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Neste capítulo, apresentaremos alguns elementos que consideramos relevantes à compreensão da contribuição histórica da trajetória do povo africano na diáspora. Focalizaremos principalmente a área da literatura, podendo ser necessário algumas vezes lançar um olhar antropológico sobre a história social para respaldarmos nossas reflexões.

Angel Rama (2008, p. 49), ao discursar sobre seu conceito de literatura, mostra que a concebe como “uma criação estética que promove o desenvolvimento histórico de uma sociedade, graças ao conjunto de escritores que atuam nela e a ela se dirigem”. Rama, ao estabelecer tal definição, atribui ao escritor um papel segundo o qual este “desempenha uma tarefa social” (ibid, p. 51) de grande responsabilidade, com a missão de apresentar aos seus leitores questões variadas, mimese do cotidiano. O autor faz referência ao contexto literário do Uruguai, porém, o uso de sua reflexão, a nosso ver, é aplicável em qualquer outro contexto literário, como é o caso do brasileiro e mesmo o norte-americano. Portanto, quanto mais bem representados estiverem os diversos grupos sociais naquilo que se entende por produção cultural e artística de um povo, mais democrática será a face que esse apresentará ao mundo.

Em seu livro Central Africans and cultural transformations in the American

Diaspora (2008), curiosamente traduzido aqui no Brasil pela editora Contexto como Diáspora negra no Brasil (2010), Linda M. Heywood (2010, p. 11) discute “a presença cultural precoce e contínua de centro-africanos na diáspora americana.” Relata-nos a autora que os primeiros estudos sobre diáspora africana surgiram no início do século XX, afirmando que seu livro pretende construir “uma nova perspectiva em relação a conceitos, áreas de conhecimento e debates com relação aos primeiros trabalhos sobre diáspora africana (HEYWOOD, 2010, p. 13).” Esta nova perspectiva que aqui é mencionada coloca a cultura como um elemento de caráter dinâmico, não estável, em constante movimento.

Assim como aconteceu aqui no Brasil, “os primeiros trabalhos acadêmicos sobre a diáspora foram escritos por afro-americanos ou foram publicados em

periódicos fundados por eles” (HEYWOOD, 2010, p. 13). Heywood destaca a importância, no contexto estadunidense, do acadêmico e teórico das relações raciais, o afro-americano W.E.B Dubois, que com a publicação do livro The

Suppression of the Slave Trade to the United States, em 1896, como o volume

inaugural da série Harvard Historical studies, pode ser considerado como um dos fundadores desse campo de estudo, nas Américas. Outro personagem marcante no cenário da pesquisa sobre a diáspora africana foi o fundador do Journal of Negro

History (1916), Carter G. Woodson. Ele foi o organizador do primeiro fórum

acadêmico para estudos sobre a história dos africanos e seus descendentes, conforme nos informa Heywood (2010, p. 13),

Woodson, editor do Journal até 1950, fez um esforço concentrado para publicar e promover todos os aspectos das experiências africanas e afro-americanas nas Américas do século XVI até o século XX.

De fato, este periódico acadêmico era o único voltado exclusivamente à pesquisa sobre a diáspora africana nos Estados Unidos de então. Da mesma forma que a antologia Cadernos Negros no Brasil tem sido um veículo fundamental de divulgação de questões relacionadas a temáticas afrodescendentes, o Journal divulgava o trabalho de acadêmicos de etnias e nacionalidades variadas, além de introduzir uma “grande diversidade de textos que destacavam as vibrantes tradições culturais das populações descendentes de africanos nas Américas (HEYWOOD, 2010, p. 13).”

Uma instituição, citada por Heywood, que contribuiu para difundir o estudo da diáspora africana foi a Universidade Howard que, desde 1920, ministra cursos sobre o negro nas civilizações antigas e moderna. Esta iniciativa colaborou para institucionalizar o campo da história da diáspora africana no meio acadêmico. No entanto, apesar de pioneira nessas pesquisas, a Escola da História Negra acabou se voltando mais para a experiência nos Estados Unidos e, desta forma, mais tarde não conseguiu impactar as tendências de pesquisas e modelos teóricos que vieram a definir o campo de estudo da diáspora africana em sentido mais amplo.

Uma geração posterior de acadêmicos de diferentes áreas do conhecimento e representando várias nacionalidades e etnias das Américas tiveram

um papel mais direto em dar forma aos conceitos e questões que vieram a dominar os escritos da história da diáspora africana. Seus trabalhos começaram a surgir entre os anos 1930 e início dos anos 1950. Entre os mais importantes destacam-se: Rodrigues (1905 [1945]), Ramos, (1934 [1940]), Herskovits (1941) e Bastide (1960 [1978]), que concentraram seus estudos primeiramente na cultura afro-brasileira. Outros, como Ortiz (1906 [1973]), Price-Mars (1938), Beltrán (1946), e Maya Deren (1953 [1970]), exploraram as culturas de comunidades descendentes de africanos nas regiões das Américas de falas espanhola, inglesa e francesa.

