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O modelo teórico proposto destina-se, fundamentalmente, à investigação da influência do capital intelectual sobre a performance do projeto de software. Seguindo a proposta de estudos anteriores (GUBIANI, 2011; MARTÍNEZ-TORRES, 2006; RODRIGUES et al., 2009), as dimensões do capital intelectual – capital humano, capital estrutural e capital relacional – são analisadas separadamente. Esses elementos são vistos como condicionantes da performance dos projetos de software. Desta forma, as três dimensões do capital intelectual, juntamente com a performance do projeto, são os construtos que constituem a arquitetura geral do modelo, como mostra a Figura 12.

Figura 12 - Arquitetura geral do modelo conceitual. Fonte: elaboração própria.

Identificados os componentes essenciais do fenômeno estudado, a arquitetura do modelo é complementada pelas hipóteses acerca das relações entre os mesmos. As hipóteses H1, H2 e H3 dizem respeito às relações de causalidade entre os elementos do capital intelectual e a performance do projeto, enquanto as hipóteses H4, H5 e H6 referem-se correlações entre os construtos do capital intelectual.

4.1.1 Relação entre o Capital Intelectual e a Peformance do Projeto Na pesquisa bibliográfica que orientou o desenvolvimento desta tese não foram verificados estudos associando diretamente os conceitos do capital intelectual e da performance dos projetos de software. Existem, no entanto, diversos trabalhos que evidenciam o capital intelectual como fator influente da performance das organizações: SELEIM, ASHOUR, & BONTIS (2004) verificaram relações positivas entre o capital intelectual a performance das organizações de software do Egito; o estudo de SHARABATI et al. (2010) revela uma forte correlação positiva entre o capital intelectual e a performance de empresas do setor farmacêutico; TSENG & Goo (2005) correlacionam positivamente o capital intelectual e o valor corporativo das empresas em uma economia emergente; e o estudo de CHEN et al. (2004), que inclui o capital de inovação como quarto componente do capital intelectual, aponta forte correlação positiva entre este último e a performance de empresas chinesas.

A partir dessas evidências, retoma-se a definição de NIDUMOLU (1996), que caracteriza o projeto de software como uma organização temporária que demanda recursos da organização de desenvolvimento de software, e formula-se a seguinte ideia: se o capital intelectual – nas formas de capital humano, capital estrutural e capital relacional – influencia positivamente a performance das organizações em diferentes contextos, é provável que influencie também a performance de uma organização temporária, representada aqui pelo projeto de software. A esta ideia, soma-se o fato do desenvolvimento de software envolver atividades com grandes demandas de conhecimento (I. RUS & Lindvall, 2002), tornando-se, portanto, altamente dependente dos recursos humanos envolvidos e da capacidade da organização de se apropriar do conhecimento empregado (BARNEY, WOHLIN, et al., 2009; JOSHI et al., 2011). São formuladas, então, as seguintes hipóteses:

 H1: O capital humano influencia positivamente a performance do projeto de software.

 H2: O capital estrutural influencia positivamente a performance do projeto de software.

 H3: O capital relacional influencia positivamente a performance do projeto de software.

4.1.2 Relação entre os Componentes do Capital Intelectual

Na literatura estudada, verifica-se um consenso em torno da ideia de que os capitais humano, estrutural e relacional estão interligados, e de que a interação entre os mesmos é necessária para que ocorra o aumento do capital intelectual, como um todo, e a geração de valor para as organizações. Neste sentido, STEWART (1998) afirma que “o capital intelectual não é criado a partir de partes distintas de capital humano, estrutural e do cliente, mas do intercâmbio entre eles”. Para atingir as suas metas dentro da organização, o capital humano deve ser capaz de interagir com o capital estrutural e relacional (CABRITA & BONTIS, 2008; YUSOFF et al., 2004). Segundo BONTIS (1998), os indivíduos da organização podem ter um alto nível de intelecto, mas se tiverem que conduzir as suas ações por sistemas e procedimentos pobres, o capital intelectual como um todo não poderá atingir o seu potencial.

