Diante da expressiva expansão e consolidação do fluxo migratório, principalmente do Cone Sul da América Latina para Florianópolis, tem-se que levar em conta também outros fatores que contribuem para a manutenção do processo, fora das questões relativas à atratividade natural da Ilha, com suas belezas, clima agradável e possíveis oportunidades de trabalho. Além da política econômica baseada no turismo, adotada pelos governantes na década de 1990, que propagou a idéia de pólo turístico do MERCOSUL14, outras motivações mais globais também colaboraram para esse processo.
Um dos fatores externos predominante foi a desvalorização da moeda argentina, que tornou esse país vizinho um pouco menos atrativo como principal destino para os imigrantes regionais. Por outro lado, um fator extraordinário fez com que esses imigrantes escolhessem outro destino no mesmo continente, em descompasso com a tendência mundial de migração dos países do hemisfério sul em direção à Europa ou aos Estados Unidos. Trata-se da decisão espanhola junto da estratégia da União Européia de endurecer no controle de suas fronteiras, seguindo a tendência de xenofobia acentuada disseminada pelos países ricos depois do atentado de 11 de setembro nos EUA que, de certa forma, deslocou a rota de muitos latino- americanos para o Brasil, principalmente para as cidades da região sul do país como Porto Alegre, Foz do Iguaçu e Florianópolis.
Ao rever os fatores locais em consonância com relatos dos imigrantes, uma forte preferência pela Ilha de Santa Catarina frente aos outros destinos foi demonstrada pela grande maioria dos entrevistados, retratando um imigrante diferente, não apenas preocupado em ganhar dinheiro, mas com a qualidade de vida que levaria aqui. A combinação de beleza natural, tranqüilidade com baixo índice de violência, alto índice de IDH15 aliado ao fato de ser um pólo turístico, o que propicia maiores oportunidades de trabalho (mesmo que estas sejam
14 Os países membros do MERCOSUL são: Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Desde o início do projeto
integraram-se nos trabalhos Bolívia e Chile, constituindo o grupo denominado MERCOSUL ampliado. Para entender melhor a relação do MERCOSUL com a experiência transnacional ver: BERCOVICH, 2001.
15 A região metropolitana da Grande Florianópolis mantém o seu alto índice da esperança de vida ao nascer, com
média taxa de mortalidade infantil e queda na sua taxa de fecundidade, o que corrobora com o seu 1º lugar do ranking nacional do IDH – Índice de Desenvolvimento Humano = . 0, 859 no período de 2000. Fonte: Atlas do Desenvolvimento Humano
mais concentradas no verão); contribuíram para o estabelecimento de um fluxo migratório contínuo, principalmente a partir da década de 1990 na região metropolitana de Florianópolis.
Outro fator a ser levado em conta é o imaginário criado em torno da Ilha. A maior parte dos entrevistados diz ter vindo outras vezes à Florianópolis como turista e escolheu a cidade por suas belezas naturais, mulheres bonitas e vida boa. Já os imigrantes que não conheciam a Ilha, estes em menor número, afirmaram ter ouvido falar ou ter visto fotos e imagens que propagavam a mesma idéia de lugar tranqüilo, mulheres bonitas e vida boa. O que não significa que este imaginário seja verdadeiro, mas que de alguma forma tenha influenciado na decisão de destino destes imigrantes.16
A função turística da Ilha exerce forças contraditórias para o imigrante, pois se por um lado oferece uma vida tranqüila e com mais ofertas de emprego no verão, por outro trata o imigrante sempre como turista, desejável até certo ponto. Nesse caso, mesmo quando o turista não vai embora e passa a ser o vizinho, ainda assim o nativo trata o imigrante como estrangeiro e provisório, esperando que um dia ele se canse e volte pra casa. O imigrante então ou é ignorado como tal ou passa despercebido aos olhos da população em geral e sua invisibilidade leva à inação dos formuladores de políticas públicas, pois remete à questão do “presente ausente” ressaltado por Sayad (1998). Aquele que não é percebido pela sociedade não consta dos planejamentos e ações sociais do governo e tampouco configura um problema ou requer soluções.
