Este estudo permitiu identificar algumas ações no contexto social, o que pode ajudar na formulação de políticas para oferecer melhores serviços de saúde, articulados culturalmente, e com respeito ao saber popular.
Os saberes vinculados às visões do mundo estão na interpretação sociocultural de uma cultura, que inclui as pessoas, a sociedade, a vida e a morte, o território, as relações entre os seres vivos, assim como as formas de interpretação y narração do mundo. Tradições e valores definem as práticas sociais, como também os significados fundamentais e formas como estão constituídas.
A primeira menstruação a mulher era até uns anos atrás e na atualidade com menor freqüência a celebridade maior. Afastada cuida de seu corpo, come dieta especial baseada em peixe e aprende alguma atividade, o que é considerado exercício de suas funções reprodutivas e produtivas.
O cuidado com a saúde é uma área importante, nas quais são praticados e transmitidos saberes próprios. É importante entender como a saúde e doença são interpretadas em seus próprios termos; sem isso será difícil entender as razoes de aceitação ou rejeição da medicina ocidental. As plantas medicinais fazem parte de uma visão que inclui o corpo, a saúde e a doença. “Toda planta tem vida, tem mãe, tem espírito e tem mente; por isso nos transmite seu dom para a cura das pessoas que precisam” (PANDURO, 2004, p. 262). A integração dos saberes com o mundo está ligada ao conhecimento das doenças, suas causas e plantas que devem ser utilizadas no seu tratamento.
Assim também a etnografia permitiu conhecer os saberes e práticas de auto- cuidado da mulher, suas tradições e mitos, enquanto conhecimentos elaborados a partir de seu meio-ambiente simbólico. O uso das plantas medicinais para melhorar as moléstias ou ajudar a ter um melhor estado de saúde durante a gravidez, parto e pós- parto e os cuidados imediatos do recém nascido, são saberes praticados no dia-a-dia.
Nas praticas anticoncepcionais de planejamento familiar, as mulheres continuam usando uma variedade de ervas e plantas. As mulheres mais velhas e as mulheres novas, ainda continuam utilizando ervas e plantas para evitar a gravidez.
Existe uma demanda insatisfeita dos métodos modernos, pela falta de informação sobre o funcionamento no corpo, efeitos colaterais. Encontramos mulheres que engravidaram quando faziam planejamento familiar com a pílula.
Os servidores de saúde manifestam que as mulheres “não aproveitam” os serviços de planejamento familiar, pela ignorância, por temor, pela mala experiência que alguma mulher passo com algum método anticoncepcional e foi contada a outras mulheres.
A presença da parteira e parteiro tradicional continua sendo muito importante em populações afastadas, inclusive onde já há um estabelecimento de saúde. As mulheres grávidas consideram que essas pessoas ajudam a dar vida de forma segura, confiante e respeitosa; ainda que não tenham um reconhecimento pelo sistema de saúde oficial, nem propostas de capacitação dirigidas a elas. O cuidado e respeito implica também um vínculo emocional e afetivo entre ambas as partes: parturiente e parteira.
Os servidores de saúde atribuem causas de alguma complicação durante a gravidez parto e pós-parto, como por exemplo, cordão circular, quando acodem as parteiras,considerando-as de “descuidadas”.
As mulheres preferem ser atendidas pelas parteiras e parteiros tradicionais, pelo respeito a seus tempos individuais. Elas as acompanham desde o início de sua gravidez até o pós-parto, utilizando estratégias medicinais que favorecem a saúde mãe e filho. As mulheres valorizam as parteiras não apenas porque são da mesma comunidade, mas também porque têm uma preocupação que tudo tenha sucesso, e não com um tempo marcado pelo relógio.
Experiências como as de México52 onde a participação das parteiras tradicionais também é muito importante, reportam estadísticas de até um 100% dos partos que são atendidas pelas parteiras em comunidades com maior população indígena.
