, voltemos ao primeiro artigo para Folha de São Paulo. Como dissemos, nele Plinio traça um perfil da sociedade atual que possibilitaria a “infiltração” já por ele denunciada na carta a Dom Helder. Aqui, sua principal preocupação parece ser destacar que “O esquerdismo é no Brasil, um fenômeno minúsculo e burguês. É o morbus de uma irrelevante minoria burguesa. Ou antes ‘clérico-burguesa’”15. Já expusemos como ele via o componente “clerical” logo acima. Já o componente “burguês” terá outra explicação.
No capítulo anterior destacamos a definição de “burguesia” que se pode extrair dos textos plinianos, sendo esta predominantemente voltada para a riqueza monetária do grupo, e não para o seu lugar na produção social. Dessa forma, quando define essa “minoria burguesa” esquerdista ele está quase sempre se referindo a camadas médias da população (notadamente a juventude universitária) que se mostravam preocupadas com as desigualdades sociais do país e/ou, junto com extratos superiores, eram mais liberais em questões morais. Com isso, se compunha um quadro onde esse “progressismo” era apontado como uma criação intelectual de um grupo que, por um lado se afastava dos valores metafísicos cristãos em prol dos valores “modernos” e, por outro, não teria noção da realidade nacional.
A comprovação para isso estaria exatamente na não adesão dos “pobres”, uma vez que o comunismo seria prejudicial a sua situação. Assim, afirma ele, “É nos bairros de população mais pobre, que as manifestações de inconformidade contra a campanha da TFP são mais raras. [...] No Brasil o esquerdismo não tem por si as camadas populares.”16. Com isso ele pretende demonstrar (além da já referida ausência de conflitos sociais) que, afastado desses “modismos intelectuais” não haveria espaço para ideias “esquerdistas” nas “pessoas simples”.
E é aí que isso se articula com a situação dos “padres infiltrados”. Sua “esquerdização” seria uma decorrência da absorção de valores não apenas contrários aos da Igreja, mas efetivamente de outra ordem, uma vez que não guardariam qualquer relação, no âmbito formulativo, com os preceitos da “verdade revelada”. Por isso mesmo não poderiam sequer ser entendidos, a rigor, como uma “parcela” da Igreja, e sim como um elemento estranho (infiltrado). Desse modo, a sacralidade da instituição – ainda que com esforços léxicos – restava preservada.
Já em 1969 uma inflexão importante pode ser observada. Por ocasião de sua eleição/indicação como presidente de fato da república, o General Médice fez um discurso “ao povo brasileiro” alguns dias antes de sua posse. Nele, segundo o relato do colunista, dizia ser chegada “a hora de fazermos o jogo da verdade”. Para Plinio isso era um indicativo alvissareiro, pois indicaria uma disposição do chefe de estado em não contemporizar com os “elementos subversivos” acobertados em diversas organizações respeitáveis. Diz ele que
“O desejo generalizado de contemporizar, de ladear questões, de evitar desentendimentos, levou a isto. Mas, enfim, há limite para tudo. O general Médici teve o mérito de sentir que, no caso, o limite estava ultrapassado, e de o dizer com força. Eis o fato.”17
Assim sendo, o general mandava uma mensagem direta para certo setor da Igreja Católica. Para ilustrar isso são elencados exemplos de organizações que só escapariam de uma maior pressão estatal por conta de seus vínculos (diretos ou indiretos) com a Igreja. A Ação Popular, a JOC (Juventude Universitária Católica) e alguns sacerdotes especificamente citados seriam os elementos para a comprovação dessa teoria.
O que é interessante aqui é que segmentos da hierarquia começam a ser especificamente atacados. Servindo-se dos exemplos trazidos pelo escritor Gustavo Corção, ele dirá que um grupo de padres mineiros “com o apoio das autoridades eclesiásticas de Belo Horizonte, e da CNBB, difundiam o mais descarado marxismo”. Ainda no mesmo estado outro grupo de religiosos ligados a AP preconizaria a “tomada do poder com o emprego da luta armada”18.
17 OLIVEIRA. "O jogo da verdade" e a crise religiosa. 15 de outubro de 1969. 18 Idem. Grifo nosso.
Para reforçar esses argumentos Plinio recordará o caso do sempre citado padre Comblin. Referindo-se ao abaixo-assinado que mencionamos acima ele dirá que “Apesar de denunciado por uma petição com mais de 1.500.000 assinaturas, anda livre pelo Brasil o comunista belga. Os jovens que, persuadidos por ele, se ponham a conspirar, poderão ser punidos. Ele, o grande responsável, continuará incólume.”19. Isso pois, se valeria da “proteção da batina”. Assim, devido ao suporte da Igreja, as autoridades civis ficariam constrangidas a evitar providências enérgicas contra o “subversivo”. Providências essas que seriam tomadas no caso de um leigo.
Isso levará o autor a empregar um termo que seria inimaginável em um passado recente: “Esquerda católica”. Dizendo que o Partido Comunista (e organizações análogas) seriam incompetentes e antipáticas para conquistar a “opinião pública”, ele creditará o avanço socialista/progressista exatamente à inserção (indevida) desses ideais na mensagem cristã. Em suas próprias palavras: “O que dá ao comunismo condições para ir sensibilizando o País é a chamada esquerda católica”.20
Evidentemente que o uso da expressão é relativo. Por tudo que já indicamos, na visão do líder TFPista seria impossível a existência de uma autêntica “esquerda católica”, uma vez que qualquer tipo de “esquerdismo” seria a negação dos preceitos da Igreja. Por isso mesmo é relevante que a expressão seja usada. E o quê vem na sequência é igualmente revelador do tamanho da ruptura que vinha se operando.
O homem que em 1959 afirmava a impossibilidade da “Contra-Revolução” triunfar apartada da Igreja fará agora um apelo ao poder civil para que atue apesar da “inação” desta e – em virtude da conjuntura exposta pelo próprio Plinio – até mesmo contra ela. Assim, não vindo as respostas da Hierarquia católica, teria o Brasil o direito “à legitima defesa”. Isso “inspiraria aos detentores do Poder Público outros meios de ação: prudentes e
19 Idem. 20 Idem.
respeitosos sempre, mas também inteiramente decisivos.”21. Se nesse momento a Igreja não perseguia os padres engajados nas lutas sociais, caberia à Ditadura fazê-lo.22
Procurando reforçar a incompatibilidade entre o socialismo e o catolicismo, o seu artigo da semana seguinte será um complemento ao que acabamos de analisar. Falando da “questão religiosa”23 do século XIX que acarretou uma disputa entre Estado e Igreja ele dirá que tal não corre o risco de se repetir caso o governo adote as medidas por ele preconizadas, uma vez que “a esquerda católica não exprime o pensamento da Igreja. E como tal não merece o apoio, nem da hierarquia, nem do povo católico”.24 Ou seja, os bispos que
apoiavam os “subversivos” faziam isso ao arrepio dos ditames da Igreja. E ainda dela podia se esperar a resposta – mesmo que provocada pela celeridade do poder civil.
Embora seja fácil conjecturar que já nesse momento Plinio tinha sérias prevenções contra Paulo VI, publicamente ele ainda será invocado como uma esperança. Desse modo,