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Quando eu procuro demais um ‘sentido’ – é aí que não o encontro. O sentido é tão pouco meu como aquilo que existisse no além. O sentido me vem através da respiração, e não em palavras. É um sopro.

Clarice Lispector

A partir de um dizer da Profa. Marina Célia Dias, no exame de qualificação, que pedia que eu cuidasse da não-dicotomia entre pensamento e sentimento -- pois a professora enxergou uma certa sobrevalorização da palavra “pensamento” em meu texto -- tive a idéia de escrever dois entreatos no decorrer da tese: um deles inicia-se aqui-agora, entre minha auto-apresentação e a discussão dos existenciais na infância; o outro entreato acontecerá entre a discussão dos existenciais e a hipótese de prerrogativas, a partir deles, para a fenomenologia da infância.

Segundo Pavis, em seu Dicionário de Teatro,

O entreato é o lapso de tempo entre os atos durante o qual o jogo é interrompido e o público deixa provisoriamente a sala de espetáculo. Ruptura que provoca a volta do tempo social, da desilusão e da reflexão. (1999:129)

Este primeiro entreato interrompe o texto que revela a narrativa de minha experiência vivida até chegar a desenvolver este doutoramento, para comentar algo acerca da metodologia para atingir a fenomenologia da infância, ou atingir a criança tal como ela se apresenta. Este entreato conversa acerca da metodologia da escritura da tese: mas não se trata de um texto “sobre” a metodologia de trabalho. A metodologia de trabalho revela-se na maneira mesma como a pesquisa está tecida, do início ao fim; imbricada, colada, bordada em cada momento do texto.

Brinco aqui com Clarice Lispector que pensa e sente ter desenvolvido uma “antimetodologia” para escrever. A “antimetodologia” não conhece a si mesma; disse Clarice:

A coisa vai-se fazendo em mim.

Não escolho o momento, é ele que me escolhe. Inspiração? Não existe. A gente tem é que estar preparada para o momento que escolhe a gente. O meu método de trabalho é estar com a ponta do lápis feita. O resto é quase orgânico, fora da minha deliberação, da minha alçada (…) (2004:78)

“Estar com a ponta do lápis feita” para a realização da fenomenologia da infância é estar afiado para a observação fenomenológica da criança no mundo. Obviamente existem diferenças entre o trabalho da escritora e o trabalho da psicóloga fenomenóloga; as semelhanças convergem no uso da palavra, na busca de registro escrito de existências.

A partir de meus estudos dos Cursos na Sorbonne de Merleau-Ponty, apreendi que uma “nova psicologia”, tal como proposta pelo filósofo, surgirá com uma “nova linguagem”, criada para descrever a criança do ponto de vista dela mesma – e não a partir de uma teoria do desenvolvimento. Cerca de dez anos atrás, realizei uma primeira aproximação a essa nova linguagem, em meu Trabalho de Conclusão de Curso, escrito no último ano de graduação em psicologia na PUC-SP. Era meu título: Esboço de uma fenomenologia da criancice da criança. Naquele momento, de maneira absolutamente intuitiva, registrei em minha monografia observações de cenas do cotidiano da criança na cidade de São Paulo, e, em seguida, procurei um percurso possível de análise das relações adulto-criança.

Hoje espero, sinceramente, não ter perdido um grau de ingenuidade necessária para falar antropologicamente acerca da criança e da infância – mas percebo que meus estudos avançaram, e que uma “metodologia” precisa amadurecer, dar frutos. Conto com o olhar merleau-pontiano para isso; também evoco, neste Entreato, a escritora Clarice Lispector, de modo a dialogar com uma espécie de frescor e encantamento pela palavra -- e pelo pensamento criador, que, do meu ponto de vista, concretizam uma fala falante (algo discutido por mim no existencial Lingüisticidade, a seguir, no corpo da tese) que retrate a criança e suas relações no mundo, com os outros e com a cultura humana.

Convido meu leitor a encontrar-se, “no corredor do teatro”, com Clarice e seu “antimétodo” – convite paralelo à renovação da “cena do infantil” e do discurso do adulto acerca da infância, a ser renovado, distante de qualquer perspectiva racionalista.