Entre os anos 1960 e 1980, algumas publicações acadêmicas revolucionaram o campo de estudos da diáspora africana como, por exemplo, o estudo pioneiro de Philip Curtin, The Atlantic Slave Trade: A Census. O referido estudo foi a primeira tentativa de dar uma estimativa aproximada do número de africanos escravizados que foram forçadamente trazidos para as Américas. Todavia, isso não contribuiu para o surgimento de mais pesquisas sobre as tradições culturais africanas, já que os historiadores econômicos, interessados no estudo do comércio de escravos e seu impacto nas economias da Europa e das Américas, dominaram o campo das investigações. Heywood (2010, p. 16) destaca que

[e]mbora esses trabalhos tenham contribuído para trazer este tema para a linha de frente acadêmica, a ênfase na demografia negligenciou um pouco os aspectos etnográficos e antropológicos. Portanto, a oportunidade de lidar com a dimensão cultural – tratando de temas como resistência, contestação, crioulização – e com as transformações das crenças africanas e práticas culturais nas Américas receberam relativamente pouca atenção.

Ainda sobre os estudos que surgiram naquelas décadas, alguns, de fato, trataram de questões culturais e políticas, abordando os seguintes temas: comunidades quilombolas africanas; africanos que retornaram à África; elementos africanos nas religiões da diáspora; estudos regionais e antologias da continuidade cultural africana no mundo Atlântico; afro-americanos no período anterior à guerra civil no sul dos Estados Unidos; e conceitos de crioulização.

De acordo com Heywood, os novos estudos com ênfase na cultura, que surgiram nos anos 1990, são mais completos e têm dado mais atenção à origem africana das culturas afro-diaspóricas. Os temas se voltam para pesquisas “em

linguística comparativa, religião, política, arqueologia, música e nas tradições da arte performática, que são os legados das comunidades afro-diaspóricas na África e nas Américas” (HEYWOOD, 2010, p. 17). Entre os conceitos mais importantes abordados nesses estudos estão as noções de um “sistema do Atlântico Sul”, a ideia do “Atlântico Negro”, ou seja, as contribuições afro-americanas ao desenvolvimento do mundo industrial moderno e o surgimento de muitas das idéias associadas à ocidentalização e modernidade.

Percebemos que em suas reflexões, Heywood enfatiza que as contribuições mais estimulantes concentram-se na África e no papel dinâmico desempenhado por escravos nascidos na África, na criação e desenvolvimento de culturas afro-diaspóricas nas Américas. A autora destaca também alguns estudos acadêmicos, como o de John Thornton, que lidam com as manifestações de ideologia política africana e as instituições culturais na formação do “mundo Atlântico”. Em sua opinião, tais estudos têm demonstrado a conexão de eventos envolvendo africanos escravizados e seus descendentes nas Américas, com determinados grupos étnicos e acontecimentos na África. Em suas palavras, “o que todos esses estudos sugerem é a revitalização dos modelos existentes de análise da diáspora africana, especialmente as dimensões culturais” (HEYWOOD, 2010, p. 17). Essas considerações tecidas por Heywood trazem contribuições pertinentes para nosso entendimento da literatura afro-americana, uma vez que a autora adentra a história dos africanos e seu percurso nas Américas. Mesmo de forma panorâmica, podemos ter uma ideia, por exemplo, da existência de estudos, como o retrato feito por Michael Gomez, de como os africanos se tornaram afro- americanos. Ao mesmo tempo em que nos tornamos cientes de que várias dinâmicas culturais se fundiram para influenciar a formação identitária e as tradições culturais entre as populações afro-diaspóricas nas Américas e na África. O mesmo destaque Heywood dá à análise de J. Lorand Matory dos processos de transculturalização ocorridos no Brasil e na África Ocidental. Ele argumenta que os viajantes do Atlântico Negro, os comerciantes e os padres tiveram um papel crucial na construção de identidades nacionais, tanto na África quanto no Brasil. Ao centrar sua pesquisa nos afro-brasileiros, dentro do amplo contexto Atlântico, Matory retoma a questão articulada por Paul Gilroy referente ao papel dos africanos na formação e

transformação da cultura atlântica. Acreditamos que os olhares, a partir do Brasil e dos Estados Unidos, sobre o romance de Evaristo em foco, devem atentar para tais relações entre passado africano e presente americano.

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