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SIMULERING MED NORMAL DRIFTSITUASJON OG OPTIMALISERING AV REAKTIV EFFEKTOP PTAK I TOGENE

I. l BAKGRUNN

4.2 SIMULERING MED NORMAL DRIFTSITUASJON OG OPTIMALISERING AV REAKTIV EFFEKTOP PTAK I TOGENE

É necessário fazermos algumas considerações em relação ao espaço da cidade, sobretudo das metrópoles, visto que as histórias de Aníbal Machado, em sua grande maioria, acontecem na cidade grande, mais especificamente, no Rio de Janeiro, espaço do qual falaremos um pouco mais no próximo tópico.

O motivo da cidade tem grande importância na produção literária por sua forte ligação com o romance, passando a ser, no decorrer dos anos, foco de observação de vários escritores. De acordo com Ronaldo Costa Fernandes (2000), esse gênero literário "é fruto da modernidade, do fortalecimento das relações mercantis, do aparecimento do capitalismo incipiente e do processo de fortalecimento das cidades como núcleos promotores de cultura56". (p. 19)

Assim sendo, a cidade, enquanto espaço, não constitui apenas mais um cenário para o desenvolvimento da narrativa, ela age e interfere na vida e no comportamento das personagens, tendo, muitas vezes, papel determinante nessas histórias - é o que nos lembra o autor ao mencionar que é a partir do Realismo que se dá mais veementemente a substituição da natureza pela cidade. Esta comparece nas narrativas, diversas vezes, como temática e∕ou como personagem, sem falar nas ocasiões em que ela produz comportamentos que explicam a densa e complexa psicologia das pessoas inseridas nesse espaço.

Segundo o autor, mesmo nos momentos em que a cidade não aparece nas histórias, dando lugar, por exemplo, aos conflitos no campo, ainda assim a sua presença não é anulada, visto que fica implícita mesmo quando não aparece: "seja na audiência e recepção, seja na produção do escritor como ser empírico, ou mesmo na opção que nega um quando afirma outro". (FERNANDES, 2000: 20)

Para se chegar ao conceito que se tem das cidades, elas tiveram que sofrer modificações que estavam extremamente arraigadas ao modo de ser e de agir do homem. A cidade surge, de acordo com Raquel Rolnik (2012), atrelada à necessidade do homem de se fixar em algum lugar para poder sobreviver. Nesse processo de sedentarização era preciso assegurar o efetivo domínio de um espaço, delimitando uma nova relação entre homem e natureza.

Foi no terceiro milênio antes da era cristã, aproximadamente, que surgiram os primeiros indícios de cidade a partir dos chamados zigurates - templos localizados nas planícies da Mesopotâmia, cuja construção está ligada a uma mudança no modo pelo qual as pessoas

56 Essa relação intrínseca entre cidade e romance irradia, fatalmente, para outros gêneros como o conto e a

ocupavam o espaço: plantando o alimento ao invés de simplesmente colhê-lo. Dessa forma, segunda a autora, junto aos templos eram acrescentados canteiros e obras de irrigação, constituindo as primeiras tentativas do desejo do homem de modelar a natureza.

Essas construções exigiam, de certa forma, um trabalho organizado que, por sua vez, necessitava da criação de normas e regras internas. Assim sendo, ao passo que o homem construía os templos e fincava raízes no lugar ele ia se organizando politicamente.

A cidade aos poucos vai se tornando cada vez mais "sólida" a partir do momento que a produção dos habitantes gera um excedente, ou seja, ultrapassa as necessidades diárias e imediatas. É nesse período que as grandes obras de drenagem e de irrigação são geradas e administradas bem como são produzidas as novas tecnologias referentes ao trabalho e à guerra. Vale ressaltar que as cidades também servem como testemunhas de uma época, já que através de suas formas e tipologias arquitetônicas podemos tem uma noção de como viviam as pessoas de um determinado período.

