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Deleuze salienta que se faz necessário, segundo Foucault, analisar as condições, os jogos e os efeitos nos quais os discursos encontram-se inseridos, uma vez que, se estes estivessem subordinados à ordem dos significantes, eles seriam anulados. (FOUCAULT, 1996. p.49) Nas palavras do próprio Foucault: “os discursos devem ser tratados, antes, como conjuntos de acontecimentos discursivos”, como acontecimentos que se realizam na matéria. (FOUCAULT, 1996. p.57)

Logo, para os discursos não há um processo, substância ou acidente, mas relação, efeito, coexistência, recorte, acumulação, seleção de elementos materiais. Foucault ainda destaca que o acontecimento não é da ordem dos corpos, enquanto ato ou propriedade, mas da ordem dos efeitos que atuam eventualmente sobre esses corpos interferindo na temporalidade e na dispersão dos sujeitos em uma pluralidade de posições e funções possíveis. (FOUCAULT, 1996. p.51-60)

Os acontecimentos, também para Deleuze, são incorporais e diferem das coisas ou dos estados de coisas15. São efeitos que interferem no tempo e que ora são

apreendidos como presente vivo nos corpos que “agem e padecem”, ora são como uma instância infinitamente divisível em passado-futuro. Os acontecimentos se realizam junto aos efeitos incorporais que resultam dos corpos, sendo estes, “mistos”16

dotados de suas ações e paixões.

Os corpos, segundo os estoicos17, agregam para si os caracteres da substância

e da causa. Já a Ideia, ao contrário do que se pensava desde Platão18, se debruça

sobre a superfície das coisas, ao extra-ser impassível, estéril e ineficaz. Assim, o

15 Em Lógica do Sentido, Deleuze explica o conceito de “acontecimento” partindo de uma leitura original sobre a distinção das espécies de coisas, realizada pelos estoicos: “não confundir o acontecimento com a sua efetuação espaço-temporal em um estado de coisas”. DELEUZE, LS. p.6. É importante ressaltar, conforme Zourabichvili, que nesta distinção que se faz entre estados de coisas e acontecimentos, aplica-se o par “atual- virtual” que será estudado mais adiante nesta pesquisa, mas que concerne à dimensão do saber em um dispositivo. ZOURABICHVILI, 2003. p.17

16Mais adiante também estudaremos os “mistos” conforme o bergsonismo de Deleuze. Todavia, já adiantamos aqui que se trata de coexistências corporais, misturas de naturezas diferentes como estados de coisas quantitativos (espaciais) e qualitativos (temporais). ( DELEUZE, LS. p.6)

17 Os estoicos são uma aliança importante para a concepção deleuziana de sentido e acontecimento. 18 Platão pensava a Ideia como parte integrante das coisas e dos seres.

incorporal ou o ideal deixa de ser a parte interna das coisas para tornar-se não mais que um efeito.

Os incorporais emergem à superfície como efeitos que se manifestam e desempenham seu papel. Tais efeitos assumem o sentido causal, mas também se insinuam como efeitos sonoros, ópticos ou de linguagem. O incorporal passa a se tornar toda a Ideia que se instaura na superfície, ainda que saibamos que ele é completamente destituído de uma corporeidade. Este acontecimento ideal, repleto de paradoxos é o próprio devir ilimitado, que também se passa na superfície.

De outro modo, o acontecimento é coextensivo ao devir e o devir à linguagem. Desta forma, o paradoxo, ou seja, a afirmação de dois sentidos ao mesmo tempo, se torna uma série de proposições interrogativas que procedem conforme o devir por adições e subtrações sucessivas. (DELEUZE, LS. p.9) À linguagem cabe a função de fixar e ultrapassar os limites e ainda restitui-los à equivalência infinita de um devir ilimitado.

“Os acontecimentos são como cristais, não se transformam e não crescem a não ser pelas bordas, nas bordas”. (DELEUZE, LS. p.10) De outro modo, os discursos devem ser abordados por meio de um conjunto de acontecimentos, pois a prática discursiva corresponde a uma cadeia de ideias que coexistem a partir da superfície e para a superfície. Nesta perspectiva, podemos notar que os discursos não possuem uma forma homogênea, mas se exercem como um acontecimento que faz elevar para o nível da linguagem todo o devir e os seus paradoxos.

