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3. Reactor analysis

3.1. Fluidized-bed Reactor

3.1.2. Single fluidized-bed reactor

Vai, dentro de lá, num quarto, muito recanto, sediava, no escuro que já fazia, um oratório em armariozinho, construído pregado na parede; que estava com suas poucas imagens e um toco para se acender, de vela-benta. Nisso não tinham desrespeitado de mexer. E nós, então, cada um depois dum, viemos ao quarto-do-oratório beijar a santa maior, que era no seu manto como uma boneca muito perfeita, que era a Minha Nossa Senhora Mãe-de-Todos. Se comeu, se dormiu (Guimarães Rosa)1.

Uma pequena, frágil e enegrecida imagem de Nossa Senhora da Conceição, encantada através da apropriação efetuada por pescadores pobres em 1717, e rebatizada como “Aparecida” por dentro da “matriz religiosa brasileira”2, pode abrir uma entrada para a compreensão das maneiras como opera o imaginário religioso popular. Embora seu “batismo cultural” ainda esteja em processo3, esta imagem da Virgem Maria entrou no imaginário de incontáveis mulheres e homens em luta pela sobrevivência, sujeitos de uma cultura de “reciclagem”4.

1 . Grande Sertão: Veredas. 19a. ed. Rio deJaneiro: Nova Fronteira, 2001, p. 414.

2 . Conforme a teoria de Bittencourt Filho, acerca de um substrato religioso-cultural que ele denomina “matriz

religiosa brasileira”. Por um processo de complexa interação de idéias e símbolos religiosos que se amalgamaram, desde o século XVI se foi operando como que uma fusão de diversos elementos, especialmente do catolicismo ibérico, que incluía a magia européia, com as religiões indígenas que vieram com a mestiçagem e com as religiões africanas que se articularam num vasto sincretismo. No século XIX acrescentaram-se o espiritismo europeu e alguns fragmentos do catolicismo romanizado. Dessa espécie de fusão resultou, principalmente, a gestação de uma mentalidade religiosa média dos brasileiros, coletiva, que ultrapassa as delimitações das classes sociais. Depois de incorporar-se na prática religiosa, essa mentalidade expandiu sua base social através de incontroláveis injunções, até ser definitivamente incorporada ao inconsciente coletivo nacional. Ela é um resultado inerente ao encontro de culturas e visões de mundo. Cf. BITTENCOURT FILHO, José. Matriz Religiosa Brasileira: religiosidade e mudança social. Petrópolis, RJ: Vozes/ KOINONIA, 2003, pp. 40-41; 49.

3 . BOFF, Clodovis. Maria na Cultura Brasileira: Aparecida, Iemanjá, Nossa Senhora da Libertação.

Petrópolis: Vozes, 1995, p. 45.

4 . O termo “reciclagem” é utilizado por Cechin, a partir da cultura dos catadores que, do lixo, retiram material

reciclável para sobreviver. A imagem de Nossa Senhora Aparecida, “reciclada” pelas mãos calejadas de um pescador, artesão popular, pode voltar a ser venerada na casa de gente pobre. Ela se tornou imagem e semelhança

É através da força simbólica desta imagem reciclada e, portanto, apropriada pelos sujeitos da religião popular à maneira da bricolagem, que a grande maioria dos membros de CEBs do nosso campo de pesquisa expressa sua devoção a Nossa Senhora. Trata-se de uma imagem com capacidade de hibridação e que permite certa circularidade entre os espaços oficial e popular.

A imagem esculpida não tem assinatura; feita de um tipo de barro que resulta numa imprevisibilidade de coloração, permaneceu por muitos anos no lodo do fundo do rio Paraíba do Sul, quebrada, com a cabeça separada do corpo. Devido à quebradura do pescoço, faltavam-lhe as partes laterais dos cabelos, que desciam até os ombros. Depois de retirada das águas, foi exposta ao lume e à fumaça dos candeeiros, velas e tochas, primeiro no oratório doméstico dos pescadores que a encontraram, depois na capelinha de Itaguassu. Assim, enegreceu-se. Filipe Pedroso, o mais velho dos três pescadores que a encontraram, concertou- a. Como um bricoleur, colou a cabeça ao corpo utilizando “cera da terra”, uma cera de abelha do arapuá, preta e pegajosa5.