Por esse motivo este estudo pretende demonstrar que existe um grande número de imigrantes latino-americanos em Florianópolis e que eles continuam chegando e se estabelecendo na cidade, a qual necessita, conseqüentemente, de planejamento e políticas públicas que contemplem esses novos moradores.
A Ilha de Santa Catarina concentrou grande parte do fluxo inicial de imigrantes latino- americanos em sua porção norte, especialmente na Praia de Canasvieiras e adjacências, lugares preferidos por eles devido à tranqüilidade do mar e maior distanciamento do centro urbano da capital (Schmeill, 1994). Inicialmente (final de década de 1980) vieram imigrantes com melhor poder aquisitivo que optaram em investir e morar na Ilha, onde se estabeleciam como proprietários de restaurantes, pousadas e pequenos comércios que tinham como principais clientes seus conterrâneo que vinham para veranear. Muitos imigrantes com menor
poder aquisitivo, ao chegarem a Florianópolis procuravam por emprego nestes estabelecimentos ou preferiam trabalhar como artesãos e camelôs nas ruas do calçadão da praia, ou mesmo nas areias da praia durante o verão, mas normalmente se concentravam no norte da Ilha.
Para exemplificar melhor o cenário, ao caminhar pelas ruas de Canasvieiras no verão de 1988, independente se de dia ou de noite, o movimento era intenso, não cessava. Os carros não conseguiam andar por causa da quantidade de turistas caminhando pelas ruas, muitos nativos afirmavam que os “argentinos tinham invadido a Ilha”, e realmente foi assim que esta pesquisadora presenciou tais acontecimentos, era como se você estivesse em outro país, pois as pessoas falavam outro idioma, te atendiam nos restaurantes em espanhol e tudo parecia uma grande festa que acabava só depois do carnaval. Naquele momento os argentinos viviam o auge de sua economia, com supervalorização da sua moeda frente à moeda brasileira e por isso não vinham para Florianópolis apenas para passear, vinham fazer compras. A cidade enfrentou um verdadeiro colapso, pois não estava pronta para receber tantos turistas tão abruptamente. Tinha fila pra tudo, faltavam mercadorias nos supermercados, faltava combustível, sobrava muito lixo e muita desorganização17, a cidade virou um caos. Entretanto, como afirma Schmeill (1994), apesar de algumas reclamações de parte da população, principalmente de antigos moradores da localidade em questão, a maior parte dos ilhéus não reclamava, pois acreditava que os turistas traziam riqueza e que a economia da cidade dependia deles para crescer.
Figura 3 – Imagens do verão em Canasvieiras.
17 Ver dissertação de SCHMEIL sobre os turistas argentinos.
Fonte: Imagens do verão em Canasvieiras disponíveis pelo Google imagens.
Foi partindo deste cenário que muitos turistas, não só argentinos, mas outros latino- americanos se sentiram à vontade em mudar seu status de turista para imigrante. Muitos deles resolveram viver em Florianópolis, mas nem todos possuíam a mesma estabilidade financeira, ou mesmo imóveis que pudessem vender na terra natal para investir na nova morada. Nesse caso, vinham para trabalhar na praia com artesãos, músicos ou em estabelecimentos comerciais e pousadas que preferiam quem falasse o espanhol para receber melhor os turistas.
Se por um lado existia grande receptividade e trabalho para os imigrantes durante o verão nas praias do norte da Ilha, por outro lado durante o inverno muitos se decepcionavam com a falta de oportunidades. Mas, mesmo assim iam levando e trabalhando em serviços alternativos até o próximo verão, quando tudo voltava a ser como antes..., e foi assim até a crise da Argentina em 1994, quando o maior fluxo turístico para a capital catarinense recrudesceu e com ele a economia local.