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8 CLC Application in Steam Cycles

8.2 Single Reheat CLC-Steam Cycle (SRCLC-SC)

O distrito de Canabrava fica na caatinga: área de terras boas para a agricultura e a pecuária. Situado a 28 km da sede, o povoado reúne uma população de 350 habitantes. Abriga também a escola estadual Professora Zulmira Magalhães que, freqüentada por uma média 256 estudantes do povoado e de sua circunvizinhança, oferece o primeiro grau, o segundo e uma modalidade de EJA6. Os alunos das áreas mais distantes são conduzidos por um ônibus da Secretaria Estadual de Educação. A escola é bem-estruturada, com quadra de esportes, sala de informática e biblioteca.

Canabrava abriga ainda a Creche Municipal Iáiá Ciriaca, com aproximadamente 30 crianças que estudam em dois períodos. Tem um posto de saúde que possuía em novembro de 2006 uma médica, uma enfermeira, dois técnicos, uma auxiliar de serviços gerais e uma agente de saúde comunitária. O atendimento é precário, problema que se costuma atribuir à

6 Educação de Jovens e Adultos é uma modalidade de Ensino, prevista pela LDB para atender aos jovens e adultos que

não conseguiram estudar no período de sua faixa etária.

Ano Habitantes Zona rural Habitantes Zona-urbana Total Área Componentes

1960 6.098 799 6.897 4.260 km2 Arraias, Novo-Alegre e Combinado

1970 10. 820 3.175 13.995 4.260 km2 Arraias, Novo-Alegre e Combinado

1980 9.257 2.213 11.470 --- Arraias, Canabrava, Novo-Alegre

1990 7.366 5.518 12.884 5.419 km2 Arraias, Canabrava

2000 4.848 6.136 10.984 5.786,8 km2 Arraias, Canabrava

falta de pessoal. Por isso, uma ambulância com um médico, uma enfermeira e um consultório móvel visita a comunidade mensalmente. Praticamente 90% dos moradores do distrito têm energia elétrica e água encanada não-tratada, que captam de um poço artesiano próximo ao córrego São Tiago.

Trata-se de uma área isolada. Os meios de comunicação se restringem a um orelhão público e à televisão, que recebe os canais SBT e Globo. Surpreendentemente, entretanto, há acesso à rede internet. A falta de telefonia deriva em grande parte de uma disputa política, como revela uma entrevistada:

[...] existe uma verba ai que chegou do governo para colocar uma antena para funcionar telefones residenciais, mas precisa de um terreno pequeno para fazer o abrigo dessas máquinas, mas a prefeita, minha filha, disse que vai deixar isso aqui de lado, quem quiser as coisas agora, vai procurar o Nergil (Entrevistada 08/2006).

Nergil foi candidato a deputado estadual e teve uma votação muito expressiva no

município, um resultado que custou muitos votos do esposo da prefeita, que disputava o mesmo cargo. Para os moradores, foi por isso que a prefeita decidiu não beneficiar o distrito: não tem muitos votos lá. Ou seja, a região que dá apoio é contemplada, as outras, não. Tal postura pode ser resumida por uma velha expressão usada por Leal: “Aos amigos pão, aos inimigos pau” (1976:35).

Duas linhas de ônibus passam pelo distrito. Saída da cidade, uma vai à destilaria de álcool Depasa. Saída de Arraias, a segunda tem como destino final um povoado chamado Poções. Com poucas opções de transporte, os moradores da região também reclamam das condições das estradas locais: apenas a via principal é patrolada. Quanto às vicinais, é “duro demasiado ter que passar por elas”. Para alguns moradores:

[...] é uma vergonha, afinal a gente mora aqui no canto, e sempre a gente pede para arrumar estas estradas. Na prefeitura eles falam que não tem dinheiro, nem pra botar combustível e nem tem as máquinas arrumadas. Mas a gente tá sabendo que tem máquinas e combustível pra fazer tanques lá pro mundo do meu Deus, deu no jornal a senhora não sabe disso não? Mas deixa pra lá as eleições vão chegar logo e a gente dá o troco (Entrevistada n° 10/2006).

Ainda que haja uma promessa de resistência neste “dar o troco”, é bem possível que também ele se inscreva no sistema de trocas clientelista. Afinal, como Queiroz bem ressalta ao descrever o coronelismo, trata-se de um sistema baseado em uma “reciprocidade de favores, como que um contrato tácito entre o cabo eleitoral e os eleitores. Estes oferecem seus

votos na expectativa de um favor a ser alcançado, podendo o contrato ser rompido quando uma das partes não cumpre o que dela se espera” (1976: 168).