No lugar da cidade antiga fechada e vigiada para as pessoas se defenderem dos inimigos surge a metrópole contemporânea onde não há mais muralhas nem limitações que impeçam a expansão e a circulação de indivíduos, bens e mercadorias, em ritmo totalmente acelerado em conformidade com os próprios anseios dos indivíduos.

Atrelada à noção de cidade está a ideia de coletivo que, atualmente, segundo Rolnik (2012), define-se como massa: "aglomeração de indivíduos cujos movimentos e percursos são permanentemente dirigidos" (p. 20), através das mais diversas regulações (semáforos e as faixas de pedestres, as filas de ônibus, os impostos urbanos, entre outras), que servem para tentar pôr ordem nos lugares. Mesmo em cidades pequenas se faz necessário o gerenciamento da vida em conjunto, devido à concentração e à aglomeração de pessoas, ou seja, em qualquer lugar, por menor que seja, há uma dimensão pública para a organização e é dessa que surge a necessidade de uma autoridade político-administrativa encarregada dessa tarefa.

De acordo com a autora, o primeiro formato dessa autoridade político-administrativa, pensando-se na história das cidades, foi a realeza, que centralizava o poder nas mãos de um rei, cuja base era a guerra. O motivo da guerra servia como meio de controlar o povo, fechado entre os muros da cidadela, que abrigava o palácio, o templo e o silo - reservatório fechado que armazenava a comida excedente. É nessa época, arraigada à origem da cidade que surge a diferenciação social (rei, sacerdotes, guerreiros e escribas de um lado e artesãos, empregados camponeses e escravos de outro). A noção de cidade não estava associada à sua dimensão espacial, mas ao poder político. Dessa forma, era considerado cidadão quem podia participar da vida política da cidade e não qualquer morador que pertencesse a ela.

A aglomeração de pessoas em um determinado espaço limitado contribui, de acordo com Rolnik (2012), para a criação de mercados, que estabelece não só a divisão de trabalho entre campo e cidade, mas também favorece a especialização de ofícios. Para a autora,

Quando esta divisão do trabalho se estabelece, a cidade deixa de ser apenas a sede da classe dominante, onde o do campo é somente consumido para se inserir no circuito da produção propriamente dita. Desta maneira, o trabalho de transformação da natureza é iniciado no campo e completado na cidade, passando o camponês a ser consumidor de produtos urbanos e estabelecendo-se então a troca entre cidade e campo. (p. 29)

Nas cidades contemporâneas, praticamente todos os espaços são ocupados e dominados pela ideia de mercado (produção e consumo), refletidos através do que possuímos em casa, do apelo midiático e das exposições exacerbadas de produtos em lojas e estabelecimentos. Também não há mais muralhas que limitem e concentrem o poder urbano, entretanto, para a autora, estamos vivendo um grande paradoxo, pois ao mesmo tempo em que moramos em cidades cada vez mais acentradas, o poder urbano comparece ainda mais centralizado, preso não à dimensão espacial, mas através de sistemas operacionais de controle organizados em estruturas altamente hierarquizadas. Assim sendo, esse poder só se tornou menos visível, existindo ainda, embora simbolicamente, as muralhas do passado.

O surgimento dessas cidades voltadas para o capitalismo ocorreu na Europa Ocidental ainda no final da Idade Média. Nesta época, segundo Raquel Rolnik, as ruas e as praças da cidade não obedeciam a nenhum traçado preestabelecido, o espaço era ocupado indistintamente pelos moradores, que utilizavam técnicas simples para a construção de suas casas e da cidade em si. Essas formações prejudicaram o sistema feudal à medida que as pessoas se deslocavam do campo, assolado pelas pestes e por um sistema defasado, em direção às cidades onde a lucrativa atividade mercantil se desenvolvia e se diversificava rapidamente.

