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4. Biomass production

4.1. Silvicultural methods in forestry

Durante toda a pesquisa pontuamos e reiteramos a necessidade do cultivo no processo de apropriação da capoeira.

Tal como observado por Alvarez (2007), como se disse, é preciso a disposição de um “perder tempo” junto a esta prática, sem a qual não se incrusta a capoeira nos modos de ser do capoeirista. Observamos que, para tanto, o sujeito se lança à relação com o outro sem abrir mão de si e faz deste processo relacional, um exercício de constituição de sua existência. Vimos também como a condução do mestre situa esta constituição da existência dentro de um plano coletivo. Em meio às intensidades que se desencadeiam na coletividade, os iniciantes à prática da capoeira adentram o território existencial que os instiga e, de partida, são levados pelos sentidos que os cercam, e isto produz encantamento. Vimos ainda que embora os iniciantes ainda não tenham a capoeira como prática da existência, a escolha por esta prática aponta para um campo referencial que os coloca em desassossego, movendo-os na busca por aquilo que querem tomar para si.

Neste processo todo de apropriação é que se inscreve a lapidação do capoeirista, isto é, a invenção de sua arte de viver.

Os primeiros passos dessa lapidação de si giram em torno da imitação. O mestre e os praticantes mais velhos são as referências que disparam o exercício da lapidação. A fala de mestre Plínio ajuda a sustentar esta ideia:

Quando nós vemos um mestre jogar, um grande mestre, como, por exemplo, mestre Morais, mestre Cobrinha, ou Mestre Jogo de Dentro, quando você vê estes homens jogando capoeira, principalmente os alunos mais jovens, os caras que estão com quinze, vinte anos, ele tá querendo ser tão bom quanto, e ele termina copiando aquele movimento e só lá na frente é que ele vai ver que aquele movimento, muitas vezes, não serve pra ele... (Entrevista

realizada em 26/03/2009).

A imitação do mestre é uma primeira etapa que lança o iniciante à experiência de movimento. Este fragmento indica claramente que a própria prática, isto é, o exercício de imitar e re-visitar a imitação dentro da experiência de movimento acaba introduzindo a transgressão.

Todavia, a introdução à prática não pode prescindir da experiência de movimento, pois sem ela, o iniciante não consegue se soltar da referência primeira e, assim, não encontra suas próprias trilhas de lapidação de si.

A busca por estas trilhas de lapidação de si não são garantidas previamente e, justamente por isto, se inscrevem enquanto trilhas, pois devem ser desbravadas na experiência de movimento. O mestre ajuda no desbravar destas trilhas quando, na prática que monitora, valoriza as reações espontâneas e criativas de seu aprendiz. Assim como faz mestre Plínio quando ensina o movimento da ginga:

Eu não falo assim: “Faça do teu jeito”, eu faço minha ginga lá na frente e

[...] eu prefiro deixar ele [o aprendiz] na posição dele. Aí chego ali e, por

exemplo, faço a menção de que vou atacar aquele ponto que tá aberto, então automaticamente ele vai se colocando e vai aprendendo a forma dele na forma de se movimentar (Entrevista realizada em 26/03/2009).

A condução de mestre Plínio no aprendizado da ginga converge a favor de uma atitude receptiva que precisa ser entendida pelo aprendiz. Ao se colocar lá na frente, gingando, sem demarcar uma proposição imperativa ao aprendiz, o mestre confia o processo de aprendizagem ao caráter transgressor da imitação. Ao imitar, o aprendiz coloca em movimento o referencial

visual, a partir do qual esquematiza sua ginga. A intervenção que daí se desdobra força o aprendiz a reacomodar o esquema motor imitado, deslocando-o indefinidamente, no transcorrer da experiência de movimento.

Quando se estende este exercício de aprendizagem dentro de um processo mais amplo, onde corre o movimento de lapidação do capoeirista, é possível perceber a aprendizagem como deslocamento, como exercício de descobertas na experiência de movimento e que, portanto, se orienta para o futuro: para um modo de ser porvir. A fala de mestre Plínio complementa esta ideia:

a parte mais difícil da movimentação é descobrir a sua própria maneira de jogar capoeira [...] Já tem outras pessoas que precisam da minha base pra se desenvolver... Elas copiam o meu movimento... e é claro que o cara, quando ele está começando, ele copia mesmo, é normal. A criança também vive assim... tem que ter aquela referência, mas esta é uma primeira parte da capoeira...tem outras... [...] Eu ainda não desvendei todas as partes da capoeira e sei que uma vida inteira não basta pra desvendar, mas uma coisa que me mantém ativo na capoeira é exatamente saber que tem um universo pela frente aí... (Entrevista realizada em 26/03/2009).

Mestre Plínio retorna aqui os ensinamentos que aprendeu com mestre Pastinha sobre as partes da capoeira. Na primeira parte – o movimento – o exercício da imitação alimenta o jogo com o outro, lançando a aprendizagem ao plano da coletividade, onde a referência do mestre move a experiência de movimento, deslocando-a. A partir desta primeira parte, o capoeirista busca “descobrir sua própria maneira de jogar capoeira”. Todavia, “uma vida inteira não basta pra desvendar” esta busca pela capoeira. E é justamente esta busca, indefinidamente

prorrogada, que alimenta o desejo pela capoeira e pela graça do viver.

A busca por um modo capoeira de ser indica um horizonte de direcionamento que, embora sempre proximal nunca é um movimento plenamente alcançado. Há sempre outras possibilidades de exploração e reinvenção do movimento. Assim, a apropriação da capoeira está sempre em processo, o que a aproxima do curso da própria vida. Desta forma, ao se implicar com uma estética (a capoeira), o capoeirista toma para si uma ética que move os rumos de sua existência.