Os habitantes da comunidade da Canabrava se enquadram na categoria de caatingueiro descrita por Suárez (1998:37): povos abertos, entendidos, que aceitam a modernidade com satisfação, têm o tipo de entendimento na qual o permite trabalhar para seu próprio bem estar.

Mesmo sendo esclarecidos e atualizados, pois lêem jornal e mantêm-se a par dos fatos do município e do distrito, não abrem mão da reciprocidade, das “trocas”. Por isso, sem estradas melhores, sem o acato às suas reivindicações, não há voto. Cobram o empenho dos políticos e possuem força de voto pois já elegeram cinco vereadores nas últimas três décadas. Apesar dos ganhos, alguns ainda consideram o povoado subdesenvolvido. O certo é que a expressão “nas eleições a gente dá o troco” evidencia a relação da dádiva e reciprocidade apontada por Mauss (2003). Se não recebe algo, como a estrada, o caatingueiro não dá o voto, demonstrando que sua sociabilidade é mantida pela reciprocidade das dádivas.

No distrito de Canabrava quase não tem comércio. Existe uma padaria, três bares que não apenas vendem bebidas, mas funcionam também como mercearias. Duas fábricas – uma de farinha e uma de pinga – vendem seus produtos tanto no distrito quanto na sede. Finalmente, uma marcenaria produz móveis bonitos, mas feitos por encomenda. Como não há escala, os preços são caros, o que leva os moradores a buscarem Arraias ou Campos Belos para fazer compras maiores.

Há uma capela católica construída na década de 1970. O padroeiro é o Sagrado Coração de Jesus, festejado todo mês de junho. Os festejos têm forma peculiar. Alguns rituais são os mesmos da romaria de N. Senhora dos Remédios: levanta-se o mastro, passa a folia do Divino e segue uma cavalgada de vaqueiros e fazendeiros. Os casais organizam e rezam a novena. Normalmente as mulheres pertencem ao Apostolado da Oração e encerram a novena com um leilão, repleto de produtos da região.

Segundo os moradores entrevistados, o padre dificilmente comparece. Os casados, após a novena fazem um baile no galpão da capela, que foi construída pela Associação do Apostolado da Oração, sob presidência de Dona IM, uma líder local que – depois de criar uma

associação dos moradores da região – foi candidata à vereadora. Mesmo sem ter sido eleita, continua sendo uma pessoa de referência na comunidade.

No mês de maio comemoram a festa de Nossa Senhora. Essa organização cabe aos solteiros. Perguntei a uma entrevistada o porquê da separação entre solteiros e casados, ela me respondeu:

[...] isso é muito antigo, vem desde que a Igreja tinha as “filhas de Maria”, uma associação constituída só de solteiras, atualmente os homens solteiros participam. Embora eles sejam poucos, agora eles fazem parte e ajudam da festa, enquanto que o Sagrado Coração é o apostolado que organiza, e no apostolado não tem gente solteira não, só os casados (Entrevistada n º 08/2006).

A proximidade da cidade é um fator que favorece a participação nas festas da matriz. Com isto, absorvem aspectos do catolicismo oficial, sem deixar seus santos e oratórios.

As igrejas evangélicas também estão presentes no distrito. A sede de uma é até maior que a capela católica – e outra acaba de construir um templo menor. Ambas são conduzidas por pastores da região, e vem ganhando novos fiéis e adeptos desde 2000.

A “Lagoa da Pedra” faz parte do distrito. Conforme mencionado no capítulo anterior, foi reconhecida como área remanescente de quilombolas em 2005. Vivem no local descendentes dos escravos que preservam não apenas rezas, como também a dieta e a vestimenta de seus antepassados. Seus rituais, entretanto, também se juntam às festas católicas, durante as quais celebram a “súcia”, festa já explicitada anteriormente.

A recente delimitação das terras é vista como uma vitória para os quilombolas, especialmente os mais pobres, que percebem nela o resgate parcial de uma dívida histórica com seus antepassados. Indagados sobre a conquista, dizem tratar-se de um direito e afirmam que o esforço valeu a pena. Mesmo reconhecendo o sofrimento da luta e da espera, orgulham- se da tradição de resistência e da nova organização social e política.