Segundo a autora, no final do século XVI a Europa não era apenas uma rede de cidades interligadas, mas de Estados organizados em torno de uma cidade-capital que fortalecia e unificava o Estado do qual fazia parte à medida que comandava todas as decisões comerciais e militares. Toda essa organização gerou algumas modificações bruscas nas cidades como, por exemplo, a mercantilização do espaço e a divisão da sociedade em classes, mensurada pelo capital que as pessoas possuíam. Ainda temos como modificação a instalação de um poder centralizado e despótico, que influenciava diretamente na vida dos cidadãos.

Outro aspecto importante, mencionado por Raquel Rolnik (2012), gira em torno da fácil identificação das demarcações, reais ou imaginárias, dos espaços diferenciados em que cada pessoa conhece seu lugar e se sente estrangeira nos demais. É a consciência, embora às vezes ocorra de maneira involuntária, dos nossos próprios espaços, daqueles que nos fazem bem em detrimento de outros que, muitas vezes embora queiramos fazer parte, excluem-nos. A esse movimento de separação de classes e funções no espaço urbano dá-se o nome de segregação espacial, que pode ser pacífica como, por exemplo, condomínios fechados, ou não, quando há uso de violência para impedir a entrada ou permanência de determinadas pessoas em alguns locais (como ocorria deliberadamente na África do Sul na época do apartheid). Essa delimitação dos espaços é extremamente importante para a organização citadina.

A autora menciona que além da segregação se impor na constituição de espaços separados de acordo com cada grupo social ela influencia a reorganização do espaço para a moradia - estritamente ligada aos quereres da burguesia. Para esta, segundo Rolnik, o espaço público deixa de ser a rua (que se antes era o lugar onde se encontravam os amigos e familiares, ou seja, era um lugar de socialização; agora visto como lugar de perigo, de mistura de raças, classes, sexo, idades, entre outras, por isso, torna-se vias de passagem de pedestres e veículos) e passa a ser a sala de casa ou um salão - lugar tranquilo e íntimo onde só receberia pessoas distintas convidadas por ela. A casa era uma forma de se proteger da diversidade que habitava o exterior.

Além disso, a casa passa a ser o espaço prioritariamente da mulher, já a criança, não mais vista como um adulto em miniatura, começa a frequentar outro espaço fechado: a escola. Esse padrão de vida burguês contrasta com o padrão popular, ocasionando, sob essa perspectiva, a luta pelo espaço urbano. Rolnik (2012) afirma que

para os membros da classe dominante, a proximidade do território popular representa um risco permanente de contaminação, de desordem. Por isso deve ser, no mínimo, evitado. Por outro lado, o próprio processo de segregação acaba por criar a possibilidade de organização de um território popular, base de luta por trabalhadores pela apropriação do espaço da cidade. (p. 56 - 57)

Com essa segregação, as pessoas abastadas começam a comprar lotes cada vez maiores para habitar, enquanto que as menos favorecidas são obrigadas a dividir pequenos espaços com muitas pessoas, acirrando ainda mais as discrepâncias entre elas. A autora ainda faz outro alerta relacionado, desta vez, à intervenção do Estado em todo esse processo segregativo, frisando que se deve a ele todos os casos de segregação, sobretudo, quando prioriza investir em regiões tidas como nobres, equipando-as "com o que há de mais moderno em matéria de

serviços urbanos" (p. 58) em detrimento das regiões pobres em que os investimentos são rareados.

A cada dia que passa a força interventiva do Estado na cidade ganha mais espaço. Prova disso, é a predominância da cidade como lugar de circulação de mercadoria em que tudo se transforma em produto de compra e venda. Inserido nesse contexto até mesmo o espaço urbano se transforma em mercadoria, "cujo preço é estabelecido em função de atributos físicos (tais como declividade de um terreno ou qualidade de uma construção) e locacionais (acessibilidade a centros de serviços ou negócios e∕ou proximidade a áreas valorizadas da cidade)". (ROLNIK, 2012: 69) O que implica dizer que essa valorização (ou não) cabe, sobretudo ao Estado, já que é ele quem pode investir maciçamente em infraestrutura, equipamentos e bens de serviços.