Esta recomposição da imagem enquanto escultura concreta aponta um forte poder de referência do signo, como intermediário para a sempre dinâmica composição e recomposição da imagem enquanto significante. A bricolage, segundo a teoria de Lévi-Strauss, é operação da ciência do concreto. O sujeito popular, como bricoleur, constrói seu pensamento com o único repertório que lhe está ao alcance, sempre limitado, embora extenso: o dos “heteróclitos”. A reflexão mítica que constrói em nada deixa a desejar no plano racional e na coerência, podendo atingir resultados intelectuais brilhantes e imprevistos6.

Os “heteróclitos” que servem de repertório para se compor e recompor o imaginário são frágeis. Também a imagem-signo da Aparecida tem uma fragilidade que foi sendo escondida debaixo de mantos e coroas de ex-votos. Com grossos cordões de ouro enrolados no dos negros escravos, os últimos da sociedade, tratada como lixo assim como eles o eram. Cf. CECHIN, Antonio. “O Oitavo Encontro Intereclesial das CEBs e a ecología”. In REB, 52, fasc. 208, dezembro de 1992, pp. 872-873.

5 . Esculpida em terracota paulista, que ao ser queimada pode adquirir uma coloração rosa ou acinzentada, a

imagem adquiriu uma cor castanho-brilhante. Tem a medida de 36 cm de altura e seu peso é de 2,550 quilos. Cf. BRUSTOLONI, Júlio. História de Nossa Senhora da Conceição Aparecida: a imagem, o santuário e as

romarias. 10a. ed. rev. e ampl. Aparecida, SP: Editora Santuário, 1998, pp. 18 e 50. Este autor, que é um padre

redentorista, produziu esta obra a partir de diversos documentos originais.

6 . Bricoleur é verbo que, no seu sentido antigo, se aplica ao jogo de péla e de bilhar, à caça e à equitação. Mas, a

bricolagem sempre se refere a um movimento incidental, seja da péla que salta, do cão que erra ao acaso, do cavalo que se afasta da linha reta para evitar um obstáculo. Atualmente se toma o bricoleur como o sujeito que trabalha com as mãos, usando meios que, se comparados com os do artista, são indiretos. O pensamento concreto pode ser uma sobrevivência da ciência primordial. Cf. LÉVI-STRAUSS, Claude. O Pensamento Selvagem. [trad. de Maria Celeste da Costa e Sousa e Almir de Oliveira Aguiar]. São Paulo, Editora Nacional/ Editora da USP, 1970, pp. 37-38. O conceito de “heteróclitos” é de Gramsci, em seu estudo do folclore e do senso comum, considerando a heterogeneidade do conhecimento popular. Cf. GRAMSCI, Antonio. Il Risorgimento. Torino: Ed. Riuniti, 1975.

pescoço se tentava disfarçar a cicatriz. Por colagens as mais diversas, inúmeras restaurações temporárias se fizeram porque, pelos traslados e romarias, a cabeça facilmente se desprendia do corpo. Uma tentativa de restauração, em 1946, que lhe completou as mechas de cabelo perdidas, se fez com raspa de peroba e cola de madeira, massa que não resistiu ao calor das lâmpadas. Mais restaurações foram tentadas, porque surgiram rachaduras no pescoço e no alto da cabeça. A imagem teve que ficar praticamente presa ao seu nicho, protegida por vidros e rodeada por um esquema de segurança, mas isto não a livrou de ser agredida em 1978, por um homem que sofria de perturbação mental e que a derrubou de uma altura de dois metros. Na queda, partiu-se em 165 fragmentos. Foi quando uma equipe de peritos, do Museu de Arte de São Paulo, a restaurou em sua forma original7.

Brustoloni admite a probabilidade de que essa imagem tenha pertencido a algum santuário doméstico e tenha sido atirada ao rio por se ter quebrado, conforme a tradição popular de um cuidado para evitar profanação8. Quando uma imagem sagrada se quebra, geralmente as pessoas devotas sofrem, chegando a ficar traumatizadas. Entende-se que os cacos continuam sagrados, por isso se atira a um rio, ou se leva a uma capelinha de beira de estrada, ou a um cruzeiro, ou mesmo se enterra. O episódio narrado por Cidinha mostra um empenho no desagravo:

Ela recebeu de presente uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, trazida do santuário de Aparecida do Norte por um jovem de sua CEB. Durante um bom tempo essa imagem foi levada de casa em casa, nas rezas do terço com as famílias do bairro onde morava. Uma noite, Cidinha saiu para uma reunião com uma organização de mulheres, deixando em casa os filhos com o marido, que assistiam televisão. Ali do lado do aparelho de TV ficava a imagem, dado o pouco espaço da casa, de apenas dois cômodos. E na brincadeira das crianças, ela caiu e se partiu em seis pedaços. Ao chegar e ver a imagem despedaçada, Cidinha pôs-se a chorar, dizendo que não conseguiria ficar sem a sua “santinha”. O marido e os dois filhos colaram os pedaços, de maneira quase perfeita. Então, ela chamou todos os vizinhos e, com eles, rezou um terço de agradecimento a Nossa Senhora9.

