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Lua hoje trabalha como diretora em uma escola de ensino infantil que atende crianças de zero a cinco anos. Ao longo dos seus 12 anos de carreira na pedagogia, já teve experiência com ensino de jovens e adultos, na universidade, e em escolas particulares, como orientadora educacional e coordenadora. Pela sua formação, especialização e mestrado, sabe que poderia trabalhar em qualquer nível de educação, mas opta por trabalhar com o ensino infantil porque acredita que para a sociedade o seu trabalho é fundamental, por trabalhar com a base educacional de crianças.

É enfática ao afirmar que o trabalho é vital e que não viveria sem trabalhar. Comenta que em seu trabalho de mestrado, falando em desenvolvimento humano, abordou questões referentes ao trabalho. Segundo ela, uma das características para o humano ser produtivo é o trabalho:

Porque se tu tiver uma vida tipo mulher só dona-de-casa, não é reconhecido. Hoje, na sociedade a mulher só é reconhecida

quando ela trabalha, quando ela produz alguma coisa para a

sociedade. Tu ficar dentro de casa só lavando roupa, louça, fazendo comida, ninguém reconhece o seu trabalho. Tu tem que ser

produtiva para a sociedade. (Lua, diretora, 48 anos)

Assim, Lua já antecipa uma opinião sobre o papel do trabalho feminino na sociedade. Posteriormente questionada sobre a sua opinião com relação às mulheres que optam por trabalhar só em casa, Lua responde rápido e precisamente: “Inútil, inútil”. Ela considera-se o oposto dessa mulher dona-de- casa, é produtiva e defende o seu trabalho, apesar de ter chegado ao cargo por uma via incomum. Começou como professora do município em outra escola, quando mudou-se de bairro, pediu transferência para a atual. De professora foi convidada a ser supervisora, depois de um tempo a diretora sofreu um infarto e morreu. Por indicação do Conselho Escolar, Lua assumiu a direção provisoriamente, visto que ao assumir por indicação poderia ser substituída a qualquer momento. Por sugestão de uma procuradora municipal, realizou

eleição na escola e foi eleita com 97% dos votos. Orgulha-se de contar que dentre os professores e funcionários sua aceitação foi de 100%.

Como diretora administra 300 crianças, de zero a cinco anos, 30 funcionários, dentre estes 16 estagiárias com idade entre 16 e 25 anos, quatro auxiliares de serviços gerais, além dos 12 professores, que são todos pós- graduados. “Então, se eu tenho 300 crianças são 600 pais que eu também tenho que administrar”92. Toda a parte burocrática é de sua responsabilidade. Lua afirma que o mais importante é o lado humano, pois procura conhecer cada uma das pessoas, sabe o nome e a história de todas as crianças. Segundo ela, isso é essencial no seu trabalho, porque ao conhecer o funcionário pode aproveitá-lo melhor, e ao conhecer as crianças, onde vivem, como vivem, pode trabalhar de forma a ajudá-la. São filhos de desempregados, carentes, que moram em invasões, “esta é a minha clientela”, brinca. “As crianças são carentes não só de educação, mas de tudo”, por isso a escola funciona das 8 às 17 horas, as crianças dormem e comem na escola, “é como se fosse uma casa”. Uma das principais dificuldades é a baixa verba repassada pelo governo para manutenção da escola.

Ao ser questionada sobre a sua realização profissional, rapidamente afirma que se considera plenamente realizada. Quando teve que escolher sua profissão, tinha a certeza que queria cursar psicologia. Como em sua cidade natal não tinha, mudou-se para sua cidade atual. Porém, ainda no ensino médio foi motivada por uma professora a investir na carreira de educação. Apesar de insistir em querer cursar psicologia, acabou cursando o magistério. Segundo ela, depois disso “só foi”. A mudança de cidade mudou também seus planos porque ela acabou casando e adiando os estudos em função da gravidez93. Antes de trabalhar com educação precisou trabalhar como secretária, aos 15 anos. Trabalhava para poder comprar suas coisas pessoais, mas não precisava ajudar no sustento da casa.

Sobre ser bem-sucedida profissionalmente, Lua aponta algumas características de uma mulher com este status: iniciativa, conhecimento, certeza do que faz, luta pelo correto (tanto no âmbito pessoal como em grupo), e associa com sua própria postura:

92 Durante a conversa uma mãe procurou por ela em sua casa para pedir uma vaga para sua filha. Educadamente, Lua pediu que ela fosse até a escola no dia seguinte.

