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A primeira etapa, que teve por objetivo assegurar a posse do Marrocos, desenrolou -se em duas fases. Após a derrota de al -Buhayra, ‘Abd al -Mū’min procurou evitar as planícies, onde a cavalaria almorávida encontrava -se em posi- ção de vantagem, tratando de submeter as montanhas berberes no intuito de

apoderar -se das riquezas minerais e de controlar as vias comerciais81. Obtendo

a adesão de numerosas cabilas do Atlas82, submeteu o Sūs e o WādĪ Dara (Dra),

regiões essenciais para o lucrativo comércio que os Almorávidas mantinham com a África subsaariana, e ali constituiu sólida base de ataque e, eventualmente,

79 DEVISSE, comunicação sobre LE TOURNEAU, 1969. 80 Ibid.

81 Ver ROSENBERGER, 1970.

82 A opinião de LE TOURNEAU, 1969, p. 52, sobre a transigência de ‘Abd al -Mū’min, deve ser vista com nuances.

Áfr ic a do século xii ao século xv i

de recuo. Os almóadas poderiam, assim, investir contra a linha de fortalezas que, cercando o Alto Atlas, ao norte, defendiam o acesso às planícies e à capital. Deixando as planícies, o exército almóada seguiu o caminho das montanhas

rumo nordeste83, manobra destinada a isolar o território almorávida central.

Durante os anos 1040 -1041, assegurou -se da posse do Médio Atlas e dos oásis do

TāfĪlālet84. Chegando ao norte do Marrocos e baseando -se no maciço montanhoso

de Djebala, os almóadas tomaram as fortalezas da região de Tāzā. Partindo desta sólida posição, ‘Abd al -Mū’min empreendeu a conquista das cabilas submediterrâ- neas da região, e terminou por entrar em triunfo na sua própria aldeia natal, Tagra. Desse modo, as posições almorávidas encontravam -se totalmente franqueadas; a

estratégia de assédio tinha chegado a bom termo. Pesquisas recentes85 nos levam

a crer que esse itinerário não tinha apenas valor militar, mas perseguia igualmente objetivo econômico: as minas das montanhas, o centro nevrálgico da guerra.

A partir de então, ‘Abd al -Mū’min, à frente de forças consideráveis e dispondo sem dúvida de importantes recursos, julgou -se preparado para enfrentar os almo- rávidas nas planícies. As condições eram bastante favoráveis a essa iniciativa. Em 1143, a sucessão de ‘AlĪ Ibn Yūsuf Ibn TāshfĪn provocou dissensões entre os chefes lamtūna e māsufa, pilares do regime almorávida. Em 1145, a morte do catalão Reverter (al -Ruburtayr), chefe das milícias cristãs dos almorávidas, privou estes últimos de um de seus generais mais devotados e hábeis. Finalmente, o tawhīd (adesão aos almóadas) dos Zenāta fez com que a balança pendesse em favor dos almóadas, que tomaram Tlemcen e obrigaram o emir almorávida TāshfĪn Ibn ‘Ali a recuar para Orã, onde morreu em consequência de uma queda de cavalo.

A essa altura, todo o Atlas – até o Rif –, a costa mediterrânea e a por- ção ocidental do Magreb central tinham sido submetidos. O cerco almóada fechava -se sobre o território almorávida, onde o poder se encontrava cada vez mais desorganizado. ‘Abd al -Mū’min empreendeu a organização de suas novas conquistas tomando por base o sistema político da comunidade almóada. Estas se mostraram indóceis, e o novo califa precisou usar de extrema severidade para

reprimir revoltas e conjurações86.

‘Abd al -Mū’min não obteve o apoio unânime dos almóadas, que na época ainda não constituíam um grupo homogêneo; assim, enquanto alguns contestavam o novo chefe, outros manifestavam veleidades de retornar à antiga liberdade. Com

83 LAROUI, 1970, p. 168.

84 Ver Encyclopaedia of Islam, nova ed., v. 1, p. 78. 85 ROSENBERGER, 1964, p. 73.

Figura 2.6 Porta da kasaba (fortaleza) de Udāya, em Rabat, construída pelos Almóadas diante da cidade de Sala’, para vigiar os territórios ainda não submetidos da costa atlântica do Marrocos (vista geral). (Foto J. -L. Arbey.)