Segundo Deleuze: “o acontecimento pertence essencialmente à linguagem, ele mantém uma relação essencial com a linguagem; mas a linguagem é o que se diz das coisas.” (DELEUZE, LS. p.23) Portanto, não se deve confundir a efetuação espaço- temporal de um acontecimento com ele próprio, uma vez que o acontecimento não possui um sentido. Ele é o próprio sentido19, sempre exprimível ou enunciável,

conforme uma proposição.

Tais expressões e enunciações inferidas pelo acontecimento se tornam possíveis por meio de certas proposições que parecem estreitar as relações entre as

palavras e o pensamento, conforme afirma Foucault a respeito da realidade específica dos discursos em geral:

Desde que foram excluídos os jogos e o comércio dos sofistas [...] parece que o pensamento ocidental tomou cuidado para que o discurso ocupasse o menor lugar possível entre o pensamento e a palavra; parece que tomou cuidado para que o discurso aparecesse apenas como um certo aporte entre pensar e falar; seria um pensamento revestido de seus signos e tornado visível pelas palavras, ou inversamente seriam as estruturas mesmas da língua postas em jogo e produzindo um efeito de sentido. (FOUCAULT, 1996. p.46)

A crítica de Foucault está voltada a uma suposta “experiência originária”, que suporia que, no nível da experiência, significações anteriores ditas de algum modo qualquer, percorreriam o mundo ofertando, dispondo, abrindo-se para nós como uma espécie de reconhecimento primitivo. O discurso, bem como as nossas experimentações, estariam subordinadas a uma espécie de cumplicidade primeira com o mundo, que nos possibilitaria designá-lo, nomeá-lo, julgá-lo e conhecê-lo sob a forma da verdade. (FOUCAULT, 1996. p.48)

Para Deleuze é próprio dos acontecimentos o fato de serem expressos ou exprimíveis, enunciados ou enunciáveis por meio de proposições. Contudo existem três tipos de relações ou procedimentos que são reconhecidos por algumas filosofias20

como convenientes aos acontecimentos. São estes a designação ou indicação, relacionada a um estado de coisas exteriores; a manifestação intrínseca aos enunciados do desejo e a significação que concerne às implicações de conceitos. Haveria ainda uma quarta relação ou dimensão, não tão difundida, chamada por Husserl de expressão e por Deleuze de sentido, que seria o expresso das proposições.

Se a primeira dimensão opera por meio da associação das palavras com as imagens, a segunda se apresenta como a causalidade interna de uma imagem, especialmente no que diz respeito à existência do objeto ou de um estado de coisas correspondente. Caberia, então, à manifestação tornar possível a designação,

20 Deleuze não precisa quem são esses autores que reconhecem as três relações distintas da proposição. Um ano após Deleuze lançar o “Lógica do Sentido” (1969), Foucault, ao tratar destas mesmas relações, cita três tipos de filosofias que se referem ao discurso conforme um jogo de relações por meio dos signos: uma filosofia do sujeito fundante, uma filosofia da experiência originária e uma filosofia da mediação universal. Na primeira o discurso é um jogo de escritura, na segunda de leitura e na terceira de troca. (FOUCAULT, 1996. p.49)

fazendo com que as inferências do desejo se tornem uma unidade na qual as associações da indicação passem a derivar.

Em outras palavras, entre a designação de uma imagem ou objeto qualquer até a manifestação que dá crédito àquilo que exprimimos ou enunciamos, ocorre um deslocamento de princípios, fazendo com que os objetos somente sejam designados mediante a relação da proposição do sujeito que fala e se exprime. Esta relação que instaura a primazia da manifestação sobre a designação, ergue-se do ponto de vista da fala e deste mesmo ponto, a manifestação também se mantém primeira em relação à terceira dimensão da proposição, a significação.