De acordo com YOUNDT et al. (2004), as organizações não são capazes de desenvolver cada um dos elementos do capital intelectual de forma independente. A partir da literatura sobre a aprendizagem organizacional, os mesmos autores sugerem que a aprendizagem individual é uma condição necessária, mas insuficiente para a aprendizagem da organização: os indivíduos devem compartilhar ideias, conhecimentos e modelos mentais, dentro e fora da organização, acessando e gerando capital relacional. Depois, parte do conhecimento criado pelos indivíduos e difundido pelas redes de relacionamento é codificada e institucionalizada na forma de capital estrutural, que é reutilizado pelos indivíduos na sua aprendizagem individual.

O estudo da interação entre os elementos do capital intelectual tem sido orientado pela formulação de hipóteses tanto sobre as relações causais, quanto sobre a correlação entre os elementos. Na primeira abordagem, cada elemento do capital intelectual é visto como a causa ou a conseqüência de outro elemento, como ocorre nos modelos de MARTÍNEZ-TORRES (2006) e REN (2009), onde o conhecimento transportado pelos colaboradores – pré-requisito para a riqueza das organizações – é integrado ao capital estrutural, que por sua vez é aplicado para desenvolver as redes de relacionamento internas e externas à organização, o que promove o desenvolvimento dos conhecimentos e habilidades das pessoas (Figura 13a). J. CHEN et al. (2004) e TSENG & JAMES GOO (2005) também estudam relações de causalidade, considerando que: (i) o capital relacional é gerado pelos

capitais humano, estrutural e de inovação; (ii) os capitais de inovação e estrutural são causados pelo capital humano; (iii) o capital estrutural é gerado pelo capital humano. Em CLEARY (2009) e SHIH, CHANG, & LIN (2010) são levantadas hipóteses de que o capital humano influencia o capital estrutural e o relacional, enquanto o capital relacional influencia o capital estrutural (Figura 13b).

Figura 13 – Diferentes relações de causalidade entre os elementos do capital intelectual.

Fonte: Elaboração própria.

Na segunda abordagem, entende-se que os elementos do capital intelectual se relacionam mutuamente, cada um contribuindo para alavancar os demais e, ao mesmo tempo, sendo impulsionado pelos mesmos. Segundo SANCHEZ, CHAMINADE, & OLEA, (2000), os elementos do capital intelectual não devem ser tratados como “compartimentos estanques”, mas sim como grupos de intangíveis altamente interligados, e que a promoção das interações entre os mesmos é essencial para o aumento do capital intelectual como um todo. RODRIGUES et al. (2009) comprovaram suas hipóteses de correlação entre os três elementos do capital intelectual e consideram que a interação entre os mesmos impulsiona a criação de valor para a organização. SHIH et al. (2010) verificaram na indústria bancária que a interação e a influência mútua entre os três grupos de capital intelectual beneficia o aumento deste último e gera vantagem competitiva. GUBIANI (2011) e SECUNDO et al. (2010) confirmam correlações positivas e significativas entre os elementos do capital intelectual no domínio das instituições de ensino superior.

Na visão desta tese, o capital intelectual aplicado a um projeto de software representa uma porção do capital intelectual da empresa ou organização em que o projeto é executado. QUANdo a organização temporária do projeto é iniciada, parte do seu capital intelectual já está constituída, porque foi desenvolvida previamente na organização principal e, então, alocada ao projeto. A partir da sua composição inicial, o capital intelectual associado ao projeto deve continuar a se

desenvolver pela interação dos seus três componentes durante a execução do projeto.

As ideias expostas acima permitem supor que os três elementos do capital intelectual aplicado ao projeto de software estejam correlacionados entre si. Se os capitais humano, estrutural e relacional foram desenvolvidos na organização principal por meio de interações contínuas, espera-se que os três tenham crescido conjuntamente. Desta forma, quando se extrai uma parte do capital intelectual para o projeto, os seus três componentes não devem apresentar graus tão distintos de desenvolvimento. São formuladas, então, as seguintes hipóteses:

 H4: O capital humano e o capital estrutural são positiva e significativamente correlacionados na execução de um projeto de software.

 H5: O capital humano e o capital relacional são positiva e significativamente correlacionados na execução de um projeto de software.

 H6: O capital estrutural e o capital relacional são positiva e significativamente correlacionados na execução de um projeto de software.