Figura. 2.7 Porta da kasaba de Udāya em Rabat (detalhe). A decoração nos arcos de entrada monumentais é encontrada em cidades da Espanha e do Marrocos. (Foto J. -L. Arbey.)

efeito, dois almóadas – Ibn Mālwiyya, antigo xeque do Ahl al -Djamā‘a que repre- sentava os DjanfĪsa, e ‘Abd al -‘Aziz Ibn Karman al -Harghi, da própria cabila de Ibn Tūmart – revoltaram -se, mas sem ameaçar realmente o novo poder. Também no desenrolar da própria conquista, os almóadas tiveram de enfrentar inúmeras revoltas e movimentos de resistência, dentre os quais os mais importantes foram o liderado por um personagem cognominado Masbūgh al - Yādayn (o homem de mãos tingidas), na região de AdjarsĪf (Guercif) e de Fés, o de Abū Ya ‘la, da cabila dos Izmāsin (Sanhadja) e o de Sā‘id dos Ghayyāta, da região de Tāzā.

A despeito desses movimentos, os almóadas acabaram por constituir um poderio militar que controlava exatamente o eixo comercial – então em franco desenvolvimento – que ligava o Sudão à porção mediterrânea do Marrocos oriental. A partir desse momento as revoltas suscetíveis de persistir por certo tempo no Sūs e na região de Ceuta a Agadir (AghadĪr), zonas que então tinham

se tornado economicamente secundárias, deixavam de representar real ameaça87,

tanto mais que os almóadas, empenhados numa obra monumental, acumu- lando vitórias e butins, mantinham -se solidamente unidos em torno de ‘Abd al -Mū’min. Este, por sua vez, permanecia fiel à doutrina do mahdī, abstinha -se de inovações e mantinha a seu lado os famosos xeques, guardiães dos interesses dos almóadas e garantia da fidelidade destes.

No entanto, deve -se medir a importância da mudança pelo modo como foi operada e pela reação das populações atingidas. Os sucessos almóadas foram, na maior parte das vezes, episódios sangrentos; na conquista que empreenderam, não há registro de ataques fulgurantes, de vitórias fáceis ou de cidades impor- tantes tomadas de assalto. A sociedade almorávida parecia ter estruturas relati-

vamente flexíveis88: segundo o autor do al -Anīs al -Mutrib bi -Rawd al -Kirtās e o

do Hulāl (anônimo)89, a época almorávida era de calma e prosperidade; as popu-

lações certamente não consideravam os Almorávidas como príncipes ímpios e aceitavam bem o maliquismo. Desse modo, os almóadas não poderiam ser per- cebidos como libertadores – salvo, talvez, nas montanhas de Masmūda – senão por aqueles que, descontentes, procuravam escapar, ainda que provisoriamente, das imposições do fisco. A maior parte das cidades – polos de desenvolvimento, sem dúvida – resistiu aos assaltos dos Almôadas, que demoraram 15 anos para submeter a totalidade do Marrocos. Assim, não é de admirar que a tomada de Marrakech por ‘Abd al -Mū’min tenha sido sucedida por frequentes revoltas,

87 DEVISSE, comunicação sobre LE TOURNEAU, 1969. 88 AL -IDRĪSĪ, 1866, p. 8, sobre Aghmāt, Fés e Zarkashi.

encorajadas por inúmeras cumplicidades e devidas, sem dúvida, a motivos bem mais determinantes que a devoção religiosa ao maliquismo. Exprimem, mais provavelmente, a reação de uma sociedade radicalmente contestada por uma comunidade “exclusivista” que se impôs através de uma guerra implacável.