*

O entreato tornou-se necessário pela renovação do cenário, no decorrer de uma longa pausa, de black-outs ou de mutações à vista. Mas sua função é sobretudo social. Ele generalizou-se assim para o teatro de corte do Renascimento, pois permite o encontro dos espectadores e a exposição das toaletes (daí o ritual do foyer na Ópera ou na Comédie-Française, no século XIX). (idem ibidem)

A partir da propositiva d’A Flor da Vida, pretendo semear a mudança de cenário, em conexão com o modo de ser e de estar da criança pequena. Esse modo de ser e estar encontra-se numa dimensão de vida pré-reflexiva, dimensão que revela um tipo de pensamento bem diverso do pensamento usual do adulto. É esse modo de pensar e de viver a vida que associo à “antimetodologia” de Clarice Lispector, que afirma em um depoimento:

Descobri que eu preciso não saber o que penso. Se eu ficar consciente do que penso passo a não poder mais pensar. Quando digo ‘pensar’ quer dizer sonhar palavras. Ou melhor: passo a só me ver pensar. Meu pensamento tem que ser um sentir. Penso tão depressa que não sei o que penso. Penso por imagens mais rápidas que as palavras do pensamento pudessem captar. O vazio, e o não pensar, é o melhor estado mental para que as imagens se façam.

/grifo meu/ (2004:80)

A imagem do vazio, de um pensamento conectado à imagem e ao sentimento, é muito própria como fagulha inicial para escrever sobre a criança e a infância, do ponto de vista fenomenológico: em busca de uma “nova linguagem”, como evoca Merleau-Ponty. O

vazio pode ser a ausência de pressupostos ou noções prévias, convite do método fenomenológico.

*

A dramaturgia clássica aceita os entreatos, esforçando-se para motivá-los e fazê-los servir à ilusão: “Nos intervalos dos atos, o teatro fica vazio, mas a ação não deixa de continuar fora do lugar da cena”, ou ainda: “O entreato é um repouso apenas para os espectadores, e não o é para a ação. Supõe-se que as personagens ajam no intervalo de um ato a outro” (Marmontel, 1763). Pouco importa a duração do entreato, se ela é motivada pela ação que se prolonga nos bastidores: “Já que a ação não pára de jeito nenhum, é preciso que, quando o movimento cessa no palco, continue por trás dele. Não há repouso, não há suspensão” (Diderot).

(... )

Este retorno à realidade convida o espectador, quer ele queira ou não, a pensar globalmente no que acaba de ver, a julgar o trabalho, a totalizar e a estruturar a massa das impressões. É o despertar do espírito crítico, e não é de se espantar que uma dramaturgia épica favoreça, até mesmo multiplique essas pausas no espetáculo, obrigando o público a “intervir” nesses momentos de desilusões. (idem ibidem)

Esta “pausa” para o entreato não pára, de modo algum, esta pesquisa – nem a vida mesma da criança no mundo. Peço ao leitor que se deixe provocar em direção aos próximos passos de semeadura da fenomenologia da infância. Disse Clarice: Não se faz uma frase. A frase nasce. (…) As idéias me vêm puras e, uma vez formadas, como uma criança que nasce, dou-lhes inteira liberdade. A escritora, quando cria personagens e contextos, não parte de noções pré-estabelecidas. Também aqui não se poderia partir de um construto de infância pré-moldado: fazê-lo seria um erro metodológico.

Como escreveu Bachelard, citado na epígrafe de abertura desta tese, será preciso desamadurecer para compreender a capacidade imaginativa da criança pequena, seu modo de ser e estar no mundo. As prerrogativas estão na vida cotidiana: no olhar cuidadoso para o brincar e o silenciar da criança, na possibilidade de escuta do adulto que “cria” a criança, que a “assiste” durante seu tempo de primeira infância.

Termino o primeiro entreato respondendo carinhosamente à Profa. Marina Célia: ela estava certa ao destacar a importância da não-sobrevalorização da função intelectual do pensamento, especialmente para conversar com crianças; é preciso perseguir a não- dicotomia entre pensar e sentir, entre criança e adulto, entre ser e mundo:

É que o mundo de fora também tem o seu ‘dentro’, daí a pergunta, daí os equívocos. O mundo de fora também é íntimo. Quem o trata com cerimônia e não o mistura a si mesmo não o vive, e é quem realmente o considera ‘estranho’ e ‘de fora’. A palavra ‘dicotomia’ é uma das mais secas do dicionário.

Clarice Lispector (2004:83)