A imagem da Aparecida era, originalmente, uma imagem da Senhora da Conceição, expressão da doutrina oficial da Igreja Católica acerca da Imaculada Conceição de Maria. Após a vitória da restauração portuguesa contra o domínio espanhol, Dom João IV cumpriu

7 . BRUSTOLONI, 1998, pp. 36-37; 108-129. 8 . BRUSTOLONI, 1998, p. 129.

uma promessa de consagrar a ela Portugal e seus domínios ultramarinos10. Foi policromada nas cores oficiais, conforme determinação do rei de Portugal: tez branca, manto azul escuro e forro vermelho grená. Mas, o monge beneditino que a esculpiu, um brasileiro nascido no Rio de Janeiro, imprimiu-lhe traços característicos da Mãe de misericórdia e compaixão. Entre esses traços, estão uma forma sorridente dos lábios, covinha no meio do queixo, penteado longo e solto, flores nos cabelos e na testa, e um porte empinado, levemente inclinado para trás11.

Os portugueses trouxeram para o Brasil uma devoção mariana que, na sua forma de catolicismo, não somente tinha centralidade, mas constituía-se numa verdadeira prerrogativa dinástica, dando uma coesão interna à sua identidade de nação. Dom João V elevou o culto da Imaculada Conceição a um esplendor nunca antes visto. Já na armada de Cabral foram trazidos dois quadros da Virgem Maria: um de Nossa Senhora da Piedade, diante do qual diariamente era celebrada a missa, e outro de Nossa Senhora da Esperança. Quadros diversos, o célebre Poema à Virgem de José de Anchieta, a construção de igrejas dedicadas a ela, e a primeira lenda de aparição de Nossa Senhora da Graça à princesa indígena Paraguaçu, esposa de Caramuru, marcaram os primórdios da colônia12.

A febre do outro, desde o final do século XVII, fazia acorrerem às áreas de mineração multidões de todo o Brasil e depois também de Portugal. Os ricos chegavam com toda a sua escravaria e os pobres com o que tivessem, tentando a sorte. A Coroa tentou controlar aquela vultosa transladação humana, mas os graves problemas sociais eram incontroláveis. A guerra dos Emboabas foi o enfrentamento mais grave. Houve uma luta feroz entre os empresários da terra e o patriciado lusitano, e a forma particular de rebeldia dos mineiros foi o escamoteio de

10 . A consagração foi a 25 de março de 1646; a fase de domínio espanhol foi de 1580 a 1640. A primeira

imagem da Senhora da Conceição venerada em Minas Gerais estava na ermida do Ribeirão do Carmo, que depois se tornou a cidade de Mariana. Cf. HOORNAERT, Eduardo, et al. História da Igreja no Brasil: ensaio e

interpretação a partir do povo. Primeira Época. 4a. ed. Petrópolis, RJ: Vozes; São Paulo: Paulinas; CEHILA,

1992, p. 349.

11 . Peritos, como Pedro de Oliveira Ribeiro Neto, Pietro Maria Bardi, Maria Helena Chartuni, João Marino, os

monges beneditinos Clemente Maria da Silva Nigra e Paulo Lachenmayer, mostraram que a imagem foi esculpida no século XVII, muito provavelmente por frei Agostinho de Jesus, discípulo do santeiro português que atuou na Bahia, frei Agostinho da Piedade. É arte erudita, em barro paulista. Cf. BRUSTOLONI, 1998, pp. 21- 23.

12 . É bastante provável que a primeira igreja construída no Brasil, por volta de 1535, no litoral de Boipeba, na

Bahia, foi dedicada a nossa Senhora da Graça. Sua construção está envolta pela lenda segundo a qual uma belíssima senhora apareceu em sonho a Paraguaçu, esposa do português Diogo Álvares, o Caramuru, pedindo- lhe a construção de uma igreja. No lugar onde foi erguida essa igreja está hoje o mosteiro de Monserrate, onde está sepultada Paraguaçu e onde continua sendo venerada a pequena imagem da Virgem da Graça. Cf. BOFF, Clodovis. Maria na Cultura Brasileira: Nossa Senhora e Iemanjá. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995, pp. 9-14.

ouro e diamantes e a sonegação de impostos. Às punições, repressão, confiscos e derramas da Coroa, a população revidava com motins, sempre sufocados pela força policial13.