É pelo bem comum [...] muitas vezes as pessoas que convivem comigo dizem: “Ah, tu deixa o teu lado e pega o lado dos outros”. [...] Primeiro lugar eu digo assim, dentro da escola, dentro do meu trabalho, em primeiro lugar eu vou defender as minhas crianças, depois meus professores. [...] Tu tem que ter iniciativa própria,

conhecimento... bastante e querer trabalhar. E isso eu tenho. [...]

Eu sempre faço aquilo que eu tenho certeza que eu tô certa e não só sozinha, porque no meu trabalho eu tenho que ter uma equipe. Então assim, eu me sinto bem sucedida por quê? Além de conhecer o

que eu faço, saber fazer, eu tenho uma equipe muito boa junto comigo. (Lua, diretora, 48 anos)

Paralelo a isso, Lua não acha que a questão salarial influencie suas escolhas profissionais. Conta que quando concluiu o mestrado teve a oportunidade de trabalhar em universidade e foi muito apoiada pelo marido, que trabalhou no meio, mas optou por fazer o que gosta, mesmo que a proposta salarial tenha sido bem promissora, afirma que prefere ganhar menos “e ser aquilo que eu gosto de fazer, que eu me sinto bem, que eu vou dar o melhor de mim”, do que ganhar mais e “ir de má vontade”. Dentro da profissão ela poderia ainda “aumentar” seu status trabalhando, por exemplo, na Secretaria de Educação, porém isso também não está nos seus planos: “Não quero porque eu perco o contato com as crianças, com o aluno, com o ambiente escolar. É isso que eu gosto[...]” e diz ser consciente que “antes de eu ser diretora, eu estou diretora, eu sou professora”, conclui reafirmando sua postura de fazer o que gosta independente do status.

Apesar de achar que o fato de ser mulher não influencia na sua profissão, admite que não existem homens trabalhando com educação infantil. Em instituições privadas, por outro lado, o cargo de direção é comumente ocupado por homens e estes são, muitas vezes, mais valorizados. Lua acha que não é pelo sexo, mas pelo valor que o trabalho masculino ainda tem na sociedade. Na sua escola, Lua não tem colegas homens, apesar de já ter tido alguns estagiários. Segundo ela é mais fácil trabalhar com homens, porque geralmente se relacionam mais facilmente que as mulheres. Apesar de o seu superior ser homem, o secretário de educação, acha que as relações de gênero não influenciam no trabalho da educação.

Lua acha que hoje em dia não existem mais diferenças entre trabalhos de homens e trabalhos de mulheres. Citando o caso dos cursos para pedreiros do SENAI, que atualmente também são frequentados por mulheres, ela conta

que recentemente fez uma obra em casa e conversando com o pedreiro descobriu que as mulheres são preferidas para colocação de azulejos, por serem mais detalhistas e caprichosas. Segundo ela homem pode fazer qualquer coisa e mulher também, a única limitação poderia ser o esforço físico, em atividades muito pesadas. Por outro lado, quando o assunto é desigualdade salarial, Lua tem certeza que existe, argumentando com leituras que fez e experiências de pessoas próximas. Na sua área, por ser concurso público, não existe desigualdade salarial.

Pessoalmente Lua nunca teve ídolos, porque como referência toma apenas pessoas que conhece. Instigada a pensar sobre suas referências profissionais, se demora pensando, e fala de uma Orientadora Educacional que admirou. Lembrou que teve a oportunidade de trabalhar com esta pessoa e aprender com ela, e que isso serviu como uma referência na sua vida. Novamente questionada sobre sua referência profissional hoje, responde rindo e sem dúvidas “Se eu te disser que é eu mesma?”.

Lua não seria outra coisa senão professora. Apesar de ter tido uma expectativa com a psicologia, afirma que era por tratar do lado humano e emocional das relações, o que encontrou na educação. Lua reflete ainda sobre a sua infância, diz que queria ser professora pois era interna de um colégio de freiras e a questão estética lhe foi marcante. Até hoje ela gosta de moda, do arrumado, das questões estéticas dos ambientes, mas nem por isso quis fazer arquitetura ou trabalhar com moda, conta. Tinha a intuição de trabalhar com educação, mas demorou (pois primeiro pensou em cursar psicologia) para despertar o desejo de ser professora.

Lua opina sobre as múltiplas jornadas femininas, ela acredita que a mulher pode estudar, trabalhar e ter família, basta organização. Ela mesma passou por isso, quando voltou a estudar tinha o filho pequeno, mas nunca deixou de acreditar que seria possível trabalhar e também nunca se questionou ou sentiu-se culpada por ter que deixar o filho em casa. Sobre as conquistas femininas ao longo da história cita como principais duas: O direito de fazer a opção por ter ou não filhos e o reconhecimento profissional em qualquer campo de atuação, além de professora ou secretária, que foram, em sua opinião, umas das primeiras profissões femininas.