Quanto à população de baixa renda, ela fica alocada, muitas vezes, em lugares periféricos ou em favelas, cortiços e áreas de invasão que não param de crescer, frequentando as regiões nobres, no geral, apenas para trabalhar, já que é absolvida pelo mercado tão somente, na maioria das vezes, para desempenhar funções pouco remuneradas. Sob essa ótica, as pessoas - moradoras de favelas ou cortiços - não são consideradas cidadãs porque não compartilham dos bens oferecidos pelo Estado naquelas áreas, estando assim postas à margem da sociedade.

Dessa forma, percebemos que atrelada a toda essa modernização que circunda as grandes metrópoles estão também os problemas advindos justamente desse processo como a crescente violência, a competitividade desenfreada e o consumo de massa. São cidades que crescem a cada dia em todos os setores, pondo em circulação bens e aparatos, muitas vezes, descartáveis. De acordo com Renato Cordeiro Gomes (2008),

O homem citadino é presa dessa cidade, está enredado em suas malhas. Não consegue sair desse espaço denso, uma vez que a civilização urbana espraiou-se para além dos centros metropolitanos e continua a preencher grandes áreas que gravitam em torno desses centros. A partir da Revolução Industrial, o fenômeno urbano parece ter ultrapassado as fronteiras das ‘cidades’ e ter-se difundido pelo espaço físico. O signo do progresso transforma a urbanização em movimento centrífugo, gerando a metrópole que se dispersa. (p. 68)

As metrópoles, desse modo, enfrentam também o processo de desenvolvimento e de ocupação acelerados que impelem as pessoas, principalmente as menos abastadas (incentivadas pelo Governo na tentativa de desafogar um pouco as regiões onde há grande concentração humana), a ocuparem espaços próximos à cidade grande, muitas vezes, até então, pouco habitados. Essa imagem do homem perdido, desnorteado em meio à cidade

voraz dá a noção de se viver em um labirinto que, segundo o autor, é uma imagem recorrente "na representação da metrópole, a partir do século XIX, não só em poetas e romancistas, mas também em outros pensadores que se debruçaram sobre as questões do fenômeno urbano na modernidade.” (p. 74)

A cidade, enquanto labirinto, traz atrelada a si, de certa forma, a imagem do flâneur, do cidadão solitário que a percorre. De acordo com Walter Benjamin (1989),

a rua se torna moradia para o flâneur que, entre as fachadas dos prédios, sente-se em casa tanto quanto o burguês entre suas quatro paredes. Para ele, os letreiros esmaltados e brilhantes das firmas são um adorno de parede tão bom ou melhor que a pintura a óleo no salão do burguês; muros são a escrivaninha onde apoia o bloco de apontamentos; bancas de jornais são suas bibliotecas, e os terraços dos cafés, as sacadas de onde, após o trabalho, observa o ambiente. (Grifo do autor, p. 35)

O flâneur se abandona extasiado na multidão e, a cada passo que dá, o seu caminhar ganha um novo rumo, sempre crescente. À medida que ele cansa de observar vitrines, mulheres ou bistrôs vão se tornando cada vez mais irresistíveis as ruas, as avenidas e os bairros. Há uma necessidade, quase inesgotável, de desbravá-los "até que, no mais profundo esgotamento, afunda em seu quarto, que o recebe estranho e frio." (BENJAMIN, 1989: 186)

Para María Teresa Zubiaurre (2000), o espaço urbano representado, tanto na literatura moderna quanto na contemporânea, traz à tona esse indivíduo (o flâneur) que se apresenta como um passeante extasiado ante o caos, ante esse espaço fragmentado e desconexo que provoca uma infinidade de sensações tanto positivas quanto negativas. É entre as metrópoles como essas esboçadas anteriormente que se encontra o Rio de Janeiro - um espaço urbano cheio de encantos e de desencantos sobre o qual falaremos a seguir.