A Vila de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, desenvolveu-se como entreposto de mercadorias e de escravos. Situada entre Minas Gerais e o mar, era uma passagem obrigatória de tropas, com grande fluxo de migração e intercâmbio comercial. Acabada a corrida do ouro, em meados do século seguinte, viria a recessão, quando a pesca seria o único meio de sobrevivência para muitas famílias, e depois o ciclo da cana-de-açúcar, com seus engenhos e escravos14.

A narrativa popular do achado da imagem da Aparecida situa o evento em 1717, na ocasião da passagem do conde de Assumar, Pedro de Almeida, pela Vila de Guaratinguetá. Ele era recém-nomeado governador das capitanias de São Paulo e Minas Gerais. A Câmara deu ordem aos pescadores para que apresentassem ao governador e sua comitiva todo o produto de sua pesca. Dentre muitos que foram pescar, estavam Domingos Martins Garcia, João Alves e Filipe Pedroso, que foram lançando suas redes numa distância grande, desde o porto de José Correa Leite, sem tirar peixe algum. Chegando ao porto de Itaguassu, João Alves lançou de rasto sua rede e tirou o corpo da Senhora sem cabeça. Lançou novamente a rede, mais abaixo, e tirou a cabeça da mesma Senhora. Guardou essa imagem num pano. Continuaram a pescar e, desse momento em diante, colheram uma copiosa pescaria15.

Por 15 anos a imagem recebeu um culto familiar, na casa do pescador Filipe Pedroso que, com idade avançada, confiou-a a seu filho Atanásio Pedroso. Este lhe construiu uma capelinha de beira de estrada, com um altar de paus, para a qual as pessoas devotas se dirigiam aos sábados, a fim de rezar o terço, cantar as ladainhas e testemunhar prodígios. Rapidamente se irradiou dali grande devoção, divulgando-se pessoa a pessoa as graças e

13. Os bandeirantes paulistas descobriram zonas de mineração nas serras de Minas Gerais, em 1698; no Mato

Grosso, em 1719; em Goiás, em 1725. Cf. RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do

Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, pp. 372-374.

14 . A Vila de Guaratinguetá foi ocupada a partir de 1640. O primitivo povoado nasceu ao redor de uma capelinha

coberta de palha, dedicada a Santo Antônio. A vila foi oficializada em 1651, com o nome “Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá”. Em 1752 ela tinha cerca de 3 mil habitantes. Ouro e outras mercadorias por ali passavam, transportadas da região de Ouro Preto para o porto de Parati, no Rio de Janeiro. Cf. BRUSTOLONI, 1998, pp. 27-29.

15 . O Conde de Assumar governou as capitanias de São Paulo e Minas Gerais de 1716 a 1721. Sua viagem, do

Rio de Janeiro a São Paulo e dali para Minas Gerais, em 1717, com a finalidade de organizar com rigor os quadros administrativos, no ambiente de instabilidade social que refletia as lutas e conflitos da região mineradora, foi registrada no “Diário da Jornada”. Este documento, que não menciona a pesca da imagem nem faz referências ao pároco e à paróquia de Guaratinguetá, está no Arquivo Histórico Colonial de Lisboa; foi publicado na Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 1939, n. 3, pp. 295-316. Há uma cópia no Arquivo da Cúria Metropolitana de Aparecida. Duas fontes registraram a narrativa do achado da imagem: uma, escrita no primeiro Livro do Tombo pelo pároco de Guaratinguetá, padre João de Morais de Aguiar, 40 anos após o evento; outra, nas Ânuas dos padres jesuítas. Cf. BRUSTOLONI, 1998, pp. 29-31; 43- 48.

milagres pelas províncias de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, chegando depois ao Centro- Oeste e ao Sul do país. Dada a crescente afluência do povo, em 1745 erigiu-se uma capela maior, hoje conhecida como “igreja velha”. Foi construída pelas mãos dos escravos do capitão Raposo Leme, com a ajuda dos vizinhos16.