Para as populações indígenas a compreensão dos fenômenos frio-calor forma parte da experiência e da significação do processo de parto em casa, e está ligada à condição de respeito ao ritmo da natureza, sob uma perspectiva humanizada, que privilegia a mulher como centro do cuidado. Dessa perspectiva fazem parte atenções como fazer companhia, ficar perto, esperar com paciência, ou oferecer um chá que é necessário para o desenvolvimento do processo do parto.
A distância cultural entre a visão médica e as visões tradicionais gera sentimentos de desconfiança para as usuárias. Ao procurar o estabelecimento de saúde são as missões tradicionais aceitas apenas de forma limitada, porque os servidores ainda utilizam técnicas e/ou procedimentos como o toque vaginal repetido ou a episiotomia, que são interpretados como violentas para seu corpo. É como se fossem “assassinadas” conforme termo utilizado por elas. As mulheres se ressentem com a falta de cuidados e de posições que favoreçam ao parto, e com o desrespeito às suas tradições e crenças. Sentem falta dos cuidados afetuosos que não encontram nos serviços de saúde nem nos servidores.
Entre as demandas das usuárias estão o respeito e o bom atendimento, assim como a demanda de profissionais com experiência, comprometidos a prestar um bom serviço.
Os novos profissionais desconhecem o saber da comunidade, chegando a desrespeitar suas tradições. Temos que ter em conta que o saber da comunidade é um saber diferente, e tão importante como qualquer outro saber. Os valores culturais não devem ser hierarquizados, porque isso limita o diálogo intercultural. Por isso é preciso ter em conta o conflito entre os saberes tradicionais e a medicina ocidental, onde por um lado não se dá importância aos saberes tradicionais indígenas, e por outro se insiste em práticas, ditas modernas que podem ser negativas para a saúde e o bem-estar como a já mencionada episiotomia.
Em poucas oportunidades os servidores de saúde, identificam tradições culturais da população, mas eles ao referir-se dizem que são coisas do passado, por que já a população está mais “civilizada”.
É necessária a sensibilização a respeito dos direitos humanos por parte dos servidores de saúde, e também um melhor desenvolvimento intercultural e de qualidade para as comunidades rurais nos serviços de saúde. Devem-se encontrar novos caminhos entre a medicina moderna e a medicina tradicional, em busca de um trabalho mais eqüitativo e menos ameaçador para as populações rurais.
Tal como diz Terezita Antazú53 “precisamos conhecer bem a cultura dominante, para poder conhecer práticas e conhecimentos com nossas próprias culturas e escolher quais queremos aplicá-las em nossas vidas, nossa família e nossas comunidades”. Quando nos referimos à interculturalidade, estamos procurando os temas de tolerância,
53 Salud Reproductiva en la Amazonía: Ponencia presentada en el Foro Nacional sobre salud
respeito e capacidade de diálogo. Ou seja, uma atitude de “mudança” a partir da própria identidade. É importante reconhecer a capacidade de construir alianças entre profissionais de saúde, especialistas tradicionais de saúde e comunidade em geral para a concretização das soluções dos problemas, com uma atitude construtiva e contínua na prática diária, cotidiana, para construir algo melhor.
Evidentemente, da perspectiva dos direitos à saúde, as mulheres têm o direito de serem tratadas com respeito, sem discriminação, mas isso requer de medidas programáticas elementares dentro das políticas de saúde.
Na prática, é importante mencionar que as mulheres se dão conta de que os serviços são inadequados, sendo necessária uma avaliação conjunta entre servidores de saúde e comunidade para estabelecer as prioridades.
Nesta pesquisa não tivemos informação sobre mortes maternas, porém assumimos que são subregistradas, já que continuam engrossando as estatísticas, sobretudo nas zonas rurais, onde não há um registro diferenciado entre população rural e urbana, e onde as populações indígenas moram em zonas rurais mais distantes, onde se dá pouca importância à vida da mulher rural e indígena.
É necessário começar a ikarar aos kutipados e criar espaços para o bem-estar das mulheres, com eqüidade e respeito a seus direitos sexuais e reprodutivos.