Mas, a administração do culto e dos bens do santuário, que cresciam com as abundantes ofertas dos fiéis, passou às mãos dos nobres da região, através da Confraria de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, por eles fundada e dirigida. Por sua vez, no início do século XIX, a Confraria sofreu intervenção do governo real que, valendo-se do sistema de padroado, passou o culto e os bens a seu exclusivo controle. Por isso, por mais de 70 anos, até 1854, nenhuma visita pastoral dos bispos de São Paulo ao santuário se verificou17.

A Senhora Aparecida, à maneira do sincretismo que não tem outro recurso senão o de esconder-se nas dobras da religião dominante, sendo imagem de fronteira, tem que ativar seu significado no corpo significante de uma imagem “outra”, de significado estranho, mas permitido18. Ela tem que ser “Aparecida” na Senhora da Conceição.

Como santa de um “não-lugar”, sua simbólica nasceu do pensamento de pessoas despossuídas, situadas à margem da oficialidade e dos poderes estabelecidos. Pensando com Certeau, pode-se dizer que ela legitima, por um desvio, o processo sócio-cultural-religioso empreendido pelos sujeitos reduzidos à condição de fracos. No quadro de sua própria tradição e “num outro registro”, os sujeitos devotos fazem a proliferação disseminada de criações anônimas e perecíveis, invertendo e subvertendo as leis e representações da ordem dominante19.

No universo da cultura popular, pouco vai contar uma distinção entre títulos oficiais e títulos não-oficiais atribuídos a Nossa Senhora, assim como pouco importa que os santos cultuados sejam ou não canonizados pelos homens que governam a Igreja. O processo pelo qual os sujeitos do catolicismo tradicional popular dão significado à imagem quebrada, que a narrativa popular diz que foi colhida na rede dos pescadores, escapa ao controle dos que querem preservar um significado oficializado. Por outro lado, as práticas controladoras da parte da hierarquia católica, com seus esforços empreendidos no sentido de deixar o nome

18 . A imagem é o significante e o conceito é o significado. Unidos, imagem e conceito exercem a função de

significante e significado. A imagem, embora seja um ser concreto e com capacidade limitada, assemelha-se ao conceito por seu poder de referência. Cf. LÉVI-STRAUSS, 1970, p. 39.

16 . BOFF, Clodovis, 1995, p. 21. Também BRUSTOLONI, 1998, pp. 67-71.

17 . MARTINS TERRA, João Evangelista. “O Santuário de Aparecida e sua mensagem teológica”. In

Atualização, 16 (1985), p. 378.

19 . GIRARD, Luce. “Apresentação”. In CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. 2a. ed.

“Aparecida” como um apêndice do título oficial de “Nossa Senhora da Conceição”, não deixam de afetar as pessoas devotas, obrigando-as a recorrer à ambigüidade20.

E a partir das Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, as ermitanias passaram a depender das matrizes, os ermitães dos vigários e as capelas das igrejas centrais:

E não pertencendo a apresentação a outrem, Nós, ou nosso Provedor proveremos as ditas ermidas de ermitães, que tenham as mesmas partes e qualidades, e nem uns nem outros poderão servir sem carta de ermitania passada por Nós, ou nosso Provedor, e servindo sem carta serão privados das ermitanias e castigados como parecer21.

Dom Pedro I confirmou a oficial Nossa Senhora da Conceição como padroeira do império brasileiro. O acréscimo do título popular de “Aparecida” foi tolerado, por expressar uma relação sutil de continuidade e mudança na soberania religiosa do país22. Já sua cor negra era mais difícil de ser tolerada. Uma primeira estampa de Nossa Senhora Aparecida, mandada imprimir na França pelo bispo de São Paulo, Dom Antônio Joaquim de Melo, em 1854, mostrava o seu embranquecimento23.

O episcopado brasileiro, ausente por muito tempo nas peregrinações populares que se dirigiam a Aparecida, passou a utilizá-las em seu movimento de restauração católica, quando se viu frente a frente com a ideologia da República, instaurada sob a filosofia política do positivismo comtiano. A Virgem da Conceição, festejada com gala no dia 8 de dezembro, era todas as noites invocada pelo exército imperial como sua padroeira, mas, já no segundo Império, a nova ideologia havia influenciado decisivamente o exército e a intelectualidade brasileira24. E o santuário situado no Morro dos Coqueiros, hoje conhecido como “igreja velha”, foi ampliado e declarado “santuário episcopal” em 1893; no ano seguinte foi confiado

20 . As tentativas de controle são também da parte do governo da sociedade. Um caso típico, dentre as tentativas